Wednesday, June 24, 2026
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A tecnologia só gera valor quando responde a um problema real

O posicionamento da Dintell assenta numa ideia pouco convencional no sector: “80% problema, 20% tecnologia.” O que significa concretamente esta filosofia na prática do dia-a-dia com os clientes?

A filosofia que orienta a Dintell no mercado é tão simples quanto desafiante, 80% do nosso trabalho é dedicado a compreender o problema do negócio, e apenas 20% à tecnologia em si. Esta abordagem pode parecer contraintuitiva num sector onde a tendência é apresentar a solução tecnológica antes de se ouvir o cliente. Mas é precisamente esta inversão que nos distingue.

A tecnologia existe para melhorar a eficiência operacional dos negócios, aumentar a capacidade de resposta e criar valor mensurável. Mas para que isso aconteça de forma efectiva, é imprescindível compreender, em primeiro lugar, qual é o problema real que o negócio enfrenta, quais são as métricas que a organização pretende melhorar e que resultados concretos espera alcançar com uma determinada solução.

Tomemos como exemplo uma empresa do sector logístico que pretende optimizar os seus processos de importação e exportação. Não é possível desenvolver um sistema eficaz sem antes mapear detalhadamente como esses processos funcionam, onde estão os pontos de estrangulamento, quais as ineficiências que consomem mais tempo e recursos, e em que etapas a tecnologia pode verdadeiramente fazer a diferença. A este exercício chamamos gestão do processo de negócio ou business process management e é sempre o ponto de partida do nosso trabalho.

Os nossos clientes não querem saber qual o algoritmo que corre por detrás da solução. Querem saber se a solução resolve o problema deles, se melhora os seus resultados e se gera retorno. É esta lógica que nos orienta.

E é também esta ausência de rigor que explica porque tantas empresas de tecnologia falham. Desenvolvem soluções sofisticadas para problemas que ainda não foram correctamente diagnosticados. Um exemplo elucidativo é o da inteligência artificial aplicada ao sector bancário, não faz sentido implementar modelos de IA numa instituição que ainda opera com processos manuais e não dispõe de dados estruturados. A sequência correcta é primeiro digitalizar os processos, depois consolidar os dados, e só então usar esses dados para gerar conhecimento e inteligência que suporte a tomada de decisão. A tecnologia mais avançada, aplicada no momento errado ou sem a devida compreensão do contexto, não resolve agrava.

A Dintell acumula mais de mais de 1000 relatórios de business intelligence e serve mais de 25 organizações. Que padrões de decisão empresarial esses dados revelam sobre o estado da maturidade digital das empresas moçambicanas?

Segundo a nossa experiência, assente em mais de mil relatórios de business intelligence produzidos e no acompanhamento de mais de 25 organizações, constatamos que a maturidade digital das empresas moçambicanas ainda apresenta níveis distintos, com avanços mais consistentes em sectores altamente regulados, como a banca.

Verificamos, em primeiro lugar, que muitas organizações ainda enfrentam desafios na base do processo: a recolha, organização e armazenamento de dados. Sem esta estrutura, torna-se difícil evoluir para sistemas robustos de análise e produção de relatórios estratégicos. Em vários casos, sobretudo em pequenas e médias empresas, ainda se observa uma utilização limitada de dados, focada em relatórios básicos e pouco orientados para a tomada de decisão.

Por outro lado, sectores como o bancário evidenciam maior maturidade digital, impulsionada por exigências de compliance e gestão de risco. Neste segmento, os dados são utilizados de forma sistemática para monitorar transacções, prevenir o branqueamento de capitais, avaliar o risco de crédito e assegurar o cumprimento das directrizes do regulador. Observamos igualmente o uso de indicadores como créditos em incumprimento (NPL) e níveis de solvência, demonstrando uma abordagem mais estruturada e orientada por dados.

Também acompanhamos projectos com organizações internacionais e instituições públicas, como no sector da saúde, onde os dados são essenciais para avaliar a capacidade de resposta a emergências, monitorar doenças endémicas e apoiar a formulação de políticas públicas. Nestes casos, a maturidade digital está directamente ligada à existência de sistemas de informação integrados e fiáveis.

Adicionalmente, temos observado uma crescente adopção de sistemas integrados de gestão (ERP), associados a relatórios inteligentes, que permitem analisar a eficiência operacional em sectores como logística e transportes. Exemplos disso incluem o acompanhamento de tempos de operação portuária e a identificação de constrangimentos que impactam a produtividade.

De forma geral, os padrões indicam que as empresas mais maduras são aquelas que conseguem transformar dados em informação accionável, integrando processos automatizados e modelos analíticos que apoiam decisões em tempo real. Contudo, ainda existe um caminho significativo a percorrer, sobretudo na massificação da cultura de dados e na adopção de tecnologias mais avançadas.

O nosso foco tem sido precisamente apoiar as organizações nesse processo, promovendo uma utilização mais eficiente dos dados para melhorar a tomada de decisão e fortalecer a competitividade empresarial.

A inteligência artificial está a reconfigurar o mercado de trabalho a nível global. Em Moçambique, onde o desemprego jovem é uma realidade estrutural, como é que a Dintell posiciona a IA… Como ameaça ou como alavanca de inclusão e criação de oportunidades?

Na nossa perspectiva, a inteligência artificial deve ser encarada, sobretudo, como uma alavanca de inclusão e criação de oportunidades, ainda que reconheçamos que traz consigo desafios relevantes para o mercado de trabalho.

Importa referir que a inteligência artificial não é um fenómeno recente. O que assistimos actualmente é à sua massificação e democratização, que tornaram estas ferramentas mais acessíveis a empresas e indivíduos. Este novo contexto está a transformar a forma como se trabalha, sobretudo em actividades ligadas à análise de dados, produção de conteúdos e automação de processos.

Por um lado, constatamos que a IA permite ganhos significativos de eficiência operacional, ao automatizar tarefas que anteriormente exigiam intervenção humana intensiva. Hoje, um decisor pode gerar relatórios analíticos, gráficos e projeções em poucos minutos, tarefas que antes dependiam exclusivamente de analistas especializados. Este facto levanta, naturalmente, preocupações quanto à substituição de perfis profissionais mais operacionais.

Por outro lado, acreditamos que a maior ameaça não é a tecnologia em si, mas a resistência à mudança. As organizações e profissionais que não se adaptarem a esta nova realidade correm o risco de se tornarem menos competitivos. Em contrapartida, aqueles que souberem integrar a inteligência artificial nos seus processos terão acesso a novas oportunidades de criação de valor, inovação e crescimento.

No caso de Moçambique, entendemos que a inteligência artificial pode desempenhar um papel determinante na inclusão económica, sobretudo entre os jovens, desde que seja acompanhada por investimento em capacitação, competências digitais e literacia tecnológica. A questão central deve ser: como podemos utilizar a inteligência artificial para potenciar as nossas capacidades e não para as substituir.

Não obstante, reconhecemos que o país enfrenta desafios estruturais importantes, nomeadamente ao nível de infra-estruturas tecnológicas, armazenamento e processamento de dados, bem como no quadro legal e regulatório. A recente evolução em matérias como data centers e protecção de dados é positiva, mas ainda há um caminho a percorrer para garantir um ambiente seguro e propício ao desenvolvimento da inteligência artificial.

A vossa oferta abrange consultoria IT, desenvolvimento web, cloud e machine learning. Qual destas áreas regista maior procura no mercado moçambicano actual e quais as que ainda apresentam maior resistência à adopção?

No contexto actual do mercado moçambicano, constatamos que a maior procura incide sobre o desenvolvimento de software à medida, sobretudo orientado para a digitalização e automatização de processos de negócio. As empresas, em particular as pequenas e médias, estão cada vez mais interessadas em soluções que lhes permitam gerir contratos, operações, clientes, logística e informação de forma mais eficiente e estruturada.

Numa fase inicial, registámos uma procura significativa por desenvolvimento de websites, essencialmente como forma de garantir presença digital. Contudo, essa necessidade evoluiu rapidamente para uma abordagem mais funcional, em que as organizações passaram a priorizar sistemas que suportem os seus processos internos e aumentem a produtividade. Hoje, o foco já não é apenas “estar online”, mas sim operar de forma mais inteligente e integrada.

Por outro lado, nas grandes empresas, a procura concentra-se mais na automação de processos, integração de sistemas e análise de dados. Estas organizações, em muitos casos, já dispõem de infra-estruturas tecnológicas robustas, como ERPs, mas enfrentam o desafio de garantir que os diferentes sistemas comunicam entre si e produzem informação útil para a tomada de decisão.

Em contraste, áreas como cloud computing e machine learning, embora em crescimento, ainda enfrentam alguma resistência à adopção, sobretudo no segmento das micro, pequenas e médias empresas. Em muitos casos, esta resistência está associada a factores culturais e de percepção de valor. Persistem ainda modelos de gestão muito assentes em ferramentas básicas, como folhas de cálculo, e numa lógica de negócio pouco orientada por dados.

Verificamos também que, para algumas organizações, a tecnologia ainda não é encarada como um factor estratégico, mas sim como um custo adicional. Isso limita a sua capacidade de investir em soluções mais avançadas e de tirar partido de ferramentas como a inteligência artificial.

Moçambique enfrenta desafios estruturais significativos conectividade limitada, infra-estrutura digital incipiente fora das grandes cidades, escassez de talento técnico especializado. Como é que a Dintell navega estas realidades sem comprometer a qualidade das soluções que entrega?

Reconhecemos que o contexto moçambicano apresenta desafios estruturais relevantes, desde limitações de conectividade até à escassez de talento técnico especializado, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. No entanto, temos conseguido navegar estas realidades sem comprometer a qualidade das nossas soluções, assentes, essencialmente, numa forte aposta em processos internos rigorosos e no desenvolvimento de pessoas.

O nosso principal diferencial reside no processo de onboarding e capacitação contínua das equipas. Investimos, desde o primeiro momento, na formação dos colaboradores, não apenas ao nível técnico, mas também em aspectos comportamentais, comunicação com o cliente e alinhamento com os nossos padrões de qualidade. Acreditamos que não basta recrutar competências; é fundamental formar perfis com atitude, disciplina e compromisso com a excelência, e depois desenvolver as capacidades técnicas de forma estruturada.

Adoptamos uma abordagem que privilegia o recrutamento de talento com potencial e vontade de aprender, complementado por programas internos de formação intensiva. Este modelo permite-nos garantir consistência na entrega, independentemente das limitações do mercado. Ao mesmo tempo, trabalhamos activamente com os nossos clientes na melhoria dos seus próprios processos organizacionais, ajudando-os a estruturar melhor a comunicação interna, alinhar a visão estratégica e tirar maior proveito das soluções tecnológicas implementadas.

Paralelamente, temos demonstrado que é possível expandir operações para fora dos grandes centros, desde que exista uma visão clara e uma estratégia bem definida. A nossa presença em mercados como a Beira resulta precisamente dessa abordagem, baseada na identificação de oportunidades e na capacidade de adaptação às especificidades locais.

No que diz respeito ao impacto das nossas soluções, podemos referir, a título de exemplo, um projecto no sector da educação, onde desenvolvemos uma plataforma digital para melhorar a comunicação entre a escola e os encarregados de educação. Anteriormente, este processo era manual, baseado em cadernos físicos, o que implicava custos elevados e limitaç

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