O economista-chefe do Millennium bim, Oldemiro Belchior, considera que as perspectivas de investimento em Moçambique continuam condicionadas, no curto prazo, pela escassez de divisas, pressão inflacionista, dificuldades de acesso ao financiamento e fragilidade das finanças públicas.
Falando num webinar sobre “Ambiente de Negócios: Investimento e Oportunidades para Empresas”, Belchior apontou a disponibilidade de moeda estrangeira como um dos principais constrangimentos à actividade empresarial, sobretudo para as micro, pequenas e médias empresas (MPME). A dificuldade de acesso a divisas para a importação de bens de consumo, intermédios e de capital, explicou, afecta a rentabilidade e limita a expansão das empresas, noticiou 360 Mozambique.
Para ultrapassar este constrangimento, o economista defendeu maior flexibilidade cambial e uma aproximação entre a taxa oficial e a praticada no mercado, incluindo uma eventual transição para um regime de câmbio flutuante. Belchior reconheceu que esta mudança poderá provocar uma depreciação gradual do metical face ao dólar.
O economista alertou, contudo, que uma desvalorização da moeda nacional poderá encarecer as importações e aumentar as pressões sobre a inflação. Neste cenário, as condições monetárias poderão permanecer restritivas ou tornar-se mais apertadas em 2027, dificultando o acesso das empresas ao crédito.
A fragilidade das finanças públicas e as avaliações negativas das agências de notação financeira constituem igualmente factores de risco para as decisões de investimento. Neste contexto, Belchior considerou que um eventual acordo entre Moçambique e o Fundo Monetário Internacional (FMI) poderia contribuir para reforçar a credibilidade do país e apoiar a estabilização das contas públicas.
Apesar dos constrangimentos no curto prazo, o economista identificou oportunidades associadas aos grandes projectos de GNL, indústria transformadora, agro-indústria e energia. Segundo Belchior, estes investimentos poderão aumentar a procura por bens e serviços produzidos localmente e estimular o desenvolvimento de novas cadeias de valor.
Para que esse impacto se concretize, defendeu uma maior integração das empresas moçambicanas nas cadeias de fornecimento dos grandes projectos. Essa integração poderá reduzir a distância entre os megaprojectos e o restante tecido empresarial, numa economia que descreveu como funcionando a “duas velocidades”.
A criação de cadeias de fornecimento locais poderá, assim, ampliar os efeitos dos grandes investimentos sobre as empresas nacionais, através de oportunidades em sectores como logística, indústria, alimentação, construção, energia e prestação de serviços.
Para o último trimestre de 2026, Belchior não prevê uma melhoria significativa do ambiente de negócios, devido à persistência das pressões inflacionistas, da escassez de divisas e das condições monetárias restritivas. Já numa perspectiva de médio e longo prazo, particularmente a partir de 2030, antevê melhores condições, à medida que avancem os grandes projectos e as infra-estruturas associadas.
A análise surge num contexto em que o próprio Belchior tem defendido medidas para reforçar a capacidade financeira das empresas nacionais, incluindo mecanismos de capitalização que permitam às PME aumentar o capital próprio e melhorar o acesso ao financiamento bancário.



