Friday, January 16, 2026
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Oportunidades para estar atento em Angola e Moçambique

Angola e Moçambique continuam a afirmar-se como os principais destinos de investimento no espaço africano de língua portuguesa, concentrando a maior fatia do trabalho das sociedades de advocacia e consultoria com presença internacional. A leitura é transversal entre responsáveis da VdA, EY, Pérez-Llorca e Abreu Advogados, ouvidos pelo JE, perspectivam para 2026 um ano de oportunidades relevantes, ainda que marcado por exigências acrescidas ao nível da estabilidade, execução e enquadramento regulatório.

De acordo com José Miguel Oliveira, sócio da área de Oil & Gas da VdA, Angola deverá manter-se como o principal mercado africano para as empresas portuguesas, a par do Brasil, beneficiando do dinamismo do sector petrolífero e de um pipeline consistente de grandes projectos estruturantes.

“Numa altura em que o país aposta na intensificação da exploração petrolífera e na estabilização da produção acima de um milhão de barris por dia, projectos como o Kaminho e Clov Fase 3, da TotalEnergies, Agogo e Ndungu, da Azule Energy, ou N’Dola Sul, da Chevron, deixam sinais claros de que esta meta é alcançável”, sublinha o advogado, acrescentando que estes desenvolvimentos poderão contribuir para a consolidação fiscal angolana.

O responsável destaca ainda o potencial das empresas portuguesas, sobretudo nas áreas da engenharia, manutenção, hidráulica e metalomecânica, que poderão alavancar a sua experiência e presença local para apoiar estes investimentos.

Com as eleições gerais marcadas para 2027, José Miguel Oliveira antecipa que o investimento em infra-estruturas, logística e mobilidade continue a ganhar tracção ao longo de 2026. Entre os projectos com maior potencial de atracção de capital privado figuram o Corredor do Lobito, o novo aeroporto de Luanda, a cidade aeroportuária, a concessão dos terminais de passageiros e cabotagem do Soyo e Cabinda, os corredores ferroviários norte e sul e a expansão do terminal de contentores do Porto do Namibe.

No sector da energia, o fim do monopólio estatal na comercialização e transporte, na sequência das recentes alterações à Lei Geral da Electricidade, abre um novo ciclo de oportunidades para o investimento privado, num mercado que procura responder às necessidades de crescimento económico e industrial.

Já na agro-indústria, o advogado reconhece um crescimento sustentado, ainda que sublinha o reduzido interesse das empresas portuguesas face à presença mais activa de operadores franceses e italianos. Para 2026, as previsões apontam para um crescimento económico moderado, entre 2% e 3%, com a descida da inflação e a dimensão dos projectos em curso a poderem impulsionar o investimento directo estrangeiro.

Angola com proposta de valor mais clara

Do lado da EY, Miguel Farinha, country managing partner, considera que Angola entra em 2026 com uma proposta de valor mais definida para o investimento internacional, ainda que continue a exigir reformas e estabilidade.

“A diversificação da economia começa a traduzir-se em oportunidades concretas, nomeadamente na mineração, agricultura e energia”, observa, destacando o papel do Corredor do Lobito enquanto plataforma logística regional capaz de ligar a produção aos mercados globais.

Moçambique num “momento de viragem”

No que respeita a Moçambique, José Miguel Oliveira fala num verdadeiro “momento de viragem”, impulsionado pela retoma dos grandes projectos de gás natural na Bacia do Rovuma e pelo desempenho positivo da indústria extractiva, em particular do ouro, cujo preço atingiu máximos históricos.

Ainda assim, o advogado alerta para pressões de curto prazo, relacionadas com a consolidação orçamental exigida pelos parceiros internacionais e com a paragem programada da plataforma FLNG do projecto Coral Sul, bem como com o declínio da produção nos campos de Pande e Temane, factores que poderão ter impacto temporário nas receitas do Estado.

No médio e longo prazo, contudo, os projectos Coral Norte FLNG (ENI), Mozambique LNG (TotalEnergies) e o antecipado avanço do Rovuma LNG (ExxonMobil) deverão garantir ganhos estruturais para o sector energético e para a economia no seu conjunto.

Após um ano de 2025 marcado por instabilidade pós-eleitoral e pela persistência da insegurança em Cabo Delgado, as previsões apontam para uma recuperação do crescimento real do PIB moçambicano entre 2,5% e 2,8% em 2026, com destaque para os sectores extractivos, construção, serviços, agricultura e pescas.

Miguel Farinha reforça que o recomeço dos grandes projectos de gás deverá estimular o investimento directo estrangeiro e o surgimento de cadeias de valor associadas, aumentando a procura por serviços profissionais especializados, desde compliance fiscal e operacional ao desenho de modelos de entrada e expansão no mercado.

Infra-estruturas, finanças e digital no centro das atenções

Para Sébastien Coquard, sócio da Pérez-Llorca nas áreas de Direito Societário, M&A e Infra-estruturas, África vive uma transição estrutural, passando de modelos extractivos para estratégias de industrialização, diversificação económica e integração regional.

Projectos como corredores logísticos, portos integrados, caminhos-de-ferro transfronteiriços e plataformas industriais assumem-se como activos estratégicos, a par do crescimento do sector dos serviços, impulsionado pelas finanças, digitalização e suporte à indústria.

Entre os exemplos concretos, destaca o projecto de interconexão eléctrica HVDC em Angola, com capacidade de 2.000 MW, e o projecto híbrido solar-bateria-diesel de Balama, em Moçambique, associado à mina de grafite, como casos de inovação e autossuficiência energética.

No plano financeiro, o Corredor do Lobito tornou-se um caso emblemático de mobilização de financiamento internacional, com crescente protagonismo de bancos regionais africanos, como o Afreximbank e a Africa Finance Corporation.

Paralelamente, o ecossistema fintech mantém-se em forte expansão, com um número crescente de startups africanas a captar financiamento e a desenvolver soluções financeiras de alcance regional, beneficiando também de iniciativas como o programa “Digital Trade for Africa”, promovido pela OMC e pelo Banco Mundial.

Perspectivas da Abreu Advogados

A Abreu Advogados antecipa, para Angola, uma alteração no perfil dos investidores, com maior protagonismo do Médio Oriente e da África Subsariana, num ano marcado por grandes projectos de infra-estruturas e crescimento nos sectores da construção, energia, logística, mineração e oil & gas.

Em Moçambique, a sociedade destaca a consolidação do crescimento económico impulsionado pelo investimento estrangeiro, com impacto na procura por assessoria jurídica em contratos, concessões, PPPs, arbitragem internacional, direito bancário, seguros, microfinanças, tecnologia e combate ao branqueamento de capitais. No conjunto, as análises convergem numa ideia central, Angola e Moçambique entram em 2026 com oportunidades relevantes, mas exigem dos investidores e operadores uma abordagem estratégica, capacidade de execução e alinhamento com os desafios regulatórios, sociais e económicos de longo prazo.

Fonte: Jornal Económico

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