Saturday, February 21, 2026
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ROVUMA LNG: ExxonMobil aponta para a Decisão Final de Investimento ainda este ano

Depois de uma década de adiamentos, da pandemia ao terrorismo, a ExxonMobil levanta a “força maior” e aponta para a Decisão Final de Investimento ainda este ano. O projecto de 30 mil milhões de dólares pode transformar Moçambique no terceiro maior exportador de GNL de África

Era 2018 quando a ExxonMobil e os seus parceiros submeteram formalmente ao Governo moçambicano o plano de desenvolvimento do projecto Rovuma LNG. Nessa altura, o optimismo era total: a Decisão Final de Investimento (FID, na sigla inglesa) estava prevista para 2019, e os primeiros carregamentos de gás natural liquefeito deveriam cruzar o Oceano Índico rumo à Ásia em 2024. Ninguém antecipava o que viria a seguir.

Sete anos depois, atravessados por uma pandemia global, pelo ataque jihadista a Palma que destruiu a vida de uma cidade e paralisou dois megaprojectos em simultâneo, por redesenhos técnicos, adiamentos sucessivos e pressões geopolíticas que envolveram sanções americanas contra a China a ExxonMobil levantou em Novembro de 2025 a declaração de force majeure sobre o Rovuma LNG. A empresa norte-americana confirmou que continua a apontar para uma Decisão Final de Investimento em 2026, com os primeiros carregamentos de GNL previstos para 2030.

O projecto orçado em 30 mil milhões de dólares, é descrito pelos seus próprios promotores como o maior da história de África. Para Moçambique, representa muito mais do que um número: é a promessa de transformar a pobreza em prosperidade, de converter gás em hospitais, escolas e estradas, de posicionar o país no mapa energético global de uma forma que nenhuma outra geração de moçambicanos alguma vez imaginou possível.

Uma bacia que guarda o futuro

A bacia do Rovuma, que se estende ao longo da costa norte de Cabo Delgado e se prolonga para as profundezas do Oceano Índico, é uma das mais extraordinárias descobertas de hidrocarbonetos do século XXI. As reservas provadas da bacia ultrapassam os 85 biliões de pés cúbicos de gás, um volume que coloca Moçambique entre os países com maiores reservas de gás natural do continente africano e entre os dez maiores do mundo.

O projecto Rovuma LNG está localizado na Área 4, a concessão operada pela joint venture Mozambique Rovuma Venture (MRV). O consórcio é liderado pela ExxonMobil como operador onshore, ao lado da italiana Eni (25%, operadora das unidades FLNG offshore), da chinesa CNPC (20%), da sul-coreana KOGAS (10%), da Abu Dhabi National Oil Company/XRG (10%) e da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH, 10%).

A arquitectura do projecto foi profundamente redesenhada em 2021. Em vez das duas enormes linhas de liquefacção de 7,6 milhões de toneladas por ano cada, que eram a concepção original, a ExxonMobil anunciou a substituição por 12 módulos de 1,5 milhões de toneladas por ano cada, aumentando a capacidade total para 18 milhões de toneladas por ano. A mudança não é apenas técnica: é estratégica. Os módulos oferecem maior flexibilidade de construção, menor risco de execução e factor crescentemente determinante no contexto do activismo climático uma pegada de carbono significativamente reduzida graças à utilização de accionamentos eléctricos nos compressores principais.

Uma história de adiamentos e resiliência

O historial do Rovuma LNG é, em si mesmo, uma crónica da complexidade de desenvolver megaprojectos em mercados emergentes. A FID, inicialmente prevista para 2019, foi sucessivamente adiada por razões que se acumularam como camadas de uma crise:

2019-2020: Os preços das propostas dos consórcios de engenharia e construção vieram acima do orçamentado. A ExxonMobil pediu revisões de custos. A pandemia da COVID-19 paralisou o mundo e fez colapsar os mercados de hidrocarbonetos.

2021: O ataque jihadista a Palma, em Abril, forçou a TotalEnergies a declarar force majeure no projecto Mozambique LNG, a escassos quilómetros do estaleiro do Rovuma LNG. A ExxonMobil seguiu o mesmo caminho. O seu presidente executivo para a área de Upstream, Liam Mallon, deslocou-se a Maputo para informar pessoalmente o Presidente Filipe Nyusi da nova decisão.

2021-2022: A ExxonMobil iniciou uma revisão do projecto para incorporar requisitos ambientais mais exigentes do seu novo conselho de administração, incluindo a captura de emissões de carbono. O redesenho para módulos eléctricos durou mais de um ano.

2023-2024: Com a situação de segurança a estabilizar-se gradualmente, a ExxonMobil relançou o processo de FEED competitivo. Em Setembro de 2024, foram atribuídos dois contratos de FEED: um ao consórcio JGC Holdings e Technip Energies; outro ao consórcio McDermott, Saipem e China Petroleum Engineering and Construction Corporation (CPECC).

Novembro 2025: A ExxonMobil levantou oficialmente a force majeure sobre o Rovuma LNG, alinhando-se com a TotalEnergies, que tinha feito o mesmo movimento semanas antes com o Mozambique LNG.

O quadro de segurança: “gerido, não resolvido”

A decisão de retomar as operações não significa que os riscos desapareceram. A situação de segurança em Cabo Delgado é caracterizada pelos analistas como “gerida, e não resolvida”, e as pressões de financiamento, seguros e inflação de custos pesarão fortemente nas decisões dos parceiros. O que mudou é o quadro formal de protecção. Após a retirada faseada da missão SAMIM da SADC, o Governo moçambicano assinou um Acordo de Estatuto das Forças com o Ruanda, prevendo o destacamento de cerca de 4.000 soldados ruandeses entre 2024 e 2026 para garantir a protecção permanente da zona de Afungi. Este enquadramento jurídico oferece as garantias formais que os seguradores, os financiadores e os parceiros industriais precisam para mobilizar recursos.

O ecossistema GNL de Moçambique toma forma

O Rovuma LNG não existe no vazio. Insere-se num ecossistema de projectos que está, finalmente, a tomar forma. Para além das instalações onshore do Rovuma LNG, a Área 4 inclui a unidade Coral Sul FLNG, já em produção desde o quarto trimestre de 2022 com capacidade de 3,4 milhões de toneladas por ano, e o Coral Norte FLNG, para o qual a Eni e os seus parceiros tomaram a Decisão Final de Investimento em Outubro de 2025, com a primeira produção programada para o segundo trimestre de 2028. World Economics

O projecto Mozambique LNG da TotalEnergies, na Área 1 vizinho do Rovuma LNG na Península de Afungi, levantou também a sua force majeure em Outubro de 2025, apontando para os primeiros carregamentos em 2029.

Com 13,1 milhões de toneladas por ano de capacidade, o Mozambique LNG enfrenta derrapagens orçamentais superiores a 4,5 mil milhões de dólares face ao orçamento inicial de 20 mil milhões, tendo solicitado ao Governo uma extensão de 10 anos do período de desenvolvimento e produção.

A combinação dos três projectos Coral Sul, Coral Norte e Rovuma LNG, posiciona Moçambique para se tornar o terceiro maior exportador de GNL de África, atrás apenas da Nigéria e da Argélia, com um impacto transformador nas finanças públicas e na economia nacional.

O que está em jogo para Moçambique

As implicações económicas para Moçambique são da maior magnitude. No cenário optimista, uma FID em 2025-2026 e uma entrada em produção sem sobressaltos poderiam colocar o Rovuma LNG a funcionar acima de 90% da capacidade a partir de meados da década de 2030, gerando receitas fiscais para o Estado moçambicano bem acima de mil milhões de dólares por ano, um patamar que as instituições internacionais consideram viável para 2035.

A fase de construção deverá criar 5.000 empregos directos e promover o desenvolvimento de competências locais. Os efeitos multiplicadores na economia regional, logística, serviços, construção civil, fornecimento local poderão ser ainda mais significativos.

O Presidente da República, Daniel Chapo, que tomou posse em Janeiro de 2025 após as conturbadas eleições de Outubro de 2024, tem sublinhado o gás natural como eixo central da estratégia de desenvolvimento de Moçambique — e a Decisão Final de Investimento do Rovuma LNG como uma das prioridades da sua agenda internacional.

Fevereiro de 2026: o momento da verdade

Segundo as informações mais recentes disponíveis em Fevereiro de 2026, a ExxonMobil deverá estar em condições de tomar a Decisão Final de Investimento até ao final do ano, embora as obras de construção propriamente ditas não devam ter início antes do final de 2027. O processo de FEED competitivo está a decorrer dentro do prazo previsto, com os dois consórcios de engenharia a trabalhar em paralelo num processo que deverá durar pelo menos 16 meses.

O CEO da ExxonMobil, Darren Woods, afirmou em Outubro de 2025 que o projecto moçambicano estava “numa posição muito boa”, acrescentando que as condições de segurança na província de Cabo Delgado estão a melhorar gradualmente após anos de instabilidade.

A janela estratégica é, porém, estreita. A Agência Internacional de Energia registou um crescimento de 2,7% no consumo mundial de gás em 2024, impulsionado pela recuperação da procura asiática e pelo aumento das exportações de GNL para a Europa, esperando um crescimento adicional de 1,3% em 2025. Este contexto de mercado favorece a aposta de Moçambique mas a concorrência de outros fornecedores, do Qatar ao Canadá, passando pelos Estados Unidos, exige que a FID seja tomada sem mais demoras.

Para Moçambique, o Rovuma LNG é mais do que um projecto de hidrocarbonetos. É a oportunidade de uma geração. A história dirá se foi aproveitada. (Simão Djedje)

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