A economia moçambicana está a recuperar a um ritmo moderado, mas ainda insuficiente para produzir melhorias significativas nas condições de vida da população, segundo o governador do Banco de Moçambique, Felisberto Navalha. O alerta surge num contexto marcado por inflação, limitações ao crédito e níveis elevados de dívida pública.
Depois de uma contracção de 0,2% em 2025, a economia cresceu apenas 1,7% no segundo trimestre de 2026. Para o governador, este desempenho permanece abaixo do potencial económico do país e das necessidades associadas à redução da pobreza.
Crédito continua a ser um dos principais obstáculos
Um dos sinais mais claros das limitações da recuperação está no financiamento à economia. O crédito bancário cresceu apenas 0,5% até Setembro, comparativamente ao mesmo período de 2025.
O Banco de Moçambique relaciona esta situação com o aumento da dívida pública e a acumulação de atrasados do Estado. Estes factores contribuem para manter elevada a rigidez das taxas de juro e concentram a liquidez bancária no mercado interbancário, reduzindo os recursos disponíveis para empresas e famílias.
A questão é particularmente relevante porque uma recuperação económica sustentada exige investimento privado, expansão empresarial e criação de emprego. Sem maior disponibilidade de crédito, o crescimento pode continuar concentrado em sectores específicos, com menor capacidade de transmissão para o resto da economia.
Inflação recua, mas riscos permanecem
A política monetária continua a ser conduzida com prudência. O ciclo de redução da taxa MIMO foi interrompido em Março, quando a taxa ficou em 9,25%, enquanto em Maio o Banco de Moçambique aumentou de 29% para 39% os coeficientes de reservas obrigatórias sobre depósitos em moeda nacional.
A inflação anual subiu de 4,41% em Abril para 7,51% em Junho, após ajustes nos preços dos combustíveis, mas posteriormente recuou para 6,31% em Setembro.
A desaceleração da inflação cria algum espaço para a economia, mas não elimina os riscos. O país continua exposto às variações dos preços internacionais de combustíveis, alimentos, transporte e logística, agravadas pelas tensões geopolíticas internacionais.
Sistema bancário mantém-se resiliente
Apesar das limitações ao financiamento, o sistema financeiro mantém indicadores considerados sólidos pelo Banco de Moçambique.
Em Setembro, o sector bancário apresentava um rácio de solvabilidade de 29% e um rácio de liquidez de 55,5%, ambos acima dos mínimos regulamentares. Os créditos malparados permaneciam próximos de 7%.
O contraste é relevante: os bancos apresentam capacidade financeira, mas a intermediação dessa capacidade em crédito à economia continua limitada.
2027 deverá trazer recuperação moderada
Navalha prevê que a recuperação prossiga em 2027, impulsionada principalmente pela agricultura, indústria extractiva e serviços.
O desempenho, contudo, continuará condicionado por riscos internos e externos. Entre eles estão a evolução da dívida pública, os atrasados do Estado, fenómenos climáticos associados ao El Niño e novas tensões geopolíticas internacionais.
O Banco de Moçambique admite rever a actual orientação monetária caso os riscos se agravem.
A principal conclusão do governador é que a política monetária, por si só, não será suficiente para acelerar a economia. A consolidação orçamental, a melhoria do ambiente de negócios e reformas estruturais serão igualmente determinantes para transformar a recuperação moderada em crescimento capaz de gerar mais investimento, emprego e melhoria das condições de vida.



