Wednesday, June 24, 2026
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Bubble Cloud aposta em infra-estrutura local para sistemas críticos

A Bubble Cloud nasceu de uma parceria entre a Triana e a Strategix, com os primeiros clientes em Maio de 2024. Como perceberam que havia uma lacuna no mercado para este serviço?

Isto veio em parte da experiência da Strategix em ajudar empresas em outros países da África Austral que já estavam a usar os “hyperscalers” – as grandes plataformas internacionais de cloud – a migrar alguns dos seus sistemas para nuvens locais e regionais, principalmente por motivos de custos, controlo e proximidade.

E veio também da percepção da Triana Business de que Moçambique, depois de muitos anos com algum défice de legislação específica para a área digital, começou finalmente a avançar com um enquadramento mais moderno para temas como processamento de dados, computação em nuvem e cibersegurança.

A Bubble nasceu precisamente nesse contexto: oferecer uma infraestrutura cloud residente em Moçambique, com suporte técnico local, para organizações que querem mais controlo sobre os seus sistemas e apoio técnico mais próximo.

A Bubble Cloud posiciona-se como alternativa local às plataformas internacionais. Qual foi o segredo para convencer clientes de energia e banca a confiar os seus sistemas críticos a uma empresa tão recente?

Grande parte do segredo tem sido a disponibilidade da Bubble para “andar de mãos dadas” com o Cliente durante todo o processo de migração dos seus sistemas – desde a fase inicial de concepção até à operação contínua.

Não é que os hyperscalers não tenham assistência técnica. Têm. Mas normalmente é uma assistência muito mais formal e focada em questões técnicas específicas, e não necessariamente em ajudar o Cliente a resolver os desafios concretos da realidade em que opera.

Em Moçambique, muitas empresas ainda precisam de proximidade técnica, apoio mais directo e capacidade de resposta local, especialmente quando estamos a falar de sistemas essenciais para a operação diária.

Outro aspecto que começou a pesar bastante em 2025 foi a questão cambial. Muitas empresas passaram a questionar se faz sentido alojar sistemas essenciais do seu negócio em plataformas que exigem pagamentos mensais em dólares e pagamentos internacionais constantes.

II.  O MOMENTO ACTUAL

Para além da soberania de dados e dos centros de dados locais, o sector tecnológico em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo. Que leitura faz do mercado no seu conjunto. Onde estão as maiores lacunas e onde estão as maiores oportunidades?

Um dos grandes desafios ao nível da digitalização da economia continua a ser o acesso ao mundo digital para actividades realmente produtivas.

Hoje, muitas pessoas já têm smartphones com internet móvel, mesmo fora da classe média. Mas, na prática, grande parte desses dispositivos ainda é usada sobretudo para redes sociais, entretenimento ou apostas online, e menos para actividades que simplifiquem a vida das pessoas ou gerem rendimento.

Uma das grandes excepções são as carteiras móveis. Plataformas como M-Pesa e e-Mola tiveram um impacto enorme na inclusão financeira. Mas mesmo aí, em muitos casos, o digital ainda entra apenas no momento do pagamento. Grande parte da actividade económica continua a funcionar de forma bastante manual.

Por isso, acredito que os próximos anos vão depender muito de literacia digital, formação técnica e soluções que resolvam problemas reais do dia-a-dia.

O Decreto n.º 72/2025 aprovou o Regulamento de Computação em Nuvem, que sujeita os operadores a licenciamento prévio pelo INTIC. Para uma empresa que já opera no mercado, o que mudou e quais as oportunidades este quadro regulatório cria?

Para a Bubble, honestamente, não mudou muito até agora, porque desde o início posicionámo-nos como um operador alinhado com boas práticas internacionais em termos de robustez operacional, qualidade de serviço e continuidade.

Por isso, é positivo que o sector já tenha hoje um enquadramento regulatório mais claro e específico para cloud, e também que o regulador esteja disposto a ouvir o mercado e perceber as preocupações dos operadores.

A evolução mais importante, na nossa opinião, será ao longo do tempo. Esperamos começar a ver sectores mais conservadores  – incluindo entidades públicas- a ganhar maior confiança para colocar alguns dos seus sistemas em operadores locais devidamente licenciados.

III.  PESSOAS, CULTURA E LIDERANÇA

Gerir em estratégia num mercado de tecnologia implica trabalhar entre o ritmo da inovação global e as realidades locais. Numa economia em que infra-estrutura, talento, poder de compra são constantes desafios como é gerir uma empresa de tecnologia em Moçambique no dia-a-dia?

Um dos maiores desafios continua a ser talento, especialmente em áreas mais especializadas como cloud, redes e cibersegurança.

Os Clientes em Moçambique querem – e com toda razão – serviços com padrões internacionais em termos de disponibilidade, desempenho e segurança. O problema é que o País ainda tem um pool relativamente pequeno de profissionais com experiência prática nestas áreas.

E com as dificuldades económicas dos últimos anos, muito do talento mais dinâmico acabou por procurar oportunidades fora do País.

A Bubble, por exemplo, está quase constantemente à procura de técnicos jovens com bons conhecimentos de redes. Muitas vezes recebemos CVs interessantes, mas quando os candidatos passam por testes técnicos mais práticos, percebe-se que ainda existe uma diferença grande entre conhecimento teórico e experiência real.

Ao mesmo tempo, a expansão de infraestruturas tecnológicas continua muito dependente da importação de equipamentos especializados. No caso da Bubble, por exemplo, o processo de expansão da nossa segunda zona de disponibilidade sofreu alguns atrasos devido às dificuldades actuais de acesso a divisas e importação.

Mesmo com estes desafios, continuo a achar que existe hoje uma oportunidade real para desenvolver capacidade tecnológica local nos próximos anos.

IV.  VISÃO E FUTURO

A Bubble Cloud anunciou a activação de um segundo centro de dados em Moçambique. O que representa essa expansão em termos de capacidade. Que tipo de clientes passa a poder servir? E qual é o horizonte temporal desta expansão?

Esta expansão mais que duplica a nossa capacidade de armazenamento, representando um reforço muito importante da capacidade e da redundância geográfica da Bubble.    

Na prática, um Cliente poderá operar os seus servidores “primários” em Maputo e os “secundários” na Matola – ou vice-versa. Isso significa que, em caso de indisponibilidade grave numa das zonas, os sistemas poderão ser recuperados na segunda localização com tempos de recuperação muito mais reduzidos.

Isto é importante para organizações com requisitos mais exigentes de disponibilidade contínua, incluindo banca, energia, seguros, telecomunicações e outros serviços que não podem parar.

Esperamos concluir a última etapa de instalação física em Junho. Julho será dedicado a testes de qualidade, com lançamento para Clientes actuais previsto para Agosto e abertura ao mercado geral em Setembro.

Se Moçambique tiver, daqui a dez anos, uma infra-estrutura digital que sirva de referência para a região, que decisões e investimentos – regulador e sector privado – têm de ser tomados hoje para que aconteça? 

A primeira coisa é continuar a expandir acesso à internet com melhor qualidade e custos mais acessíveis. Hoje muita gente já tem smartphone e internet móvel, mas continua a usar o digital de forma muito limitada e pouco produtiva.

A segunda é literacia digital. Não basta ter smartphone e internet. É preciso que as pessoas e as empresas saibam usar ferramentas digitais para trabalhar melhor, vender melhor, gerir melhor e proteger melhor a sua informação.

Também acho importante que equipamentos, software e infraestruturas tecnológicas sejam tratados como investimento estratégico para o País. Hoje quase tudo depende de sistemas digitais, mas muitas vezes a tecnologia ainda é vista apenas como custo.

Do lado regulatório, precisamos de regras claras para todos: operadores locais e internacionais. Se uma empresa presta serviços digitais em Moçambique, deve respeitar as regras de Moçambique. E o procurement público também pode ter um papel importante em desenvolver capacidade local, desde que isso seja feito com critérios técnicos claros.

Por fim, há uma frente muito prática: ajudar empresas que não são empresas de tecnologia a atingir um nível básico de cibersegurança a custos acessíveis. Muitas organizações já dependem totalmente de sistemas digitais, mas ainda estão muito expostas a falhas, ataques ou perda de informação.

Se estas bases forem bem trabalhadas, Moçambique pode construir uma capacidade tecnológica muito mais forte nos próximos anos.

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