A chinesa NQM Gold, subsidiária do grupo mineiro Shandong Yulong Gold, concluiu a aquisição de uma participação de 70% nos activos de grafite da australiana Triton Minerals em Moçambique, numa operação avaliada em 9,6 milhões de euros. O negócio consolida a entrada da empresa chinesa como accionista maioritária de dois activos de grafite no norte do país, num momento de recuperação da produção nacional e de crescente procura global pelo mineral.
A transacção abrange 70% das empresas moçambicanas Kwe Kwe Graphite, Lda. e Grafex, Limitada, que detêm os activos da Triton no país, incluindo o projecto de Ancuabe, em Cabo Delgado. A Triton Minerals mantém os restantes 30% do capital.
O negócio resulta de um processo iniciado em Dezembro de 2024, quando a Shandong Yulong Gold acordou adquirir pelo menos 70% dos activos moçambicanos da Triton. A operação acabaria suspensa na sequência de um litígio contratual entre as partes, antes de ser retomada através de um novo acordo assinado a 18 de Agosto de 2026.
Com a conclusão da operação, a NQM Gold efectuou o pagamento final de 3,1 milhões de euros à Triton, encerrando simultaneamente o processo judicial existente entre as partes. O acordo inclui ainda um mecanismo de compensação fiscal relacionado com as empresas objecto da transacção.
China aumenta exposição a um mineral estratégico
A aquisição ocorre num contexto em que a grafite ganha importância estratégica para a indústria global, particularmente na produção de baterias para veículos eléctricos e sistemas de armazenamento de energia. Para a China, maior actor mundial da cadeia de fornecimento de grafite, o controlo de activos de produção fora do seu mercado doméstico reforça a diversificação das fontes de matéria-prima.
Em Moçambique, a operação acrescenta capital chinês a um sector que procura recuperar depois de uma forte quebra na produção. Dados do Governo indicam que o país produziu 28.018 toneladas no primeiro trimestre de 2025, quase o dobro das 14.814 toneladas inicialmente previstas para todo o ano.
A produção nacional, que atingiu um máximo de 165.900 toneladas em 2022, caiu para 97.300 toneladas em 2023 e 34.900 toneladas em 2024. Em 2025, registou-se uma recuperação para 67.078 toneladas, apesar da suspensão temporária da mina de Balama, em Cabo Delgado, no período posterior às eleições.
Niassa amplia aposta chinesa
A operação da NQM Gold ocorre também numa fase de expansão do investimento chinês na cadeia de valor da grafite em Moçambique.
Em Janeiro deste ano, o Presidente Daniel Chapo inaugurou, em Niassa, uma unidade de processamento de grafite financiada por capital chinês e avaliada em cerca de 200 milhões de dólares. A instalação tem capacidade para produzir e processar até 200 mil toneladas de grafite por ano e poderá empregar mais de 2.000 trabalhadores quando atingir a capacidade plena.
A entrada da NQM Gold no capital dos activos da Triton acrescenta, assim, uma nova dimensão à presença chinesa no sector: além do investimento em processamento, passa a existir uma participação maioritária directa em activos de produção de grafite.
Para Moçambique, o negócio reforça o posicionamento da grafite como um dos minerais com potencial para atrair investimento estrangeiro e integrar o país nas cadeias internacionais associadas à transição energética. Ao mesmo tempo, a capacidade de transformar esse potencial em receitas de exportação, emprego e maior valor acrescentado dependerá da evolução da produção e do desenvolvimento da cadeia de processamento no país.



