África detém mais de 500 biliões de pés cúbicos de reservas comprovadas de gás natural, concentradas sobretudo em países como a Nigéria, Moçambique, Argélia, Egipto e Tanzânia.
Estas reservas colocam o continente como um actor relevante no mercado energético global, particularmente numa altura em que a Europa e a Ásia procuram alternativas ao carvão e ao petróleo. O relatório Gas for Africa Report 2025 sublinha que a expansão do uso do gás natural é decisiva para sustentar a próxima fase de industrialização africana.
Para além de combustível para produção de electricidade, o gás constitui matéria-prima essencial para fertilizantes, petroquímica e outras indústrias capazes de dinamizar as economias locais. A monetização do gás doméstico pode reduzir a dependência de importações e criar empregos ao longo de toda a cadeia de valor energética.
O continente enfrenta ainda um défice energético significativo, com milhões de pessoas sem acesso à electricidade e a combustíveis limpos para cozinhar. Neste contexto, o gás natural surge como solução pragmática: é mais limpo do que o carvão e o petróleo, abundante localmente e adaptável tanto a grandes centrais eléctricas como a sistemas descentralizados. A expansão de infra-estruturas gasodutos, terminais de gás natural liquefeito (GNL) e redes de distribuição será determinante para reduzir esse défice.
Actualmente, dois países lideram a transformação gasífera africana: Nigéria e Moçambique. Ambos procuram aproveitar as suas vastas reservas e grandes projectos estratégicos para redesenhar o panorama energético continental. A questão central é saber qual deles assumirá a liderança.
Nigéria: o gigante africano do gás
A Nigéria possui cerca de 33% das reservas de gás do continente mais de 206 biliões de pés cúbicos. O Governo declarou a “Década do Gás” (2021–2030), colocando este recurso no centro da política energética e industrial.
O gás alimenta sectores como a indústria transformadora, fertilizantes, petroquímica e siderurgia, contribuindo para reduzir o défice energético num continente onde mais de 600 milhões de pessoas ainda não têm acesso à electricidade. Programas de gás natural comprimido (CNG) e gás natural liquefeito (LNG) estão a substituir combustíveis mais caros e poluentes, tornando a energia mais acessível e sustentável.
A estratégia nigeriana assenta num conjunto de grandes projectos estruturantes, incluindo a expansão do complexo Nigeria LNG (Train 7), o gasoduto AKK e outras iniciativas destinadas a aumentar a oferta interna e as exportações.
O projecto Train 7 representa um investimento de cerca de 10 mil milhões de dólares e deverá aumentar a capacidade de produção de LNG em 35%, de 22 para 30 milhões de toneladas anuais. As obras encontram-se em fase avançada, aproximando-se da conclusão.
Outro projecto emblemático é o gasoduto Ajaokuta–Kaduna–Kano (AKK), com 614 quilómetros de extensão, destinado a impulsionar o crescimento industrial no norte do país e integrar o sistema nacional de transporte de gás.
A estes somam-se projectos como o OB3, concebido para interligar as redes oriental e ocidental, bem como novos desenvolvimentos offshore e onshore que deverão aumentar a capacidade exportadora nos próximos anos.
Moçambique: potência emergente de LNG
Moçambique afirma-se rapidamente como um novo actor estratégico no sector energético africano, graças a vastas reservas ainda pouco exploradas que poderão impulsionar a expansão eléctrica e a transição energética do continente.
Entre os projectos mais relevantes destaca-se o Coral Sul FLNG, operado pela Eni, que iniciou produção em 2022, marcando a entrada do país no mercado global de gás natural liquefeito. O projecto produz cerca de 3,4 milhões de toneladas anuais a partir da Área 4 da Bacia do Rovuma, em parceria com empresas como ExxonMobil, CNPC, Galp, Kogas e a estatal Empresa Nacional de Hidrocarbonetos.
Na sequência deste sucesso, está em preparação o projecto Coral Norte, avaliado em 7,2 mil milhões de dólares, que deverá praticamente duplicar a capacidade de produção flutuante do país.
Outro empreendimento de grande dimensão é o Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, estimado em cerca de 20 mil milhões de dólares. Apesar de atrasos relacionados com questões de segurança, o projecto foi recentemente reactivado, embora alguns financiadores internacionais tenham retirado apoio.
Paralelamente, a ExxonMobil prepara o projecto Rovuma LNG, avaliado em cerca de 30 mil milhões de dólares, que prevê a construção de uma unidade onshore com capacidade de 15,2 milhões de toneladas anuais. A decisão final de investimento é esperada para breve, com produção prevista para 2030.
Estes investimentos deverão gerar receitas de milhares de milhões de dólares, criar emprego e impulsionar infra-estruturas. Para além das exportações para Europa e Ásia, o gás moçambicano poderá reforçar a segurança energética regional e apoiar a industrialização da África Austral.
Em Novembro, o país iniciou também a produção do primeiro gás de cozinha (GPL) produzido localmente, reduzindo a dependência de importações. Segundo a Sasol, trata-se de um passo importante para a valorização interna dos recursos naturais.
O veredicto
Nigéria e Moçambique não estão apenas a exportar gás estão a redefinir o papel de África na ordem energética global. Ambos simbolizam a ambição continental de transformar recursos naturais em industrialização, segurança energética e crescimento sustentável.
A Nigéria mantém, por agora, a liderança, graças às maiores reservas, infra-estruturas consolidadas e forte utilização doméstica. Moçambique, contudo, avança rapidamente com megaprojectos de LNG que poderão transformá-lo numa potência exportadora global na próxima década.
O dinamismo destes dois países complementa ainda o papel histórico de produtores como Argélia e Egipto, cuja produção tem registado declínio nos últimos anos.
Fonte: Energy In Africa



