Wednesday, June 17, 2026
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As fintechs querem mais do que inclusão financeira

A associação das fintechs de moçambique nasceu de uma reunião informal de dozeempreendedores em 2018. O que faltava no mercado moçambicano para justificar criar uma associação sectorial?

O que faltava não era inovação, nem capacidade técnica, isso já existia. O que faltava era coordenação e uma voz comum. Em 2018, as empresas tecnológicas do sector,  surgiam de forma dispersa, cada uma a dialogar isoladamente com reguladores, bancos e parceiros, o que criava desalinhamentos e atrasava o desenvolvimento do sector.

A associação nasce para estruturar esse ecossistema. Mais do que representar, veio criar um espaço de articulação, promover diálogo consistente e ajudar a alinhar interesses em torno de temas críticos como regulação, interoperabilidade e acesso às infraestruturas. Num sector onde a confiança e a integração são fundamentais, essa ausência era um bloqueio real ao crescimento.

A Paytek, que fundou, foi a primeira fintech licenciada em Moçambique e uma das três aprovadas no primeiro Sandbox do Banco de Moçambique em 2018. O que aprendeu nesse processo o que mudou a forma como hoje, como presidente da associação das fintechs de moçambique, representa as outras empresas do sector?

O Sandbox mostrou que, no sector financeiro, inovar não é apenas uma questão tecnológica é uma questão de enquadramento. Uma solução pode ser tecnicamente sólida, mas só torna operacional e chega ao mercado quando é compreendida e aceite pelo regulador. E, quando se trata de uma solução verdadeiramente nova, ainda não prevista na regulação existente, cria-se também uma oportunidade para o próprio regulador aprender e evoluir, ajustando o enquadramento legal de forma a permitir a sua implementação, garantindo simultaneamente a proteção do sistema e dos clientes.

Essa experiência deixou uma lição clara: muitas fintechs não falham por falta de inovação, mas por dificuldade em traduzir os seus modelos para linguagem regulatória. Hoje, a associação tenta ajudar todas as empresas que pretendem entrar neste sector a criar pontes, facilitar o diálogo e ajudar a estruturar melhor essa comunicação com o regulador.

Mais do que um processo de validação, o Sandbox mostrou que o desenvolvimento do sector depende de um relacionamento contínuo e baseado em confiança entre todos os intervenientes. 

II. O MERCADO DE SERVIÇOS FINANCEIROS DIGITAIS HOJE

O sector Fintech em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo do que os wallets de mobile money que dominam o discurso público. Que diagnóstico faz do mercado no seu conjunto hoje. O que já funciona, o que ainda falta, e o que está efectivamente a travar o progresso?

O sector está numa fase de transição. Existe já uma base sólida, sobretudo graças ao mobile money, que permitiu uma inclusão financeira relevante, desmistificou aspectos de segurança, e criou confiança e hábitos digitais na população. Esse é um activo importante.

Mas o ecossistema vai muito além disso. Começam a surgir soluções mais completas  orientadas para pagamentos integrados, crédito digital e serviços focados para PMEs, áreas onde está o verdadeiro potencial de transformação económica. Estas soluções estão a ser construídas sobre os serviços base oferecidos pelos bancos e pelas carteiras móveis, criando propostas mais abrangentes e direcionadas às necessidades de segmentos específicos ou com maior impacto social. Este é o caminho que as fintechs e insurtechs começam a seguir e que será determinante para o seu crescimento e reconhecimento. Mais do que competir com o que já existe, o valor está em criar complementaridade, aproveitando e expandindo a base de serviços já instalada.

Ainda assim, persistem bloqueios estruturais. A interoperabilidade nem sempre é plena na prática, o acesso às infraestruturas continua limitado e os custos de integração e de utilização de plataformas de terceiros, são elevados. Além disso, existe um desafio mais profundo: estamos muitas vezes a digitalizar processos, mas a manter os mesmos modelos. O verdadeiro salto virá quando começarmos a transformar esses modelos.

Em Outubro de 2025, Moçambique saiu da lista cinzenta do FATF. Para o sector fintech, isso significa menor fricção nas parcerias internacionais mas também reguladores domésticos a intensificar a supervisão, com penalizações já aplicadas a operadores de mobile money. Como está a associação das fintechs de moçambique a ajudar as suas empresas-membro a navegar este novo quadro de compliance?

A saída da lista cinzenta é um sinal muito positivo e reduz a fricção internacional. Mas traz também maior exigência interna, com um reforço claro das obrigações de compliance.

Dada a dimensão ainda relativamente pequena do sector fintech em Moçambique, o impacto mais direto das exigências associadas ao FATF tem sido sentido sobretudo ao nível dos bancos, que estão mais expostos ao sistema financeiro internacional. Nas fintechs, esse impacto tem sido mais indireto, refletindo-se essencialmente nos requisitos impostos pelos parceiros financeiros e nas exigências de integração. Do lado da associação, o tema tem sido abordado sobretudo em contexto de sensibilização, através de sessões e painéis sobre segurança, compliance e cibersegurança, nomeadamente no âmbito da Fintech Week.

O desafio, a médio prazo, será garantir que o reforço das exigências não se traduz em barreiras desproporcionais para operadores mais pequenos, encontrando um equilíbrio entre o rigor necessário e a capacidade de continuar a promover inovação e inclusão no sector.

III. PESSOAS, CULTURA E LIDERANÇA

A associação das fintechs de moçambique foi crianda num sector onde a cooperação e a concorrência coexistem. Gerir esse equilíbrio é uma tarefa mais difícil do que parecia?

É um equilíbrio exigente, mas inevitável. O sector fintech funciona numa lógica de coopetição: competimos no mercado, mas dependemos uns dos outros para fazer crescer o ecossistema, nomeadamente dependemos do provedor de serviços de switch e processamento em Moçambique, a SimoRede. 

O maior desafio não é técnico, é cultural. Criar confiança entre actores com interesses diferentes exige tempo e transparência. Mas num mercado como o moçambicano, onde a escala ainda está a ser construída, nenhuma empresa cresce isoladamente. O crescimento individual está diretamente ligado à evolução do sistema como um todo.

Por isso, quando se diz que os bancos olham para as fintechs como concorrentes, essa é uma forma redutora de interpretar o mercado. O ponto de partida deve ser sempre o cliente colocá-lo no centro e perceber como responder melhor às suas necessidades. E essas respostas, cada vez mais, passam por modelos de cooperação entre bancos, fintechs e outros prestadores de serviços. Temos vindo a assistir a uma crescente convergência, seja numa lógica de complementaridade de canais, seja no fornecimento de tecnologia financeira numa abordagem mais próxima do conceito de TechFin do que de competição direta.

Tem 35 anos de experiência em TI e telecomunicações. Que competência técnica desse percurso se revelou mais decisiva para construir credibilidade junto dos reguladores moçambicanos?

A competência mais decisiva foi a capacidade de traduzir tecnologia em linguagem de negócio e de regulação. Nos serviços financeiros, não basta desenvolver sistemas é preciso entender e explicar como funcionam, como controlam o risco e qual o seu impacto no sector. Os reguladores não avaliam apenas tecnologia; avaliam confiança. E essa confiança constrói-se com clareza, rigor e capacidade de estruturar bem os modelos. 

Ao longo do tempo, acredito que essa abordagem tenha contribuído para o reconhecimento do meu trabalho por parte dos reguladores, com quem tenho vindo a colaborar desde 2009 em Moçambique, num percurso assente na consistência e na transparência.

IV. VISÃO E FUTURO

A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2031, lançada em Agosto de 2025, define a expansão dos serviços financeiros digitais como eixo central. A associação das fintechs de moçambique participou na sua concepção? E o que falta nessa estratégia para o sector crescer a um ritmo diferente?

A associação das fintechs de Moçambique tem participado activamente no Comité Nacional de Inclusão Financeira desde a primeira edição da ENIF 2016–2022, integrando os respetivos grupos de trabalho. Na atual estratégia 2025–2031, essa participação foi reforçada, com presença nos grupos de trabalho de ecossistemas de pagamento, acesso ao crédito e promoção de seguros. Para além disso, a associação assume também um papel transversal de apoio ao Comité, fornecendo informação atualizada sobre a evolução do sector fintech e contribuindo para iniciativas estruturantes como o Sandbox regulamentar e as plataformas de inovação.

A estratégia está, no essencial, bem alinhada e reconhece o papel central dos serviços financeiros digitais. No entanto, o principal desafio passa agora pela execução, transformar esta visão em medidas concretas, com responsabilidades claras, prazos definidos e mecanismos de acompanhamento eficazes. Há também áreas que exigem um reforço adicional, nomeadamente a interoperabilidade efetiva, a abertura das infraestruturas, incluindo modelos de Open Banking, e um maior foco nas PMEs. Sem estes elementos, o ritmo de crescimento do sector poderá ficar aquém do seu verdadeiro potencial.

O Banco de Moçambique está a analisar regras sobre o uso de inteligência artificial no sistema financeiro. Para um sector onde a IA pode ser a diferença entre escalar ou não, o que deve uma regulação bem feita permitir e o que deve absolutamente evitar?

A regulação da inteligência artificial para o sector financeiro deve focar-se no risco, não na tecnologia. O objetivo deve ser garantir transparência, auditabilidade e proteção do consumidor, sem bloquear a inovação.

Se for excessivamente restritiva, pode limitar exatamente aquilo que permite escalar o sector, nomeadamente o uso de dados para melhorar decisões de crédito, prevenir fraude e ciberataques e personalizar serviços. A IA não deve ser vista, nem regulada, de forma isolada. É igualmente importante que os reguladores considerem as condições de base necessárias para a sua utilização eficaz, nomeadamente o acesso a infraestruturas tecnológicas adequadas. Isso inclui a utilização de plataformas internacionais de cloud, onde estão disponíveis ferramentas avançadas de processamento de dados e machine learning, essenciais para o desenvolvimento e operação de modelos de IA mais sofisticados. Limitar esse acesso pode comprometer não só a capacidade de inovação, mas também a competitividade do sector.

No meu entender, a IA não é um complemento aplicacional ou de negócio. Será  estrutural para o futuro dos serviços financeiros tanto na sua modernização como na sua escalabilidade e segurança. A regulação deve permitir essa evolução, garantindo ao mesmo tempo confiança no sistema.

A Mozambique Fintech Week chegou à 6.ª edição em 2025 com o tema “Regulação, Inovação e o Futuro dos Serviços Financeiros Digitais”. O que mudou concretamente entre a primeira edição e a sexta?

A evolução da Fintech Week acompanha a evolução do próprio sector. Nas primeiras edições, o foco era conceptual e de sensibilização. Hoje, a discussão é muito mais concreta, técnica e orientada para a implementação. Passámos a abordar temas como interoperabilidade, infraestruturas de pagamento, regulação avançada e inteligência artificial, com exemplos reais e casos de implementação. 

Na edição mais recente, realizada no passado mês de Março, demos um passo adicional ao centrar a discussão na interoperabilidade de serviços com o cidadão no centro.   O foco deixou de estar apenas na tecnologia ou na concepção das soluções e passou a estar no impacto real dos serviços na vida das pessoas e empresas. O evento deixou de ser apenas um espaço de debate e afirmou-se como uma plataforma de trabalho,  colaboração e construção de soluções.

Mais do que falar do futuro, hoje discutimos como escalar o que já está a acontecer.

V. ECOSSISTEMA & COMUNIDADE

Na sua perspectiva, quem são os principais actores, fintechs, operadores, parceiros que mais têm contribuído para o desenvolvimento do ecossistema fintech em Moçambique, e o que os distingue de quem apenas ocupa espaço no mercado?

O ecossistema tem evoluído graças a uma combinação de diferentes actores. Os operadores de mobile money tiveram um papel decisivo na inclusão financeira e continuam a desempenhar um papel activo na inovação de serviços. Os bancos estão a acelerar a sua transformação digital e com o recente lançamento do Metix como plataforma de pagamentos instantâneos, passam também a posicionar-se de forma mais competitiva no espaço dos pagamentos entre pessoas. As Infraestruturas nacionais são igualmente determinantes, assumindo a SimoRede um papel central na criação das condições de interoperabilidade e funcionamento do mercado. O sector das telecomunicações é também fundamental, pois cria as condições de acesso aos serviços, assegurando uma cobertura geográfica cada vez mais ampla e custos progressivamente mais acessíveis. As fintechs, por outro lado, introduzem inovação e novas propostas de valor, combinando essas infraestruturas com serviços mais ágeis e orientados para necessidades específicas.

O que distingue os actores mais relevantes é a capacidade de investir em integração, colaborar e pensar a longo prazo. Aqueles que se limitam a replicar modelos existentes, sem verdadeira integração no ecossistema ou sem alinhamento com as regras do sector, tendem a ter um impacto limitado e, em alguns casos, arriscam mesmo a não se sustentar no mercado.

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