Em 6 de Março de 2007, a Safaricom lançou o M-Pesa no Quénia com um objectivo simples: permitir que pessoas sem conta bancária enviassem e recebessem dinheiro através do telemóvel. Numa altura em que menos de 20% dos adultos quenianos tinham acesso a serviços bancários formais, a proposta era revolucionária. Dezoito anos depois, os números falam por si: mais de 66 milhões de clientes em toda a África, um volume anual de transacções que ultrapassou os 450 mil milhões de dólares em 2025, e uma penetração de 82% da população adulta no Quénia a mais alta do continente.
A plataforma está também presente em Moçambique, onde a digitalização dos pagamentos continua a avançar num contexto de baixa bancarização formal. As remessas enviadas através do M-Pesa ultrapassaram os 3 mil milhões de dólares em 2024, beneficiando directamente famílias rurais em mercados onde a plataforma opera.
O modelo M-Pesa funciona onde o sistema bancário formal é fraco e a regulação é favorável. Esta combinação explica o sucesso no Quénia, na Tanzânia e, com crescimento acelerado, na Etiópia onde a base de utilizadores activos cresceu 174,8% num período de seis meses em 2025. O modelo falhou na África do Sul, onde a robusta infraestrutura bancária existente eliminou o problema que o M-Pesa foi criado para resolver.
Em Julho de 2025, a plataforma integrou-se com o PayPal para simplificar transferências internacionais, e em 2025 lançou cartões virtuais Visa GlobalPay para facilitar o comércio electrónico. A Safaricom abrirá a plataforma a programadores externos desde 2017, com mais de 90.000 programadores no ecossistema Daraja e mais de 40.000 integrações empresariais activas.
Moçambique partilha as condições estruturais que tornaram o M-Pesa um sucesso noutros mercados: baixa bancarização, elevada penetração móvel, e uma economia informal extensiva que depende de transacções em dinheiro. A questão que se coloca às instituições financeiras, reguladores e empresas de tecnologia que participam nesta edição da Revista Profile é directa: que combinação de vontade regulatória, investimento privado, literacia financeira e capacidade institucional pode desbloquear um salto semelhante em Moçambique? A resposta a essa pergunta não é apenas académica. É um imperativo de desenvolvimento económico e uma oportunidade de negócio significativa para quem actuar primeiro.



