Emídio Amadebai, Director Geral da Raxio Moçambique, explica como o grupo posiciona o país no mapa digital africano e por que razão o novo regulamento de dados pode ser o maior acelerador da transformação digital que Moçambique alguma vez teve.
A Raxio chegou a Moçambique com uma proposta diferente das que o mercado estava habituado a ver. Como é que a empresa se posiciona aqui como operador de data centers ou como actor estratégico no desenvolvimento da economia digital?
Começamos a conceber a nossa entrada em Moçambique em 2020, 2021, e a ideia nasceu da observação de uma tendência clara nos mercados africanos, a transformação digital, a regulamentação crescente e a competitividade que essa regulamentação exige. Não olhamos para os mercados habituais África do Sul, Quénia, os chamados usual suspects, porque esses já têm muitos investidores e muita infra-estrutura construída. Olhamos para Moçambique, Uganda, Tanzânia, Angola, a pensar nos próximos 15 a 25 anos.
A pergunta que fizemos foi simples, o que vai este mercado precisar? A resposta foi igualmente clara vai precisar de infra-estrutura robusta, construída com padrões internacionais, que permita a Moçambique entrar no mapa não como mais um país com um centro de dados que funciona apenas para si, mas como um centro de dados com vocação regional.
E o conceito de Carrier Neutral e Cloud Neutral que desenvolveram o que significa concretamente para um cliente moçambicano?
Significa liberdade de escolha. Construímos na Raxio um ecossistema digital de comunicações e plataformas de cloud completamente agnóstico em relação às preferências de conectividade ou de cloud dos nossos clientes. Isso permite a um investidor ou a uma entidade moçambicana chegar à Raxio e ter um buffet de opções, mais poder de negociação, mais capacidade de escolher o provedor que melhor se adequa às suas necessidades.
E há ainda o factor aceleração. Para aqueles clientes que ainda não têm capacidade para adquirir nova infra-estrutura e fazer a transição para o digital, ou para cumprir com os novos regulamentos de residência de dados, temos parceiros de cloud e de infra-estrutura as a service (IaaS), onde podem comprar pacotes customizados às suas necessidades.
Estamos a ver entidades que nem sequer se imaginavam a implementar as suas plataformas hoje, e que já conseguem conectividade e infra-estrutura no mesmo sítio, com redundância garantida pelo padrão tier 3 o padrão internacionalmente reconhecido que significa que quando colocas a tua infra-estrutura na Raxio, passa a operar com níveis de confiança muito superiores, reduzindo praticamente a exposição aos riscos de indisponibilidade. A ideia de que “o sistema vai abaixo” deixa de fazer parte da equação..
Quem são os vossos parceiros actuais em Moçambique?
Temos praticamente todos os maiores provedores de comunicação os operadores como a Vodacom, a Movitel, a Tmcel. Temos carriers como a WIOCC e a Wonderport. Temos a NTT, que muitos conhecem pelo nome anterior de Dimension Data ou Internet Solutions, a Webmasters, a TV Cabo, a Teledata. Neste momento estamos entre 10 e 11 parceiros de conectividade dentro da Raxio.
Em termos de cloud, estamos a trabalhar com a Encha Cloud, um provedor sul-africano que está agora a implementar-se em Moçambique, e com a Agile, que é tanto provedora de cloud como de conectividade, também da África do Sul. Temos ainda a Bubble Cloud, em parceria com a Triana Business, que já tem uma instância operacional na Raxio e já serve alguns clientes a partir dali. Estamos em conversações com mais dois players de cloud um nacional e um internacional que ainda não foram formalizados, mas acredito que até ao final do ano teremos pelo menos quatro clouds residentes dentro da Raxio.
O sector financeiro é claramente um dos vossos clientes prioritários. Consegue dar-nos uma ideia da dimensão dessa presença?
Em Uganda, por exemplo, temos mais de 70% do sector financeiro no nosso data center. É quase inevitável é um no-brainer, como se costuma dizer. Em Moçambique, já temos um dos três maiores bancos a fazer colocation connosco há mais de um ano, mais alguns bancos de menor dimensão. E temos também uma entidade que não posso nomear, mas que é muito relevante no sector financeiro moçambicano e que acreditamos servirá de magneto para atrair todas as outras entidades do sector. Está a ser construída aqui uma plataforma de peering e interconexão entre entidades que nunca existiu antes em Moçambique.
E a concorrência com outros data centers no mercado como é que gerem essa relação?
É uma mistura. Com alguns temos uma colaboração genuinamente boa chegamos mesmo a fazer referências de clientes entre nós, porque há clientes que precisam de dois sites com a distância regulamentar de 15 a 20 quilómetros entre eles, e a Raxio só tem um. Com outros a relação é mais de rivalidade. Mas acredito que, inevitavelmente, com o novo regulamento a trazer uma procura massiva por capacidade de data center de certo calibre, vamos ter que colaborar mais do que competir.
O mercado tem agora a Raxio e a Vodacom como os dois únicos operadores com certificação tier 3 em Moçambique. Os restantes a Icolo.io, a MCnet, a Silex, a Bravantic têm o seu nicho, mas o novo regulamento vai estratificar claramente o mercado. Todos os clientes com serviços essenciais transportes, logística, comunicações, sector financeiro, órgãos de soberania, migração, educação, saúde passam a ser formalmente obrigados a estar num data center de calibre tier 3. E construímos o nosso a olhar exactamente para esse futuro.
Falou dos cabos submarinos. Qual é a importância geográfica de Moçambique nessa equação?
É central. Moçambique está estrategicamente localizado na costa oriental de África, e todos os cabos submarinos que aumentam a conectividade do continente com a Europa, a Ásia e, eventualmente, a América, passam por aqui ou por pontos muito próximos. O cabo 2Africa, um dos mais robustos do mundo neste momento, já tem dois pontos de passagem em Moçambique.
O Peace Cable da China está a caminho. Quando esta tendência de cabos se instala, cresce a necessidade de agregação de dados, e players como Google, Facebook ou Microsoft que têm os seus próprios standards e não entram em qualquer data center começam a olhar para mercados como o nosso de forma diferente.
Hoje em dia, quando um moçambicano acede ao YouTube, o pedido ainda sai do país, vai até à África do Sul ou mesmo até Portugal, e isso encarece o custo da internet. Com os novos regulamentos de soberania de dados e com a pressão crescente para que esses grandes players coloquem instâncias em cada país, a Raxio está exactamente no lugar certo para receber essas cloud regions.
O novo regulamento de residência de dados entra em vigor a 1 de Abril. Que impacto espera?
Espero um impacto enorme, mas com alguma cautela sobre o ritmo. Conheço bem o contexto moçambicano e sei que muitas empresas vão começar o ano a pedir desculpas ao regulador, a invocar falta de orçamento, a pedir mais tempo. Haverá um exercício massivo de literacia digital, de educação sobre cibersegurança e protecção de dados. Isso é natural e é parte do processo.
Mas quando olho para este regulamento em comparação com outros que já vi em África, fico genuinamente optimista. É assertivo, directo, sem fluff , diz exactamente o que tem de ser feito e o que não pode ser feito. Incorpora lições que outras economias aprenderam à custa de erros que nós não temos de repetir.
A minha maior preocupação é o enforcement. Até que ponto o regulador vai efectivamente bater à porta de quem não cumpre? Não temos ainda essa estrutura instalada. Mas vi o Presidente da República, no evento de transformação digital, a dizer directamente a todos os ministérios e organismos públicos que o Ministro da Transformação Digital vai liderar este processo e que todos têm de seguir. Quando existe alinhamento entre a liderança máxima e o ministério responsável, isso muda tudo. Dá-nos optimismo real.
Qual é, em síntese, o papel estratégico de Moçambique dentro da presença africana da Raxio?
É um mercado estratégico, sem reservas. Temos todos os ingredientes, localização geográfica privilegiada nos cabos submarinos, uma população jovem a adoptar tecnologia a ritmo acelerado, um governo com vontade declarada de digitalizar, e agora um quadro regulatório que exige infraestrutura de qualidade. A capacidade actual do nosso data center em Maputo é adequada para a realidade de hoje, mas para o que os próximos cinco anos exigem, vamos precisar de mais. E estamos já a olhar para isso.
Já falamos com o governo sobre a regionalização dos serviços, o centro e o norte precisam de cobertura. Mostramos disponibilidade, capacidade técnica e financeira. Em seis países africanos já fizemos isto. O nosso tempo de construção caiu de dois anos e meio para um ano e três meses. Em doze meses conseguimos entregar um data center de classe mundial. Se a procura existir e com o regulamento que aí vem, vai existir nós estamos prontos.



