Wednesday, June 24, 2026
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Duas décadas a digitalizar a gestão empresarial

A Cegid Primavera está em Moçambique há mais de vinte anos. O que faz concretamente a empresa neste mercado qual a tipologia dos vossos clientes, o que gerem com as vossas soluções, e o que a distingue de qualquer outro fornecedor de software de gestão?

A Cegid está presente desde a altura em que falar de software de gestão empresarial em Maputo era, para muitos, uma conversa prematura. Esse percurso construiu algo que nenhum concorrente consegue replicar rapidamente: conhecimento profundo do tecido empresarial local, relações consolidadas com parceiros e clientes e a adaptação real às especificidades regulatórias e operacionais do país. Os nossos clientes cobrem um espectro bastante amplo, desde PME nos sectores do comércio, distribuição e serviços, até grandes organizações do sector público e privado. O que gerem com as nossas soluções vai muito além da facturação: falamos de contabilidade, recursos humanos, gestão de retalho, controlo de inventário e, cada vez mais, processos integrados na cloud. 

Diria que o que nos distingue é a combinação entre escala global e operação local. A Cegid é uma empresa líder na Europa com mais de 5.000 colaboradores e presença em 130 países, mas operamos através de parceiros certificados que conhecem a realidade moçambicana de dentro para fora. Isto dá-nos uma capacidade única de trazer inovação europeia, sem perder a proximidade com o mercado.

A Cegid adquiriu o Grupo Primavera em 2022 e integrou a PHC em 2025, duas aquisições num espaço de três anos. Quando olha para Moçambique, o que mudou concretamente para os clientes e parceiros locais com estas transformações? Houve continuidade ou houve disrupção? 

Sem dúvida que houve continuidade estratégica e aceleração de capacidades, não disrupção. E essa distinção é importante.

A integração do Grupo Primavera na Cegid melhorou os recursos já existentes e trouxe uma maior capacidade de investimento em I&D, uma visão cloud mais robusta e o acesso a um ecossistema de parceiros e tecnologia à escala europeia. Para os clientes moçambicanos, isso traduziu-se em produtos mais inovadores, um roadmap de produto mais ambicioso e maior estabilidade a longo prazo.

Por outro lado, a integração da PHC na Cegid em 2025 acrescentou outra dimensão. Passámos a contar com dois ERP sólidos no nosso portfólio, com perfis de cliente ligeiramente diferentes e isso é uma vantagem competitiva.

Dito isto, seria desonesto ignorar que qualquer processo de integração traz incerteza transitória. Houve perguntas por parte de parceiros e clientes que foi preciso responder com transparência e consistência. A minha função, nesse período, foi exactamente essa: garantir que a mensagem era clara, que os compromissos eram cumpridos e que a relação de confiança construída ao longo de décadas não era posta em causa.

II. MOMENTO ACTUAL & PANORAMA DE MERCADO

Para além da facturação electrónica e dos ERP para PME, o sector tecnológico de gestão empresarial em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo. Se tivesse de fazer um diagnóstico do mercado o que diria?

O mercado moçambicano está numa fase que eu definiria como de transição acelerada, mas desigual. Há sectores e empresas que evoluíram significativamente, com processos digitalizados, equipas preparadas e uma cultura de gestão orientada por dados. E há outros, maioritariamente no segmento micro e informal, onde a digitalização ainda é uma aspiração distante.

O que me parece mais relevante neste diagnóstico é a pressão regulatória como catalisador de mudança. Deveríamos ter um passo definitivo para a exigência de facturação electrónica pela Autoridade Tributária, bem como outras medidas fiscais que levem as empresas a implementar os ERPs.

Mas há outros aspectos que merecem atenção, como a crescente sofisticação dos profissionais de gestão formados localmente ou no exterior, a expansão de sectores como a logística, o retalho organizado e os serviços financeiros, assim como o aumento do interesse de investimento estrangeiro, que traz consigo padrões de reporte mais exigentes. 

O mercado está a amadurecer e quem estiver posicionado correctamente nos próximos dois a três anos vai colher resultados significativos.

Em Moçambique, a Autoridade Tributária já exige a comunicação de facturas desde 2025. Na prática, quantas empresas moçambicanas estão preparadas e qual é o papel da Cegid nessa transição?

Considero que menos do que seria desejável. O processo tem avançado, mas com as assimetrias típicas de um mercado com este perfil, as empresas de maior dimensão e as que já utilizavam software de gestão certificado adaptaram-se com relativa rapidez. O grande desafio está no segmento intermédio e no universo de empresas que ainda trabalhavam com processos manuais ou soluções não certificadas.

O papel da Cegid nesta transição tem sido central e multidimensional. Por um lado, as nossas soluções estão certificadas e integradas com os requisitos da AT desde o início, não foi necessário reinventar nada, porque o cumprimento fiscal sempre foi um ponto fulcral do nosso produto. Por outro lado, trabalhámos activamente com a nossa rede de parceiros para acelerar a migração de clientes que precisavam de apoio técnico e de formação.

O que me preocupa mais não é a conformidade das empresas que já são nossas clientes, mas sim o universo de empresas que ainda não têm qualquer solução e que podem tentar contornar a exigência com soluções informais. Esse é um risco sistémico que o mercado ainda não resolveu completamente.

III. PESSOAS, CULTURA & LIDERANÇA

A Cegid opera em Moçambique através de uma rede de parceiros locais em vez de uma estrutura comercial própria de grande dimensão. Como gere essa dependência, e como garante que o nível de serviço ao cliente final é consistente?

A palavra “dependência” tem uma conotação que não partilho inteiramente. Prefiro falar em interdependência estratégica. O modelo de parceiros não é uma limitação, é uma escolha deliberada que, bem executada, permite escalar com qualidade e com raízes locais que uma estrutura própria demoraria anos a construir.

Dito isto, gerir uma rede de parceiros com rigor exige investimento contínuo em três dimensões: certificação técnica, alinhamento comercial e cultura de serviço. Um parceiro certificado pela Cegid não é apenas alguém que vende o nosso produto, é alguém que representa a nossa marca perante o cliente final, e isso implica um nível de exigência que não é negociável.

Na prática, isso traduz-se em formação regular, acompanhamento próximo dos indicadores de satisfação de clientes e uma relação de diálogo permanente com os parceiros, não apenas para resolver problemas, mas para antecipar tendências e oportunidades. Quando um parceiro cresce e se fortalece, a Cegid cresce com ele.

Gerir um território como Angola e Moçambique em simultâneo implica navegar dois mercados com regulamentações, ritmos de crescimento e culturas empresariais muito diferentes. O que é que essa dualidade exigiu de si como gestor que não teria aprendido se gerisse apenas um mercado?

Exige, acima de tudo, humildade intelectual. Tentar aplicar o mesmo modelo a dois mercados porque ambos são africanos, com a mesma língua e com histórias coloniais semelhantes, é uma armadilha. Angola e Moçambique são países profundamente diferentes na sua estrutura económica, na maturidade do seu tecido empresarial, na relação com a tecnologia e na forma como os negócios se fazem.

Angola tem uma economia historicamente dependente dos recursos naturais, com ciclos de expansão e contracção muito pronunciados, e um sector privado que, nos últimos anos, tem feito um esforço significativo de diversificação. Por outro lado, Moçambique tem um perfil diferente, com uma economia mais heterogénea em termos sectoriais, mas com desafios estruturais diferentes, nomeadamente ao nível da informalidade e do acesso a infraestrutura.

Essa dualidade ensinou-me que não existe uma estratégia de mercado que sirva dois contextos diferentes. Existe um conjunto de princípios, rigor, consistência, foco no cliente e depois existe a capacidade de adaptar a execução a cada realidade. Essa capacidade de adaptação sem perder coerência é, para mim, a competência fundamental de quem gere mercados emergentes.

IV. VISÃO & FUTURO

O Cegid Primavera ERP Evolution foi lançado em modelo de subscrição, o que teoricamente democratiza o acesso à tecnologia de gestão para empresas mais pequenas. Em Moçambique, onde o tecido empresarial é maioritariamente informal ou micro, essa promessa é real ou é ainda uma aspiração?

É uma promessa real, mas com um horizonte temporal que exige honestidade. O modelo de subscrição elimina a barreira do investimento inicial elevado e isso é genuinamente transformador para uma PME que não consegue imobilizar capital numa licença de software. Nesse sentido, a democratização é real.

Mas há outras barreiras que o modelo de subscrição por si só não resolve, são elas a conectividade, literacia digital, capacidade de gestão interna para tirar partido de um ERP, e o acesso a um parceiro de proximidade que possa acompanhar a implementação. Em Moçambique, estas barreiras são mais evidentes no segmento micro e informal.

O que me parece mais realista, a curto e médio prazo, é que o Cegid Primavera ERP Evolution em subscrição vai ter impacto significativo no segmento de pequenas e médias empresas formalizadas, aquelas que já têm estrutura de gestão mas que eram pressionadas pelo custo do software tradicional. 

Para o universo micro e informal, a mudança virá, mas exigirá um ecossistema mais amplo de apoio, formação, financiamento e infraestrutura.

A Cegid tem agora, com a integração da PHC, dois ERP diferentes no mesmo mercado moçambicano, Primavera e PHC. Em Lisboa ou Porto isso pode parecer complementaridade. Em Maputo, como é que um cliente ou parceiro decide qual usar e há risco de isso gerar confusão em vez de escolha?

O risco existe se a comunicação não for feita com clareza. E é precisamente por isso que este é um tema que levo muito a sério na forma como posiciono ambas as soluções no mercado.

A realidade é que o ERP Primavera e o ERP PHC têm perfis de cliente distintos, em termos de dimensão, complexidade de processos, sector de actividade e modelo de implementação preferido. Não são produtos que se sobrepõem, são produtos complementares que permitem à Cegid cobrir um espectro mais amplo do mercado. O desafio não é técnico, é de comunicação e de posicionamento claro junto dos nossos clientes e parceiros. 

Para um parceiro, a decisão deve ser orientada por um diagnóstico honesto das necessidades do cliente e não pela preferência do parceiro ou por qualquer tipo de pressão interna. O meu papel é garantir que os parceiros têm o conhecimento e as ferramentas para fazer essa recomendação com confiança e sem ambiguidade. Quando isso funciona bem, ter dois produtos fortes é uma vantagem enorme. Quando não funciona, pode efectivamente gerar alguma confusão.

Se pudesse mudar uma coisa no ambiente de negócios tecnológico em Moçambique, o que seria?

Aumentaria a rapidez com que o sistema educativo produz profissionais de tecnologia com perfil de negócio. Moçambique não tem falta de talento, tem uma falta estrutural de profissionais que combinem competência técnica com visão de gestão e capacidade de implementação em contextos empresariais reais.

Esta lacuna é o maior constrangimento ao crescimento do sector. Limita a capacidade dos parceiros de escalar, limita a qualidade das implementações e limita a velocidade a que as empresas moçambicanas conseguem tirar partido da tecnologia que já existe. Nenhuma melhoria regulatória, nenhum incentivo fiscal e nenhum produto mais acessível resolve este problema. É um desafio de capital humano que exige investimento de longo prazo em educação e em formação profissional especializada.

V. ECOSSISTEMA & COMUNIDADE

Na sua perspectiva, quem são os principais players no mercado moçambicano?

Honestamente, prefiro não fazer um ranking de players, não porque não conheça o mercado, mas porque acredito genuinamente que há espaço para vários players num mercado com o potencial de crescimento que Moçambique representa. 

O que me parece mais relevante observar é a diversificação do ecossistema. Há operadores estabelecidos com décadas de presença, há consultoras regionais a expandir a sua oferta para serviços de tecnologia empresarial, e é isto que me entusiasma mais, uma geração emergente de empresas tecnológicas locais fundadas por moçambicanos. Startups e pequenas consultoras que estão a construir soluções adaptadas a nichos específicos do mercado, com um conhecimento de contexto que nenhum player externo consegue replicar facilmente.Esse ecossistema nascente é, para mim, o sinal mais positivo da maturidade do sector. E é algo que devemos apoiar activamente, não como concorrência a gerir, mas como parceiros em potencial e como prova de que o mercado está a criar as suas próprias capacidades.

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