Wednesday, June 24, 2026
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A soberania digital será um dos temas centrais da próxima década em áfrica

A Vodacom está em Moçambique há mais de duas décadas. Hoje, a Vodacom Business é algo muito diferente de uma operadora de telecomunicações. O que é exactamente a Vodacom Business Moçambique quem serve, o que entrega, e onde se posiciona no mercado?

A Vodacom Business Moçambique é hoje muito mais do que uma operadora de telecomunicações. Somos um parceiro estratégico de transformação digital, comprometido em acelerar o crescimento e a modernização das empresas e instituições do país. Servimos organizações de todas as dimensões desde pequenas e médias empresas até instituições públicas e organismos internacionais com um portefólio integrado que combina conectividade, cloud, colocation, cibersegurança, soluções geridas e infraestruturas críticas.

O nosso posicionamento no mercado assenta na capacidade de entregar soluções fim-a-fim, com escala, resiliência e presença local. Mais do que fornecer tecnologia, ajudamos os nossos clientes a operar com eficiência, segurança e controlo sobre os seus dados, num contexto económico cada vez mais digital. A nossa missão é clara: ser o motor da transformação digital em Moçambique e contribuir para que o país e o continente africano assumam o seu papel de protagonistas na era digital.

O José entrou na Vodacom em 2004 como Sales Manager de soluções VSAT e de dados. Passaram vinte anos e o mercado mudou completamente. De que forma o papel da Vodacom no tecido empresarial de Moçambique mudou ao longo destes anos?

A evolução foi profunda e transformacional. Quando entrei na Vodacom, em 2004, o mercado procurava sobretudo conectividade e soluções básicas de voz e dados. Hoje, as exigências são completamente diferentes: as empresas precisam de plataformas digitais que garantam continuidade de negócio, proteção da informação, produtividade e inovação. A Vodacom acompanhou essa mudança e deixou de ser apenas uma operadora de telecomunicações para se tornar um verdadeiro enabler de crescimento empresarial.

O nosso papel passou a ser estrutural: já não ligamos apenas pessoas e empresas, sustentamos operações, serviços e decisões críticas em sectores como banca, indústria, retalho, energia e administração pública. Em duas décadas, evoluímos de fornecedor de conectividade para parceiro estratégico da economia moçambicana, ajudando a construir a base digital que suporta o desenvolvimento do país.

II.  MOMENTO ACTUAL

Para além do data center e da cibersegurança, o sector tecnológico em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo conectividade rural, mobile money, cloud pública, digitalização do Estado. Que leitura faz do mercado no seu conjunto: o que já funciona em Moçambique, o que ainda falta estruturalmente, e o que está verdadeiramente a travar o progresso?

O mercado tecnológico em Moçambique está a amadurecer e já vemos sinais concretos de progresso. A conectividade móvel expandiu-se significativamente, os serviços financeiros digitais como o mobile money tornaram-se parte essencial da vida económica, e há uma maior abertura para soluções de cloud e cibersegurança. A digitalização do Estado também começa a ganhar forma, com iniciativas como o Programa Internet para Todos lançado em 2025, que visa levar conectividade às zonas rurais, e a recente Estratégia Nacional de Transformação Digital, apresentada em 2026, que coloca a inclusão digital e a governação eletrónica no centro da agenda nacional.

No entanto, o avanço continua desigual. Persistem constrangimentos estruturais ligados à qualidade e capilaridade da infraestrutura de telecomunicações, à disponibilidade de energia fiável, à maturidade regulatória e à escassez de competências especializadas. A própria capacidade de investimento de muitas empresas e instituições ainda limita a adoção plena de soluções digitais.

O que verdadeiramente trava o progresso não é a ausência de procura, mas sim a necessidade de acelerar as condições de base. Precisamos de infraestruturas resilientes, energia estável, talento qualificado e um quadro regulatório que inspire confiança. Só assim a digitalização poderá acontecer com escala e sustentabilidade, permitindo que Moçambique não apenas acompanhe, mas lidere em áreas críticas como serviços digitais públicos, inclusão financeira e inovação empresarial.

A minha leitura é clara: Moçambique já tem os pilares iniciais conectividade, mobile money e abertura à cloud mas o futuro dependerá da capacidade de transformar esses avanços em plataformas estruturais que sustentem a economia digital. É nesse caminho que a Vodacom Business se posiciona: como parceiro estratégico para acelerar esta transição e garantir que o país se afirme como protagonista da transformação digital em África.

O Decreto n.º 71/2025 aprovou o Regulamento dos Centros de Dados  a primeira vez que Moçambique tem um quadro legal específico para esta infra-estrutura. O vosso data center foi inaugurado em Março de 2025, meses antes deste regulamento. O que mudou na prática para a Vodacom Business este novo enquadramento legal?

O novo regulamento é um marco importante porque traz previsibilidade e estabelece critérios claros para um sector que passa a ser reconhecido como infraestrutura estratégica para Moçambique. Para a Vodacom Business, significa operar num ambiente institucional mais robusto, com regras definidas sobre licenciamento, padrões operacionais, responsabilidades e supervisão.

Tendo inaugurado o nosso data center antes deste enquadramento específico, vemos o regulamento como uma validação da visão que tivemos ao investir antecipadamente numa infraestrutura preparada para responder a padrões elevados de disponibilidade, segurança e continuidade. Num país onde a digitalização é cada vez mais crítica para sectores como banca, energia, retalho e administração pública, este quadro legal aumenta a confiança do mercado e cria condições para acelerar a adoção de serviços locais de dados e cloud.

Na prática, o regulamento não só fortalece a confiança dos clientes como também contribui para atrair investimento e talento, elementos essenciais para que Moçambique consolide a sua posição na economia digital regional.

O data center de Matola é carrier-neutral e tem acesso directo ao cabo 2Africa. Em termos práticos, o que significa isso para uma empresa moçambicana em termos de latência, custo e controlo?

Na prática, o facto de o data center da Matola ser carrier-neutral e ter acesso direto ao cabo 2Africa traduz-se em três vantagens muito concretas para as empresas moçambicanas. Primeiro, menor latência e melhor desempenho, porque os dados são armazenados e processados mais perto do utilizador, com acesso imediato a conectividade internacional de elevada capacidade. Segundo, maior eficiência de custos, ao reduzir dependências de alojamento fora do país e ao permitir modelos mais flexíveis de conectividade e colocation. Terceiro, mais controlo e soberania sobre a informação, algo crítico para sectores regulados e organizações que precisam de garantir conformidade, resiliência e proximidade operacional sobre sistemas críticos.

Em termos práticos, isto significa que uma empresa moçambicana pode hoje operar com padrões internacionais de desempenho e segurança, mas com custos mais competitivos e maior confiança sobre os seus dados. É um salto estrutural que coloca Moçambique numa posição privilegiada para atrair investimento, acelerar a digitalização e reforçar a competitividade da sua economia.

III.  PESSOAS, CULTURA & LIDERANÇA

Liderar a construção de um data center com certificação Tier III, num mercado como Moçambique onde a cadeia de fornecimento, a energia e a regulação são imprevisíveis é uma operação difícil. Qual foram os maiores desafios durante a construção e como foram ultrapassados?

Foi um projeto exigente porque combinou complexidade técnica com os desafios operacionais típicos de um mercado em desenvolvimento. Tivemos de gerir cadeias de fornecimento internacionais, requisitos rigorosos de engenharia, resiliência energética, padrões de segurança e coordenação com múltiplos stakeholders tudo isto com foco absoluto na qualidade e no prazo.

Os maiores desafios foram precisamente a imprevisibilidade da cadeia de fornecimento, a instabilidade energética e a necessidade de alinhar com um quadro regulatório ainda em evolução. Superamos esses obstáculos através de planeamento rigoroso, parcerias especializadas, disciplina de execução e uma visão de longo prazo. Mais do que construir uma infraestrutura, tratou-se de criar uma plataforma crítica para o futuro digital do país, e isso exigiu consistência estratégica do primeiro ao último dia.

O resultado é um data center Tier III que não apenas responde a padrões internacionais, mas que simboliza a capacidade de Moçambique de executar projetos de alta complexidade e posicionar-se como referência regional em infraestrutura digital.

A Vodacom está a transformar-se de Telco em Techco, palavras do próprio José Correia Mendes. Mas essa transição implica contratar perfis que uma operadora de telecomunicações nunca precisou: engenheiros de cloud, arquitectos de segurança, especialistas em IA. Em Moçambique, esse talento existe? Qual a necessidade destes profissionais no mercao nacional? 

Esse talento existe em Moçambique, mas ainda é escasso face à velocidade com que o mercado vai precisar dele. A transição de Telco para Techco exige competências altamente especializadas em áreas como cloud, cibersegurança, automação, dados e inteligência artificial, e essa procura vai crescer de forma acelerada nos próximos anos.

O desafio não é apenas encontrar profissionais com estas competências, mas também desenvolvê-los, retê-los e criar um ecossistema que lhes permita crescer. Isso implica investir em formação e certificação, estabelecer parcerias com universidades, dar exposição prática a projetos de escala e assumir um compromisso real das empresas em construir capacidade local.

Estamos perante uma necessidade nacional, não apenas sectorial. Se Moçambique quer consolidar a sua posição na economia digital, terá de apostar fortemente no desenvolvimento de talento tecnológico. É esse investimento em pessoas que garantirá que a transformação de Telco para Techco seja sustentável e que o país esteja preparado para competir num mercado cada vez mais digital e global.

IV.  VISÃO & FUTURO

Em Novembro de 2025, o Vodacom Group anunciou uma parceria estratégica com a Google Cloud para acelerar serviços de IA em vários mercados africanos, incluindo Moçambique. O que é que esse acordo traz para os clientes empresariais da Vodacom em Moçambique e em que prazo espera ver impacto real?

Esta parceria com a Google Cloud reforça a capacidade do Grupo Vodacom para acelerar a modernização tecnológica e traduzir essa evolução em soluções mais inteligentes para os nossos clientes empresariais. Para Moçambique, o valor está em aproximar o mercado local de capacidades avançadas de dados, analytics e inteligência artificial, que podem melhorar eficiência operacional, segurança, personalização de serviços e inovação em sectores como finanças, comércio, indústria e administração pública.

O impacto será progressivo. No curto prazo, veremos aplicações em áreas como otimização de processos e serviços digitais mais eficientes. Já os casos de uso mais transformacionais como automação inteligente, análise preditiva e integração profunda em sectores críticos dependerão da maturidade do mercado, da prontidão dos clientes e da capacidade de integrar estas soluções nas ofertas locais.

O mais importante é que Moçambique passa a ter acesso direto a tecnologias de ponta, com potencial para acelerar a digitalização da economia e posicionar o país como referência regional na adoção de inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento.

A Vodacom tem actualmente 128 racks em funcionamento com capacidade para expandir para mais de 500. Qual é o horizonte dessa expansão e o que precisa de acontecer em Moçambique no lado da procura para que essa expansão se justifique?

A expansão para mais de 500 racks foi pensada com visão de futuro e dependerá diretamente da velocidade com que o mercado moçambicano consolidar a procura por alojamento local de dados, cloud soberana, disaster recovery, serviços geridos e workloads críticos. A capacidade instalada hoje garante que estamos preparados para acompanhar esse crescimento à medida que ele se materializar.

Para que essa expansão se justifique, será essencial ver maior digitalização das empresas e do Estado, mais exigências regulatórias em matéria de residência e proteção de dados, maior confiança nas infraestruturas locais e uma aceleração de sectores que dependem de processamento intensivo de informação. Nesse contexto, as PMEs desempenham um papel central: são o motor da economia moçambicana e, à medida que adotam soluções digitais, criam massa crítica de procura que sustenta a expansão da infraestrutura.

Em resumo, o horizonte da expansão depende menos da oferta e mais do ritmo de maturação da procura nacional. O nosso papel é estar prontos, com infraestrutura de classe mundial, para responder quando essa procura atingir escala — seja impulsionada por grandes instituições ou pelo ecossistema dinâmico das PMEs  e, ao fazê-lo, posicionar Moçambique como referência regional em serviços digitais e cloud.

Se daqui a cinco anos Moçambique for referência regional em tecnologia,  soberania digital e infra-estrutura de dados, o que terá sido necessário acontecer?

Se daqui a cinco anos Moçambique for referência regional em tecnologia, soberania digital e infraestrutura de dados, isso terá resultado de um alinhamento claro entre investimento privado, visão pública e execução regulatória. O país terá consolidado infraestruturas digitais resilientes, expandido conectividade de qualidade, reforçado a produção e retenção de talento tecnológico e criado um ambiente regulatório previsível.

Será igualmente necessário promover a adoção digital em larga escala por empresas e instituições. Aqui, as PMEs terão um papel catalisador: ao digitalizarem processos e serviços, criam massa crítica de procura que sustenta a expansão da infraestrutura e acelera a transformação da economia. Grandes sectores como banca, energia e administração pública darão escala, mas são as PMEs que garantem capilaridade e impacto direto na vida económica local.

Acima de tudo, será preciso transformar ambição em execução consistente. Se isso acontecer, Moçambique poderá afirmar-se não apenas como utilizador de tecnologia, mas como plataforma regional de dados, inovação e serviços digitais com verdadeiro impacto económico e social, capaz de atrair investimento, gerar emprego qualificado e reforçar a competitividade nacional.

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