A inflação em Moçambique deverá abandonar a trajectória de abrandamento registada em 2025 e retomar uma dinâmica ascendente a partir de 2026, pressionada por factores cambiais, fiscais e estruturais. De acordo com a consultora britânica Oxford Economics, a inflação média poderá situar-se em 4,8% este ano, antes de acelerar para 8,4% em 2027, num cenário marcado pela retoma dos projectos de gás natural liquefeito, pela escassez de divisas e por ajustamentos esperados no valor do metical.
Da desinflação à pressão gradual sobre os preços
Após um período de moderação, em que a inflação anual caiu para 3,23% em 2025, praticamente metade da previsão inicial do Governo, os analistas da Oxford Economics consideram que os fundamentos macroeconómicos apontam para uma inversão gradual desta tendência. No curto prazo, a inflação deverá manter-se relativamente contida no primeiro trimestre de 2026, beneficiando da estabilidade cambial recente e da manutenção de taxas de juro reais elevadas por parte do Banco de Moçambique.
Contudo, este equilíbrio é visto como frágil. A consultora sublinha que a actual trajectória não incorpora ainda choques adicionais associados às cheias e perdas agrícolas recentemente registadas no país, factores que poderão exercer pressão adicional sobre os preços dos alimentos ao longo do ano.

Metical sobrevalorizado e reservas limitadas
Um dos principais motores da inflação projectada prende-se com o comportamento esperado da taxa de câmbio. Segundo a Oxford Economics, o metical permanece sobrevalorizado, num contexto de reservas internacionais limitadas e de crescente pressão externa, incluindo as exigências do Fundo Monetário Internacional em matéria de ajustamento macroeconómico.
Este enquadramento deverá conduzir o Governo e o banco central a promoverem uma desvalorização gradual da moeda em 2026, com impactos directos sobre os preços dos bens importados e sobre a inflação subjacente. À medida que os efeitos cambiais se tornem mais pronunciados, a consultora antecipa uma aceleração inflacionista mais forte em 2027.
Gás natural e política orçamental como factores de pressão
Outro elemento central da análise é o reinício dos grandes projectos de gás natural liquefeito (GNL), que, embora positivos para o crescimento económico e para as exportações no médio prazo, tendem a gerar pressões inflacionistas no curto prazo, sobretudo através do aumento da procura interna, da circulação monetária e da pressão sobre serviços e bens não transaccionáveis.
A isto acresce a possibilidade de financiamento monetário do défice orçamental, num contexto de restrições fiscais e necessidades crescentes de despesa pública, cenário que, segundo os analistas, poderá contribuir para um aumento adicional da liquidez e, consequentemente, dos preços.
Comparação histórica e enquadramento regional
Apesar da trajectória ascendente prevista, a Oxford Economics sublinha que os níveis projectados permanecem, para já, abaixo dos picos históricos recentes. Em 2024, a inflação acumulada situou-se em 4,15%, após ter atingido máximos próximos de 13% em Julho de 2022, enquanto em 2023 rondou os 5,3%.
Ainda assim, a aceleração prevista para 2027 coloca Moçambique novamente numa posição de maior vulnerabilidade face a choques externos, sobretudo num contexto regional marcado por volatilidade cambial, pressões nos preços dos alimentos e custos energéticos incertos.
Implicações para a política monetária
A trajectória inflacionista antecipada reforça o dilema da política monetária em Moçambique. Por um lado, o Banco de Moçambique tem procurado manter uma postura restritiva para ancorar expectativas e conter a inflação; por outro, a necessidade de apoiar a recuperação económica e acomodar choques fiscais e externos limita a margem de manobra.
Neste contexto, a previsão da Oxford Economics sugere que a estabilidade de preços em 2026 será mais difícil de preservar, exigindo um delicado equilíbrio entre controlo da liquidez, gestão cambial e coordenação com a política orçamental.
Fonte: O.Economico



