Huruda Malungane, fundadora e CEO do Fórum CFO Mozambique, estará presente como oradora na 7.ª edição das Conferências Indico, agendada para o dia 03 de setembro. No painel subordinado ao tema “Dados como Motor de Valor: Inovação, Finanças e Inteligência Artificial”, Malungane abordará o papel dos dados como activo estratégico na gestão financeira, destacando como sua utilização pode aumentar a eficiência operacional, fortalecer a tomada de decisão e criar novas oportunidades de negócio.
A sua intervenção pretende oferecer uma visão prática e analítica sobre a integração de inteligência artificial e inovação financeira, evidenciando o potencial dos dados para dinamizar a economia moçambicana.
Profile Mozambique: Em Moçambique, o volume de dados gerados por sectores como a banca, telecomunicações, seguros e consumo cresce de forma acelerada. Na sua perspectiva, quais são os caminhos mais eficazes para transformar este fluxo de dados em valor económico concreto, contribuindo para maior eficiência das organizações e dinamização da economia nacional?
Huruda Malungane: Do meu ponto de vista, o primeiro passo é reconhecer os dados como um activo estratégico, ao mesmo nível dos activos financeiros. Para que estes se transformem em valor real, sustentamos a necessidade de assentar a sua gestão em três pilares fundamentais. O primeiro passa pela criação de infraestruturas digitais robustas, capazes de assegurar a recolha, o armazenamento e o tratamento de informação em tempo real.
O segundo exige a capacitação técnica das equipas, com destaque para áreas como ciência de dados e análise preditiva, de modo a que a informação não se limite a registos históricos, mas se converta em base para decisões estratégicas de negócio. O terceiro pilar centra-se na integração intersectorial, pois acreditamos que o verdadeiro valor reside na capacidade de cruzar dados provenientes de diferentes áreas, como saúde, seguros e telecomunicações, criando soluções mais inclusivas e acessíveis.
Geridos com rigor, os dados têm o potencial de aumentar a eficiência operacional, reduzir custos de transação e, acima de tudo, gerar novos modelos de negócio capazes de dinamizar a economia nacional.
PM: Considerando a realidade do país, que sectores acredita estarem melhor posicionados para liderar a adoção de inteligência artificial e a monetização de dados? E de que forma esse movimento pode redefinir a competitividade das empresas moçambicanas no mercado regional e internacional?
HM: Acredito que a banca, as telecomunicações e os seguros estão naturalmente mais bem posicionados para liderar este processo, não apenas pela escala de dados que já geram, mas também pela sua importância sistémica na economia nacional. A inteligência artificial, aplicada a estes sectores, pode trazer ganhos significativos. Na banca, por exemplo, pode permitir um scoring de crédito mais inclusivo, que contemple também clientes sem histórico formal. No sector das telecomunicações, abre-se espaço para o desenvolvimento de produtos financeiros móveis e seguros acessíveis por via de plataformas digitais. Já nos seguros, a aposta em modelos de pricing dinâmico, baseados em comportamento, pode reduzir fraudes e, simultaneamente, aumentar a acessibilidade dos serviços.

Ao assumirem a dianteira, estes sectores podem construir uma vantagem competitiva regional, projectando Moçambique não apenas como consumidor de soluções tecnológicas, mas como exportador de inovação adaptada ao contexto africano.
PM: Grande parte da economia moçambicana assenta nas pequenas e médias empresas. Que soluções práticas e acessíveis podem ser criadas para permitir que também as PMEs integrem os dados como activo estratégico na sua gestão financeira, evitando que a transformação digital seja um privilégio exclusivo das grandes organizações?
HM: Para as pequenas e médias empresas, entendemos que é essencial apostar em soluções simples, modulares e de baixo custo, que se ajustem à sua realidade operacional. Algumas medidas práticas podem fazer a diferença. Destaco, por exemplo, a utilização de plataformas de contabilidade digital em cloud, acessíveis mediante subscrições mensais reduzidas, e o recurso a ferramentas de análise financeira simplificadas, capazes de traduzir dados em insights claros sobre fluxo de caixa, rentabilidade e riscos.
Acredito, igualmente, na importância de incentivos fiscais ou de parcerias público-privadas que abram às PMEs a possibilidade de aceder a serviços de consultoria digital. Paralelamente, os programas de capacitação em literacia financeira e digital tornam-se decisivos, permitindo que os gestores consigam interpretar e aplicar os dados no quotidiano da gestão.
Deste modo, os dados deixam de ser encarados apenas como relatórios obrigatórios para o fisco e passam a constituir um verdadeiro instrumento de planeamento estratégico, acessível também às pequenas empresas, reforçando a sua competitividade no mercado.
PM: A utilização de dados financeiros como activo levanta questões de privacidade, transparência e regulação. Que desafios regulatórios e éticos identifica neste processo em Moçambique e que medidas considera fundamentais para assegurar confiança e integridade institucional?
HM: Os principais desafios que identifico no aproveitamento estratégico dos dados são claros. Primeiramente, sinto a ausência de um quadro legal robusto que assegure a proteção de dados pessoais e financeiros. Em segundo lugar, enfrentamos o risco de exclusão digital, em que apenas uma parcela da população consegue usufruir do ecossistema digital, deixando muitos fora do acesso a serviços essenciais. Finalmente, lidamos com fraudes e uso indevido de informação sensível, consequência da falta de mecanismos de fiscalização eficazes.
Para mitigar esses riscos, acreditamos ser fundamentais três medidas estruturantes. A primeira é a aprovação e implementação de uma lei de proteção de dados adaptada à realidade moçambicana. A segunda consiste na criação de uma entidade reguladora independente, capaz de garantir transparência, segurança e fiscalização contínua.
A terceira envolve o incentivo a práticas de governança ética dos dados, incluindo auditorias regulares e programas de educação digital para a sociedade. Sem confiança e integridade institucional, afirmamos, os dados perdem seu valor económico e deixam de ser um instrumento de desenvolvimento.
PM: Num horizonte de médio prazo, como imagina o papel dos dados na gestão financeira em Moçambique? Que mudanças estruturais podem decorrer da combinação entre dados, inteligência artificial e inovação financeira para o desenvolvimento sustentável do país?
Identificamos desafios significativos no uso estratégico dos dados. Entre os principais, destaco a ausência de um quadro legal sólido para a proteção de dados pessoais e financeiros, o risco de exclusão digital, que limita o acesso de parte da população ao ecossistema digital, e a ocorrência de fraudes e uso indevido de informações sensíveis devido à falta de mecanismos eficazes de fiscalização.
Para contornar estas questões, consideramos fundamentais três medidas. Primeiro, a aprovação e implementação de uma lei de protecção de dados adaptada à nossa realidade. Segundo, a criação de uma entidade reguladora independente, capaz de assegurar transparência e segurança. Terceiro, o incentivo a práticas de governança ética de dados, com auditorias regulares e programas de educação digital para a sociedade. Sem confiança e integridade institucional, os dados perdem valor económico e deixam de ser um instrumento de desenvolvimento estratégico.