As empresas moçambicanas estão a perder oportunidades no sector do gás natural liquefeito por chegarem ao mercado sem a preparação mínima exigida pelas grandes companhias internacionais. O alerta foi lançado por Anicha Abdul, vice presidente da Câmara de Energia de Moçambique, durante um encontro realizado esta terça feira, 24 de Março, em Maputo.
A responsável falava no evento “As Mulheres na Economia do Gás Natural Liquefeito em Moçambique”, organizado pela Lionesses of Africa, plataforma internacional de apoio ao empreendedorismo feminino, em parceria com o Standard Bank Moçambique. O encontro reuniu empresárias e especialistas para debater os principais desafios e oportunidades do sector.
Um dos principais problemas identificados por Anicha Abdul é a concentração excessiva dos empresários nacionais em torno dos mesmos alvos: ExxonMobil, TotalEnergies, Eni. “Todos queremos trabalhar com essas empresas, mas é importante perceber que a cadeia de valor do gás é muito mais ampla e oferece várias oportunidades”, afirmou.
A dirigente foi directa quanto às razões do insucesso. As grandes companhias impõem barreiras técnicas e financeiras que a maioria das empresas nacionais ainda não consegue superar. “Estas empresas não aceitam sequer propostas sem certificação ISO e exigem demonstrações financeiras dos últimos três anos”, esclareceu, sublinhando que este requisito elimina automaticamente grande parte dos candidatos nacionais.
Para Anicha Abdul, a resposta está nos níveis intermédios e inferiores da cadeia de valor, precisamente onde menos empresários procuram. “O trabalho raramente está directamente nas grandes multinacionais. Elas subcontratam outras empresas, e é nesses níveis que existem mais oportunidades para os empresários locais”, explicou.
A vice presidente alertou ainda para o facto de muitas dessas oportunidades nunca chegarem a ser divulgadas publicamente. “É preciso observar o mercado, fazer perguntas e identificar problemas concretos que possam ser resolvidos”, disse, defendendo uma postura mais proactiva e menos reactiva por parte dos empresários nacionais.
A questão da conformidade foi um dos temas centrais do debate. Anicha Abdul foi clara: a certificação ISO deixou de ser um diferencial para se tornar uma condição de entrada. “As empresas internacionais procuram parceiros com processos bem definidos, organização e fiabilidade”, afirmou.
Reconhecendo, contudo, que nem todas as empresas têm capacidade financeira imediata para obter certificações formais, a responsável recomendou uma abordagem faseada. “Mesmo sem certificação, é importante organizar bem os documentos e procurar formação, consultores ou parceiros com experiência”, aconselhou.
Márcia Karin, directora da Banca Comercial e de Negócios do Standard Bank Moçambique, reforçou a dimensão relacional do acesso ao mercado. Para a responsável, a rede de contactos e o acesso à informação no momento certo são tão determinantes quanto a capacidade técnica das empresas. “Conhecer as pessoas certas, as empresas certas e ter acesso à informação no momento certo é fundamental para o sucesso neste sector”, concluiu.
O encontro desta terça feira insere se num ciclo crescente de iniciativas que procuram preparar o tecido empresarial moçambicano e em particular as mulheres empresárias para tirar partido do boom do gás natural que Moçambique atravessa, com projectos de grande envergadura em curso em Cabo Delgado.



