Regina Charumar é ambientalista e professora universitária residente na Cidade de Maputo. Reconhecida nacional e internacionalmente, Charumar destaca-se em acções de promoção da conservação e educação ambiental em zonas costeiras bem como em comunidades suburbanas. O carisma e a entrega valeram à ambientalista diversas distinções e prémios, entre os quais, a mais recente distinção Climate Champion pelo Alto Comissariado Britânico em Moçambique.

Foi de muito bom agrado que a ambientalista cedeu à Profile uma entrevista em volta dos desafios do empreendedorismo feminino amigo do ambiente. Foi uma conversa que se distinguiu pelo tom conversacional e pelo aspecto pedagógico que caracteriza as suas intervenções.

Profile ‒ O activismo ambiental no mundo e a valorização dos direitos da mulher, surgem quase em paralelo ao longo do século XX. Pode comentar esta coincidência?

RC ‒ O século XX foi em que houve uma maior abertura, maior oportunidade e possibilidades para as mulheres. À medida que elas foram tendo essas possibilidades, todas as esferas sociais e o activismo começam a vir ao de cima. E foi nesse exacto momento que o activismo social em todas as áreas e temáticas, incluindo o activismo ambiental, começam a vir à superfície e a mulher começa a ser ver no interesse e na possibilidade de também fazer parte deste processo. É nesse contexto que as mulheres começam a sentir a capacidade de que têm de lutar nas questões ambientais.

Profile ‒ Quais são as oportunidades de negócio para as mulheres que colaboram para a preservação ambiental em Moçambique?

RC ‒ São imensas, desde o activismo que pode ser visto também como trabalho. Mas quando falamos especificamente de negócio e empreendedorismo temos várias áreas, principalmente as ligadas à indústria de reciclagem e reaproveitamento de materiais, criação de formas de compra ou revenda de produtos que são descartados como o plástico e o vidro. Isto só funciona com o incremento da indústria de reciclagem, pois, se nós temos uma cadeia de valor em volta da reciclagem, ela vai contribuir positivamente quer para gerar renda como também para melhorar questões sociais e ambientais.

Profile ‒ Como é que a mulher pode inserir-se nesses mercados?

RC ‒ De diversas formas. Gosto de chamar a atenção ao facto das mulheres serem muito mais ligadas ao ambiente do que os homens, pela sensibilidade e pela disponibilidade. Olhando para o contexto moçambicano nós percebemos que grosso das mulheres vive de negócio informal e principalmente da colecta de materiais recicláveis, sendo este um nicho de mercado e de empreendedorismo que pode ser explorado e pode gerar renda para as famílias. A mulher pode inserir-se no mercado por esta via, pode também incrementar a indústria à volta destes resíduos, pode ir por via da produção orgânica e ecológica, pois, nós temos terra e meios suficientes que estão todos à disposição. Nós temos mulheres formadas que podem fazer formações, consultorias, podem fazer trabalhos de diversas formas para ONG’s e entidades nacionais e internacionais, o que é também uma oportunidade de inserção no mercado que as mulheres têm à disposição para a área ambiental.

Profile ‒ Acredita que haja nichos de negócios específicos para mulheres?

RC ‒ Nicho específicos não diria, mas se calhar poderíamos dizer que há mais mulheres directamente com colecta.

Profile ‒ No país, há mais homens que mulheres nos negócios formais, sendo que as mulheres empreendem em actividades informais. Que tipo de saída estas mulheres têm para a geração de renda mais ecologicamente sustentável?

RC ‒ Acredito que também devemos ter em conta o papel governativo neste nicho de mercado porque se não houver aberturas maiores e parcerias, o negócio vai continuar informal e vai continuar dependente dos escassos recursos que a mulher tem. É possível ter um investimento maior e temos cada vez mais mulheres a se posicionarem e a mostrarem que é possível. Mas isso depende de todo um contexto e uma organização a nível de investimentos que possibilitem às mulheres terem vias mais sustentáveis.

Profile ‒ Quais são os outros desafios que se colocam no desenvolvimento de negócios sustentáveis para mulheres?

RC ‒ Os desafios continuam a ser os mesmos se olharmos de forma geral para as oportunidades que elas têm no mercado. Olhamos as possibilidades delas desde o acesso aos investimentos e financiamentos e, quando falamos da área ambiental não é diferente, estamos só a olhar para uma temática específica que também depende de investimentos e financiamentos que infelizmente são cada vez menos. Há um desafio na percepção e interesse em investir e acreditar nas mulheres, e fazê-las acreditar que têm valor e podem fazer a diferença. Investimentos, financiamento e facilidades para a mulher, são importantes neste processo.

O ambiente é uma temática que ganha importância crescente em Moçambique e não só. E os desafios de preservar os recursos ambientais impõem o estabelecimento de novas formas de conviver com o meio e produzir riqueza. É neste sentido que as mulheres, sendo as mais sensíveis com as causas ambientais, tal como referiu a nossa entrevistada, são chamadas à acção num contexto em que o financiamento é ainda um grande obstáculo.

 

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