Wednesday, June 24, 2026
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Conectividade, Energia e Escala: Os bastidores da infra-estrutura digital

A iColo inaugurou o MPM1 em Fevereiro de 2023, com 80 racks e 350 m² de espaço útil, uma presença física adequada a um país com as dimensões de Moçambique. O que determinou essa escala inicial e o que está previsto para a próxima fase?

A primeira fase foi grandemente impulsionada pela chegada do cabo 2Africa. O cabo escolheu-nos como parceiro não só para a estação de aterragem, mas também para colocation em Maputo. Essa parceria determinou a escala inicial do MPM1.

A segunda fase tem a ver com a maturidade e o crescimento da transformação digital no país: a expansão da capacidade para acomodar novos clientes e o crescimento orgânico dos que já estão connosco. É uma fase mais orientada pelo mercado do que pela conectividade.

A iColo foi a primeira empresa a ancorar o cabo 2Africa em Maputo e, em Maio de 2025, o MozIX instalou um ponto de presença no MPM1. O que significa, em termos práticos ter um Internet Exchange dentro das vossas instalações?

A missão da iColo e da colocation não é apenas disponibilizar um espaço seguro, com climatização e energia constantes é criar um ecossistema entre vários players que agregue valor. Um Internet Exchange é exactamente isso, rapidamente, toda a comunicação entre o vizinho “A” e o vizinho “B” passa a acontecer dentro do próprio data center, sem necessidade de sair para fora.

O Exchange não é gerido por nós, mas a sua presença no MPM1 é um add-on determinante. Basta usar uma porta, falar com o vizinho do lado, e ter acesso a todo o ecossistema com uma única ligação. É eficiência pura.

II.  O Mercado em Perspectiva

Para além dos data centers e da interconexão, o sector tecnológico em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo. Com uma penetração de internet ainda baixa qual é a sua leitura do mercado no seu conjunto? Onde estão as maiores lacunas e onde se encontram as oportunidades mais concretas?

A lacuna mais evidente é a descentralização. Tudo acontece em Maputo, e isso é um problema. O cabo 2Africa interliga dois pontos a nível nacional, Nacala e Maputo, o que é um sinal de que temos de começar a olhar para Moçambique como um hub, uma plataforma de transformação digital, e não apenas como um mercado polarizado no sul do país. Não podemos deixar Tete ou Pemba sem qualquer infraestrutura.

Estamos a crescer nesse sentido. Há maturidade, e acredito que ao longo do tempo esse movimento vai acontecer. A oportunidade está exactamente aí, começar a mitigar essas zonas e construir presença onde o mercado ainda não chegou.

Qual é a diferença entre o vosso modelo e os modelos de crescimento de outros data centers e como coexistem no mesmo mercado?

Um dos grandes desafios é a assimetria de condições entre o sector privado e o sector público. As entidades reguladoras pedem licenciamento e standardização das operações de colocation e cloud, o que é correcto, mas ao mesmo tempo existe uma polarização sistemática para o data center do governo em Maluana.

Isso limita o mercado para todos os operadores privados. Não estou a dizer que o data center do governo deve acabar, estou a dizer que as oportunidades devem ser iguais, para que a concorrência entre privados e o sector governamental nos permita crescer a todos. Essa abertura comercial seria um passo importante e, acima de tudo, saudável para o ecossistema.

III.  Pessoas, Cultura e Liderança

Liderou a implementação da iColo em Moçambique desde a fase inicial, incluindo escolha do local, licenciamento, construção, arranque operacional e, agora, crescimento. Quais os desafios que enfrentou?

O grande desafio estrutural é exactamente esse, da mesma forma que as entidades reguladoras pedem standardização nas operações de cloud e colocation, é também necessário abrir a parte comercial e permitir que as entidades públicas possam entrar nesses espaços em condições de igualdade. Enquanto isso não acontecer, o crescimento do sector fica limitado por uma concorrência que não é simétrica.

Gerir um activo crítico de infra-estrutura num mercado com instabilidade eléctrica, cadeias de fornecimento longas e escassez de talento especializado em TI exige uma forma específica de organizar a equipa. O que tem de ser diferente na equipa da iColo Moçambique relativamente a uma operação equivalente em outra geografia?

Há uma distinção que muita gente não faz: num data center, a componente crítica não é IT, é electromecânica. Os nossos engenheiros trabalham em electricidade, mecânica, electromecânica. Chegámos a ter 40% de engenheiras do sexo feminino nessas áreas; neste momento estamos nos 33%. Praticamente não há ninguém do lado IT dentro da nossa operação. O IT está do lado dos clientes, nas aplicações e configurações.

Em termos de organização, viemos de um grupo grande e importámos uma série de processos e procedimentos que transformámos para uma equipa 100% moçambicana. Temos apenas dois SLAs com fornecedores externos para peças de HVAC e geradores, porque todo o conhecimento de manutenção preventiva e correctiva é feito internamente pela equipa.

A política que mais nos distingue é a de four eyes, four hands, para qualquer intervenção, por mais simples que seja, vão sempre dois engenheiros. Porquê? Porque mesmo o melhor profissional pode estar distraído naquele dia e desligar o botão errado. Com dois pares de olhos e quatro mãos, eliminamos esse risco. Pago dois engenheiros de noite para estarem aqui mas têm de estar os dois. Não é redundância, é garantia de qualidade do trabalho.

IV.  Visão e Futuro

A iColo tem hoje energia solar em funcionamento nos seus campus no Quénia. Quando chega o fotovoltaico ao MPM1 e o que impede que já esteja instalado?

Muito honestamente, o que impede é a expansão. Esta área vai ser expandida, por isso neste momento não temos área útil disponível para instalar painéis. Quando a expansão estiver concluída, teremos telhados e zonas que já não vão ser mexidas e aí vamos avançar para o solar.

O modelo que temos em mente não é necessariamente solar de acumulação é solar de consumo directo: quando há sol, consumimos primeiro do sol e só depois da rede. À noite, consumimos da rede. Mesmo assim, com cerca de 50 kW de produção potencial, isso já representa menos 50 kW de custo operacional.

Para referência: no nosso campus no Quénia temos cerca de 1 MW em solar, mas lá os edifícios estão finalizados e ocupámos não só os nossos telhados como também de edifícios adjacentes. Aqui, com a expansão prevista para 1,5 MW de capacidade total, o potencial solar será proporcionalmente muito maior do que os 35 kW que os telheiros actuais conseguiriam gerar.

Daqui a dez anos, o que gostaria que o MPM1 representasse para Moçambique?

Daqui a dez anos gostaria de ver o MozIX, o nosso Internet Exchange nacional, que não é propriedade da iColo, é um bem comum a ser reconhecido como referência na costa este de África. E gostaria de ver o MPM1 com 80% de ocupação, porque isso vai disputar a vinda de grandes hyperscalers.

Moçambique tem de começar a aparecer no mapa como uma opção, não como uma alternativa à África do Sul, mas como uma possibilidade real. Quando alguém quiser colocar uma máquina poderosa, tem de encontrar aqui infraestrutura válida, certificada, disponível. Não quero que Moçambique seja visto como o sítio onde se vai quando não há outra opção. Quero que seja uma opção activa, por mérito próprio.

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