A Flowgroup chegou a Moçambique em 2012, num momento em que o país estava no pico das expectativas sobre o gás e a mineração. O que levou um grupo de consultoria de desenvolvimento organizacional a apostar neste mercado naquela altura e o que encontraram quando chegaram?
Quando a Flow decidiu estabelecer-se em Moçambique, já trabalhava com organizações e líderes moçambicanos há vários anos. A decisão de abrir uma operação local não foi apenas motivada pelo potencial económico do país, mas sobretudo pela convicção de que é impossível compreender verdadeiramente uma realidade à distância.
Na Flow acreditamos que a transformação das organizações acontece através da proximidade, da construção de relações de confiança e de um conhecimento profundo do contexto em que os nossos clientes operam. Estar presente em Moçambique foi uma forma de materializar essa visão, permitindo-nos estar mais próximos das pessoas, das empresas e dos desafios concretos do mercado.
Quando chegámos, encontrámos um país com um enorme dinamismo, forte ambição de crescimento e uma vontade genuína de construir capacidades locais. Havia um grande optimismo em torno dos investimentos e das perspectivas de desenvolvimento, mas também uma necessidade crescente de apoiar organizações e líderes na preparação para um contexto de mudança acelerada.
Ao longo destes mais de 12 anos, tivemos o privilégio de acompanhar diferentes fases da evolução do mercado moçambicano. Isso permitiu-nos desenvolver uma compreensão muito profunda da realidade local e reforçou a nossa convicção de que o desenvolvimento sustentável das organizações depende, acima de tudo, das pessoas, da liderança e da cultura que conseguem construir esse na verdade, continua a ser o verdadeiro tema de Moçambique até hoje. Porque países não crescem só por causa dos recursos naturais. Crescem pela capacidade humana de transformar oportunidade em execução.
A Flow trabalha em banca, oil & gas e mineração, e em 2018 lançou a plataforma Mozambicans Abroad para conectar profissionais moçambicanos com experiência internacional ao mercado local. O que esse projecto revelou sobre o estado do talento qualificado em Moçambique? O que encontraram?
A iniciativa Mozambicans abroad nasceu de uma constatação muito simples: Moçambique possui uma diáspora altamente qualificada, com profissionais a desempenhar funções de relevo em diferentes geografias e sectores de actividade. O nosso objectivo era perceber até que ponto esse talento poderia ser mobilizado para contribuir para o desenvolvimento do país.
O que encontrámos foi extremamente positivo. Encontrámos profissionais moçambicanos com competências técnicas de elevado nível, experiência internacional relevante e uma enorme vontade de contribuir para o crescimento de Moçambique. Isso permitiu-nos desmontar a ideia, por vezes instalada, de que existe uma escassez absoluta de talento qualificado no país.
Ao mesmo tempo, percebemos que o verdadeiro desafio não estava apenas na disponibilidade de talento, mas na capacidade das organizações para o atrair, integrar, desenvolver e reter. A competitividade do mercado de trabalho não depende apenas da qualificação das pessoas; depende também da qualidade da liderança, da cultura organizacional, das oportunidades de crescimento e da proposta de valor oferecida aos colaboradores.
Ao longo dos últimos anos, trabalhando com sectores tão exigentes como a banca, energia, mineração e telecomunicações, a nossa percepção tem-se mantido consistente: Moçambique dispõe de uma base de talento muito mais forte do que muitas vezes se assume. O desafio passa por continuar a investir na formação, criar oportunidades de desenvolvimento e garantir que as organizações conseguem transformar esse potencial em desempenho e impacto.
Talvez a principal conclusão tenha sido esta: o talento existe. O que faz a diferença é a capacidade das organizações para o identificar, potenciar e criar condições para que as pessoas escolham construir o seu futuro em Moçambique.
Às vezes fala-se de “escassez de talento” como se fosse um problema inevitável. Nós preferimos olhar para isso como um problema de ecossistema. E ecossistemas constroem-se.
II. MOMENTO ACTUAL
A consultoria de desenvolvimento organizacional em Moçambique vai muito além de formações pontuais. Se tivesse de fazer um diagnóstico honesto do sector no seu conjunto hoje o que diria?
O sector tem evoluído significativamente nos últimos anos. Hoje existe uma maior consciência por parte das organizações de que o desenvolvimento das pessoas não pode ser tratado como uma iniciativa isolada ou uma resposta pontual a necessidades de formação.
No entanto, se tivermos de fazer um diagnóstico honesto, diria que o principal desafio continua a ser a capacidade de transformar investimento em desenvolvimento em mudança efectiva de comportamentos e resultados de negócio.
Muitas organizações já investem em formação, mas nem sempre conseguem garantir que esse conhecimento se traduz em novas formas de liderar, colaborar, servir clientes ou executar a estratégia. É por isso que o desenvolvimento organizacional moderno exige uma abordagem mais integrada, que combine liderança, cultura, processos, sistemas e desenvolvimento de competências.
Em Moçambique encontramos organizações cada vez mais sofisticadas e exigentes, mas também um contexto de elevada transformação económica, tecnológica e geracional. Isso significa que os modelos tradicionais de desenvolvimento já não são suficientes.
Acreditamos que os próximos anos serão marcados por três grandes prioridades: o desenvolvimento de lideranças capazes de gerir a mudança, a construção de culturas organizacionais fortes e a criação de mecanismos que permitam às organizações aprender e adaptar-se de forma contínua. Pode haver uma estratégia brilhante no PowerPoint e mesmo assim nada acontecer porque as equipas não estão alinhadas, os líderes não comunicam bem, a cultura não suporta mudança ou as pessoas simplesmente não sentem ligação ao negócio.
O talento continuará a ser importante, mas aquilo que verdadeiramente distinguirá as organizações de sucesso será a sua capacidade de criar ambientes onde esse talento possa crescer, colaborar e gerar impacto. É precisamente nessa intersecção entre pessoas, cultura e estratégia que vemos o futuro do sector em Moçambique.
O nosso trabalho está muito mais próximo de mobilizar organizações do que de “treinar pessoas”. E isso muda completamente a conversa.
A Flowgroup opera numa rede internacional com presença na Hungria, Portugal, Brasil, Irlanda, Cazaquistão e Reino Unido. Que metodologias ou abordagens desenvolvidas noutros mercados funcionaram em Moçambique sem adaptação e quais foram repensadas?
Uma das grandes aprendizagens que tivemos ao longo dos anos é que os desafios fundamentais das organizações são muito semelhantes em qualquer parte do mundo. Questões como liderança, confiança, alinhamento estratégico, colaboração entre equipas, orientação para resultados ou gestão da mudança estão presentes em Moçambique, tal como estão em Portugal, no Reino Unido ou no Canadá.
Por essa razão, muitas das metodologias que utilizamos internacionalmente funcionam muito bem em Moçambique. Ferramentas ligadas ao desenvolvimento de liderança, cultura organizacional, assessment, team building ou gestão de desempenho têm demonstrado a mesma relevância e impacto que observamos noutros mercados.
O que aprendemos, no entanto, é que a eficácia de uma metodologia não depende apenas da qualidade do modelo, mas da forma como este é aplicado. Os princípios podem ser universais, mas o contexto é sempre local.
Agora, a experiência da transformação muda bastante.
Em Moçambique, e em vários mercados africanos, existe um contexto muito particular: crescimento acelerado, equipas multiculturais, organizações muito jovens, estruturas em construção e uma enorme necessidade de adaptação constante.
Em mercados mais maduros, muitas empresas cresceram em contextos relativamente estáveis. Aqui, muitas organizações crescem enquanto o próprio mercado ainda está a ser definido.
Isso cria líderes muito resilientes e pragmáticos. Mas também cria desafios enormes ao nível de capacidade de execução, desenvolvimento intermédio e sustentabilidade organizacional.
Em Moçambique tivemos de adaptar sobretudo a forma de comunicação, os exemplos utilizados, as dinâmicas de facilitação e, em alguns casos, o ritmo de implementação da mudança. As organizações são feitas de pessoas, e as pessoas respondem melhor quando se reconhecem nas histórias, nos desafios e nas soluções que lhes são apresentadas.
Mais do que importar metodologias, o nosso trabalho tem sido traduzir conhecimento global para a realidade local. É precisamente essa combinação entre experiência internacional e profundo conhecimento do contexto moçambicano que acreditamos ser uma das principais razões da nossa relevância no mercado.
Costumamos dizer que não acreditamos em soluções “copy-paste”. Acreditamos em princípios globais aplicados com inteligência local. E é nessa intersecção que surgem os melhores resultados.
III. PESSOAS, CULTURA & LIDERANÇA
Entrou na Flowgroup Moçambique como Manager em 2014, tornou-se Partner em 2017 e Country Manager em 2020 num mercado que atravessou o boom do gás, o colapso da dívida oculta e uma pandemia. O que essa trajectória lhe ensinou sobre como se constrói uma equipa capaz de resistir à incerteza?
Um dos momentos que melhor simboliza quem somos aconteceu durante a pandemia. Enquanto grande parte do mundo falava de distanciamento social, nós decidimos concentrar toda a nossa energia na proximidade emocional.
Foi um período de enorme incerteza para empresas, colaboradores e famílias. Mas acreditámos que, mais do que nunca, era altura de estarmos presentes. Estivemos próximos das nossas equipas, dos nossos clientes, dos nossos parceiros e dos nossos fornecedores. Reforçámos a comunicação, criámos novos formatos de interação, disponibilizámos conteúdos gratuitos para ajudar as organizações a navegar a crise – desde o relatório What Now? – O Impacto da Pandemia nas Organizações a iniciativas de team building e desenvolvimento realizadas integralmente online.
Olhando para trás, a pandemia acabou por se tornar um dos momentos mais transformadores da nossa história. Não despedimos ninguém, nenhum dos nossos partners internacionais abandonou Moçambique, não deixámos de cumprir os nossos compromissos nem falhámos entregas devido às dificuldades que muitos clientes enfrentavam. Escolhemos colocar as relações à frente das transacções.
Curiosamente, foi nesse período que percebemos que o verdadeiro valor de uma organização não se mede apenas pelas facturas emitidas. Durante algum tempo passámos menos facturas em meticais, mas construímos mais confiança, mais proximidade e mais relevância do que nunca. E quando o mercado recuperou, esse investimento humano regressou naturalmente sob a forma de crescimento, reconhecimento e relações ainda mais fortes.
A pandemia confirmou algo em que sempre acreditámos: as organizações podem ser separadas fisicamente, mas nunca devem estar distantes emocionalmente. E essa continua a ser uma das marcas mais fortes da forma como trabalhamos na Flow.
A Flowgroup usa metodologia experiencial aprender fazendo, reflectir sobre a acção. Que tipo de resistência encontra quando propõe esse modelo a executivos moçambicanos habituados a formações expositivas tradicionais?
Curiosamente, encontramos muito pouca resistência.
Na verdade, o feedback que recebemos é muitas vezes o contrário: as pessoas sentem as experiências como uma lufada de ar fresco.
Executivos estão cansados de passar oito horas a olhar para slides sobre liderança feitos por alguém que provavelmente nunca liderou nada particularmente difícil.
A metodologia experiencial funciona porque as pessoas deixam de estar apenas no discurso intelectual e começam a viver comportamentos, tensões, decisões, conflitos e dinâmicas reais.
E há uma coisa muito importante: nós nunca entramos numa sala a assumir que sabemos mais do que quem lá está.
Respeitamos profundamente a bagagem, a experiência e o contexto de cada pessoa. Trabalhamos com isso, não contra isso.
O interessante é que, durante as experiências, as hierarquias começam a desaparecer. As pessoas tornam-se mais pessoas. Quebram-se capas, personagens corporativas, barreiras.
E normalmente é aí que começam as conversas verdadeiramente importantes.
Há um Partner da Flow que me inspira particularmente neste aspecto – Ian MaClaen da Flow UK – ele resume a eficácia de uma formação experiencial desta forma – “Não podemos desmentir por palavras aquilo que afirmamos por comportamentos” – E é perante esta inevitabilidade deste tipo de formação, onde começa a Magia!



