A PKF está em Maputo desde 2007, mas muitos profissionais de negócio em Moçambique ainda associam auditoria e consultoria às Big Four. Quando apresenta a PKF a um potencial cliente pela primeira vez, o que é que diz que a distingue e o que é que isso significa concretamente para quem vos contrata?
Quando apresento a PKF, digo é a PKF Moçambique combina o melhor de dois mundos: a proximidade, conhecimento local e senioridade acessível de uma firma presente no mercado moçambicano, com a metodologia, recursos técnicos e alcance internacional de uma rede global.
Para quem nos contrata, isso significa três coisas muito concretas: primeiro, acesso directo a profissionais seniores; segundo, uma capacidade de resposta mais próxima e pragmática; terceiro, soluções que não são apenas tecnicamente correctas, mas também aplicáveis à realidade operacional e regulatória de Moçambique.
A PKF Moçambique opera em rede directa com a PKF Portugal, Angola, Cabo Verde e São Tomé e Principe. Na prática, o que é que essa ligação permite fazer aqui que uma firma independente local não conseguiria?
A vantagem competitiva não é apenas “ter ligação à rede PKF”. A vantagem é operar dentro de uma plataforma lusófona integrada, com liderança estratégica comum, coordenação executiva única e capacidade de mobilizar recursos entre jurisdições.
Quando um projecto em Moçambique exige competências específicas por exemplo IFRS, fiscalidade internacional, preços de transferência, corporate finance, controlo interno, tecnologia, recursos humanos ou reporting de grupo, a PKF Moçambique pode mobilizar especialistas da plataforma lusófona de forma mais directa.
Assim, a PKF Moçambique consegue oferecer ao mercado uma alternativa com escala suficiente para projectos complexos, mas com proximidade e flexibilidade superiores às estruturas mais pesadas. Ou seja: capacidade internacional sem perder a agilidade local.
II. MOMENTO ACTUAL & MERCADO
Para além das auditorias anuais de empresas privadas, o sector de auditoria e consultoria em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo: sector público, organizações da sociedade civil, projectos financiados por doadores, empresas extractivas. Que leitura faz do mercado no seu conjunto, o que já funciona e o que ainda falta?
O mercado moçambicano está mais exigente do que era há alguns anos. Hoje já existe maior consciência sobre a importância da auditoria, do controlo interno, da conformidade fiscal, da governação e da prestação de contas. Isso é visível nas empresas privadas, nas organizações da sociedade civil, nos projectos financiados por doadores, no sector público e também nos sectores extractivo, energético e de infra-estruturas.
Pese embora o papel da auditoria seja atualmente mais reconhecido, falta o mercado valorizar mais a qualidade técnica e não apenas o preço. Por vezes, ainda se olha para a auditoria como uma commodity (o serviço de auditoria é percebido como algo obrigatório e um “transtorno necessário”, perdendo-se o foco no valor agregado). Esse é um grande erro. A qualidade de uma auditoria depende da experiência da equipa, da metodologia, da independência, do tempo dedicado e da capacidade de compreender o negócio. Quando se comprime demasiado o preço, comprime-se também a profundidade do trabalho.
Em finais de 2025, foi apresentado em Maputo um relatório de avaliação nacional com um roteiro para modernizar a função de auditoria interna no sector público moçambicano. Esse é um mercado onde a PKF actua?
Sim, é uma área onde a PKF actua. O nosso papel, enquanto firma independente, pode passar por apoiar diagnósticos de controlo interno, desenho de matrizes de risco, revisão de processos, capacitação de equipas, implementação de metodologias de auditoria baseada no risco e apoio à criação de mecanismos de seguimento de recomendações.
A modernização da auditoria interna no sector público não deve ser vista apenas como uma reforma administrativa. Deve ser vista como uma ferramenta de melhoria da governação, da gestão do risco, da eficiência da despesa pública e da confiança dos cidadãos e parceiros de desenvolvimento.
A instabilidade pós-eleitoral de fins de 2024 contraiu a actividade económica. Do ponto de vista da procura de serviços de auditoria e consultoria, o que é que esse período revelou sobre quais os clientes que resistem e quais os que recuam primeiro?
O período pós-eleitoral de finais de 2024 foi um teste muito concreto à resiliência das empresas em Moçambique. Do ponto de vista da procura de serviços de auditoria e consultoria, esse período revelou uma diferença clara entre dois tipos de clientes.
Os clientes que resistiram melhor, foram aqueles com estruturas de governação mais maduras. Para esses clientes, a instabilidade não reduziu a importância da auditoria, do controlo interno, da consultoria fiscal ou do reporting. Pelo contrário, tornou esses serviços ainda mais relevantes. Em momentos de incerteza, as organizações precisam de saber onde estão os seus riscos, qual é a sua posição financeira real, que compromissos conseguem cumprir, como proteger tesouraria e como manter transparência perante os seus stakeholders.
Os clientes que recuaram primeiro foram, em geral, empresas com maior pressão de liquidez, menor formalização de processos ou que ainda encaram auditoria e consultoria como um custo administrativo, e não como instrumentos de gestão. Quando existe uma crise, esses clientes tendem a adiar decisões, cortar serviços considerados não essenciais e concentrar-se apenas na sobrevivência operacional imediata.
III. PESSOAS, CULTURA & LIDERANÇA
A PKF Moçambique opera num mercado onde outros players existem. Recrutar e reter talento para uma firma mid-tier nesse contexto é um desafio específico. Como é que a PKF resolve esse problema de forma que não seja apenas a remuneração?
A remuneração é importante, naturalmente, mas não é suficiente. As pessoas ficam onde sentem que aprendem, crescem, são respeitadas. Proporcionar aos colaboradores um “ambiente de pertença” é um dos pilares cruciais na retenção de talento, criando uma conexão emocional entre o colaborador e a organização. Quando os colaboradores se sentem parte integrante de uma equipe, valorizados e alinhados com a cultura da empresa, a probabilidade de procurarem outras oportunidades diminui significativamente.
Numa firma como a PKF, um jovem profissional não é apenas uma peça pequena dentro de uma estrutura muito distante. Tem contacto mais próximo com managers, partners e clientes. Aprende mais cedo a compreender o negócio, a pensar criticamente, a escrever melhor, a comunicar melhor e a assumir responsabilidade.
A nossa proposta para o talento passa por formação, exposição internacional, cultura de proximidade, exigência técnica, ética profissional e oportunidade real de crescimento. Queremos que a PKF seja vista como uma escola de qualidade e, ao mesmo tempo, como uma plataforma de carreira.
Ricardo Coelho é o Key Contact público da PKF Moçambique e esteve até há bem pouco tempo ligado à Câmara de Comércio de Moçambique. Em firmas de serviços profissionais, o negócio é construído por relações. Qual a diferença entre construir relações institucionais e construir reputação técnica?
As relações institucionais abrem portas. A reputação técnica mantém essas portas abertas.
Num mercado como Moçambique, as relações são importantes porque ajudam a criar confiança, proximidade e conhecimento mútuo. Mas, em serviços profissionais, a relação nunca substitui a competência. O cliente pode aceitar uma primeira reunião por confiança institucional; mas só contrata se a entrega técnica for sólida.
A reputação constrói-se nos detalhes: cumprir prazos, ser independente, dizer a verdade mesmo quando ela é desconfortável, explicar riscos de forma clara, produzir relatórios úteis e apresentar recomendações que façam sentido para a realidade do cliente.
IV. VISÃO & FUTURO
O PKF International lançou nos últimos anos serviços de ESG advisory, forensics e digital advisory como áreas de crescimento para a rede. Quais dessas linhas são já relevantes para Moçambique e quais precisam ainda que o mercado amadureça para existirem aqui?
As três áreas são relevantes, mas em níveis diferentes de maturidade.
O ESG já é relevante em Moçambique, sobretudo em sectores como energia, mineração, infra-estruturas, banca, projectos financiados por doadores e empresas integradas em cadeias de valor internacionais. Mas deve ser tratado de forma prática. Não se trata apenas de produzir relatórios bonitos. Trata-se de medir riscos ambientais, sociais e de governação, criar controlos, demonstrar conformidade e responder a expectativas de financiadores, comunidades e parceiros internacionais.
Forensics também é uma área cada vez mais importante. À medida que as organizações crescem e os fluxos financeiros se tornam mais complexos, aumentam os riscos de fraude, conflito de interesses, fragilidades em procurement, pagamentos indevidos, falhas de controlo e exposição reputacional.
Digital advisory talvez seja a área com maior potencial de crescimento, mas também aquela que exige mais maturidade prévia. Antes de falar em transformação digital, muitas organizações ainda precisam de organizar processos, melhorar a qualidade dos dados, integrar sistemas e criar disciplina de controlo. A digitalização só gera valor quando assenta em processos bem desenhados.
O sector extractivo em Moçambique, nomeadamente o gás em Cabo Delgado, cria procura de auditoria e advisory de grande dimensão. Esse tipo de mandato é acessível a uma firma mid-tier, ou está estruturalmente concentrado nas Big Four?
Depende do tipo de mandato. Alguns grandes mandatos globais, sobretudo auditorias de grupos multinacionais ou assignments altamente centralizados, tendem naturalmente a concentrar-se nas grandes redes internacionais. Isso é uma realidade do mercado.
Mas o sector extractivo não é composto apenas pelo operador principal. Existe todo um ecossistema de fornecedores, subcontratados, empresas locais, projectos de conteúdo local, estruturas de apoio, logística, construção, etc. É nesse ecossistema que firmas como a PKF podem ter um papel muito relevante.
Uma firma mid-tier com rede internacional, conhecimento local e acesso a especialistas pode competir muito bem em áreas onde o cliente valoriza proximidade, senioridade, pragmatismo e custo-benefício. O ponto não é tentar disputar todos os mandatos. O ponto é escolher os mandatos onde podemos entregar valor real.
V. ECOSSISTEMA & COMUNIDADE
Na sua perspectiva, quem são os principais concorrentes da PKF no mercado moçambicano de auditoria e consultoria e o que os distingue?
Eu responderia a essa pergunta mais por categorias do que por nomes. O mercado moçambicano tem três grandes grupos de concorrência: as Big Four, outras redes internacionais e firmas locais ou regionais com presença em segmentos específicos.
As Big Four distinguem-se pela escala global, pela presença junto de grandes grupos multinacionais e por equipas muito estruturadas. Outras redes internacionais competem pela especialização, flexibilidade e capacidade de servir clientes com necessidades transfronteiriças. As firmas locais, por sua vez, muitas vezes competem pela proximidade, conhecimento do terreno e preço.
A PKF posiciona-se num espaço muito interessante entre esses mundos. Temos uma marca global, metodologias internacionais e acesso a especialistas, mas mantemos uma presença local próxima, ágil e com envolvimento sénior. Esse equilíbrio é particularmente valorizado por clientes que querem qualidade internacional, mas também querem uma equipa que conheça Moçambique, responda rapidamente e esteja próxima das suas decisões.



