Governos da África Subsaariana procuram reduzir a dependência de smartphones importados e criar empregos através da produção local. Contudo, a falta de escala industrial, fornecedores de componentes e integração nas cadeias globais torna difícil competir com os grandes centros de produção asiáticos, reflecte Akim Benamara, o editor da TechAfrica News.
A principal diferença está entre fabricar e montar. Enquanto iniciativas de montagem no Quénia e no Egipto têm expandido a produção através de parcerias com fabricantes internacionais, algumas tentativas de criar marcas africanas de smartphones enfrentam dificuldades para competir em preço.
A Transsion, por exemplo, mantém uma forte presença no mercado africano através de equipamentos acessíveis, redes de distribuição amplas e produtos adaptados aos consumidores locais.
Escala continua a ser o principal desafio
A produção competitiva de smartphones exige volumes de milhões de unidades por ano. Os grandes centros industriais asiáticos conseguem atingir essa escala graças a décadas de investimento e à concentração de fornecedores de componentes.
Na África Subsaariana, o mercado está dividido entre 54 países, com diferentes regulamentações, tarifas, moedas e condições de mercado. Esta fragmentação dificulta a agregação da procura e aumenta os custos de produção.
Dados apresentados pelo Governo do Ruanda indicam que produzir ou montar localmente um dispositivo pode representar inicialmente um custo 5% superior ao da importação de equipamentos acabados provenientes da Ásia.
Os fabricantes locais enfrentam ainda problemas como instabilidade no fornecimento de energia e congestionamento portuário. Ao mesmo tempo, continuam dependentes da importação de componentes essenciais, como processadores, ecrãs e baterias.
A dependência do dólar permanece
A produção local é frequentemente apresentada como uma forma de reduzir o impacto das oscilações cambiais sobre os preços dos smartphones.
Contudo, enquanto os principais componentes continuarem a ser importados e pagos em dólares, a exposição às variações cambiais permanece elevada. A desvalorização das moedas locais pode aumentar directamente o custo dos componentes e dos kits utilizados na montagem.
Segundo Nitesh Singh, director-geral de Communications, Media and Technology da Accenture, a cadeia de fornecimento de equipamentos tecnológicos continua fortemente dependente de produtos fabricados fora de África.
Esta realidade limita a capacidade das fábricas africanas de controlar os custos finais. Mesmo quando a montagem ocorre localmente, uma parte significativa do valor do equipamento continua dependente das cadeias internacionais.
Montagem pode ser um primeiro passo
O desafio coloca em causa a ideia de que África precisa começar pela fabricação integral de smartphones. A experiência de países como Quénia e Egipto aponta para um modelo diferente, baseado inicialmente na montagem local em parceria com fabricantes globais.
Este modelo permite aproveitar cadeias de fornecimento já estabelecidas e reduzir algumas das barreiras associadas à criação de uma indústria completa de componentes.
A questão central passa, assim, por definir qual deve ser o primeiro passo para desenvolver uma indústria africana de dispositivos electrónicos: fabricar tudo localmente ou começar pela montagem e construir gradualmente capacidade industrial, fornecedores e escala.
Para a África Subsaariana, o caminho poderá depender menos da produção imediata de todos os componentes e mais da criação de um ecossistema industrial capaz de crescer progressivamente em torno da montagem, tecnologia, fornecedores locais e mercados regionais.
Fonte: TechAfrica News



