Wednesday, June 24, 2026
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Construímos o melhor Centro de Dados em cada mercado que entramos

Emídio Amadebai, Director Geral da Raxio Moçambique, explica como o grupo posiciona o país no mapa digital africano e por que razão o novo regulamento de dados pode ser o maior acelerador da transformação digital que Moçambique alguma vez teve.

A Raxio chegou a Moçambique com uma proposta diferente das que o mercado estava habituado a ver. Como é que a empresa se posiciona aqui como operador de data centers ou como actor estratégico no desenvolvimento da economia digital?

Começamos a conceber a nossa entrada em Moçambique em 2020, 2021, e a ideia nasceu da observação de uma tendência clara nos mercados africanos, a transformação digital, a regulamentação crescente e a competitividade que essa regulamentação exige. Não olhamos para os mercados habituais África do Sul, Quénia, os chamados usual suspects, porque esses já têm muitos investidores e muita infra-estrutura construída. Olhamos para Moçambique, Uganda, Tanzânia, Angola, a pensar nos próximos 15 a 25 anos.

A pergunta que fizemos foi simples, o que vai este mercado precisar? A resposta foi igualmente clara vai precisar de infra-estrutura robusta, construída com padrões internacionais, que permita a Moçambique entrar no mapa não como mais um país com um centro de dados que funciona apenas para si, mas como um centro de dados com vocação regional.

E o conceito de Carrier Neutral e Cloud Neutral que desenvolveram o que significa concretamente para um cliente moçambicano?

Significa liberdade de escolha. Construímos na Raxio um ecossistema digital de comunicações e plataformas de cloud completamente agnóstico em relação às preferências de conectividade ou de cloud dos nossos clientes. Isso permite a um investidor ou a uma entidade moçambicana chegar à Raxio e ter um buffet de opções mais poder de negociação, mais capacidade de escolher o provedor que melhor se adequa às suas necessidades.

E há ainda o factor aceleração. Para aqueles clientes que ainda não têm capacidade para adquirir nova infra-estrutura e fazer a transição para o digital, ou para cumprir com os novos regulamentos de residência de dados, temos parceiros de cloud e de infra-estrutura as a service onde podem comprar pacotes customizados às suas necessidades. 

Estamos a ver entidades que nem sequer se imaginavam a implementar as suas plataformas hoje, e que já conseguem conectividade e infra-estrutura no mesmo sítio, com redundância garantida pelo padrão tier 3 o padrão internacionalmente reconhecido que significa que quando colocas a tua infra-estrutura na Raxio, podes descansar. A ideia de que o sistema vai abaixo passa a ser um boato.

Quem são os vossos parceiros actuais em Moçambique?

Temos praticamente todos os maiores provedores de comunicação os operadores como a Vodacom, a Movitel, a Tmcel. Temos carriers como a WIOCC e a Wonderport. Temos a NTT, que muitos conhecem pelo nome anterior de Dimension Data ou Internet Solutions, a Webmasters, a TV Cabo, a Teledata. Neste momento estamos entre 10 e 11 parceiros de conectividade dentro da Raxio.

Em termos de cloud, estamos a trabalhar com a EnchaCloud, um provedor sul-africano que está agora a implementar-se em Moçambique, e com a Agile, que é tanto provedora de cloud como de conectividade, também da África do Sul. Temos ainda a BubbleCloud, em parceria com a Triana, que já tem uma instância operacional na Raxio e já serve alguns clientes a partir dali. Estamos em conversações com mais dois players de cloud um nacional e um internacional que ainda não foram formalizados, mas acredito que até ao final do ano teremos pelo menos quatro clouds residentes dentro da Raxio.

O sector financeiro é claramente um dos vossos clientes prioritários. Consegue dar-nos uma ideia da dimensão dessa presença?

Em Uganda, por exemplo, temos mais de 70% do sector financeiro no nosso data center. É quase inevitável é um no-brainer, como se costuma dizer. Em Moçambique, já temos um dos três maiores bancos a fazer colocation connosco há mais de um ano, mais alguns bancos de menor dimensão. E temos também uma entidade que não posso nomear, mas que é muito relevante no sector financeiro moçambicano e que acreditamos servirá de magneto para atrair todas as outras entidades do sector. Está a ser construída aqui uma plataforma de peering e interconexão entre entidades que nunca existiu antes em Moçambique.

E a concorrência com outros data centers no mercado como é que gerem essa relação?

É uma mistura. Com alguns temos uma colaboração genuinamente boa chegamos mesmo a fazer referências de clientes entre nós, porque há clientes que precisam de dois sites com a distância regulamentar de 15 a 20 quilómetros entre eles, e a Raxio só tem um. Com outros a relação é mais de rivalidade. Mas acredito que, inevitavelmente, com o novo regulamento a trazer uma procura massiva por capacidade de data center de certo calibre, vamos ter que colaborar mais do que competir.

O mercado tem agora a Raxio e a Vodacom como os dois únicos operadores com certificação tier 3 em Moçambique. Os restantes a Ecolo, a MCnet, a Silex, a Bravantic têm o seu nicho, mas o novo regulamento vai estratificar claramente o mercado. Todos os clientes com serviços essenciais transportes, logística, comunicações, sector financeiro, órgãos de soberania, migração, educação, saúde passam a ser formalmente obrigados a estar num data center de calibre tier 3. E construímos o nosso a olhar exactamente para esse futuro.

Falou dos cabos submarinos. Qual é a importância geográfica de Moçambique nessa equação?

É central. Moçambique está estrategicamente localizado na costa oriental de África, e todos os cabos submarinos que aumentam a conectividade do continente com a Europa, a Ásia e, eventualmente, a América, passam por aqui ou por pontos muito próximos. O cabo 2Africa, um dos mais robustos do mundo neste momento, já tem dois pontos de passagem em Moçambique. 

O Peace Cable da China está a caminho. Quando esta tendência de cabos se instala, cresce a necessidade de agregação de dados, e players como Google, Facebook ou Microsoft que têm os seus próprios standards e não entram em qualquer data center começam a olhar para mercados como o nosso de forma diferente.

Hoje em dia, quando um moçambicano acede ao YouTube, o pedido ainda sai do país, vai até à África do Sul ou mesmo até Portugal, e isso encarece o custo da internet. Com os novos regulamentos de soberania de dados e com a pressão crescente para que esses grandes players coloquem instâncias em cada país, a Raxio está exactamente no lugar certo para receber essas cloud regions.

O novo regulamento de residência de dados entra em vigor a 1 de Abril. Que impacto espera?

Espero um impacto enorme, mas com alguma cautela sobre o ritmo. Conheço bem o contexto moçambicano e sei que muitas empresas vão começar o ano a pedir desculpas ao regulador, a invocar falta de orçamento, a pedir mais tempo. Haverá um exercício massivo de literacia digital, de educação sobre cibersegurança e protecção de dados. Isso é natural e é parte do processo.

Mas quando olho para este regulamento em comparação com outros que já vi em África, fico genuinamente optimista. É assertivo, directo, sem fluff , diz exactamente o que tem de ser feito e o que não pode ser feito. Incorpora lições que outras economias aprenderam à custa de erros que nós não temos de repetir.

A minha maior preocupação é a enforcement. Até que ponto o regulador vai efectivamente bater à porta de quem não cumpre? Não temos ainda essa estrutura instalada. Mas vi o Presidente da República, no evento de transformação digital, a dizer directamente a todos os ministérios e organismos públicos que o Ministro da Transformação Digital vai liderar este processo e que todos têm de seguir. Quando existe alinhamento entre a liderança máxima e o ministério responsável, isso muda tudo. Dá-nos optimismo real.

Qual é, em síntese, o papel estratégico de Moçambique dentro da presença africana da Raxio?

É um mercado estratégico, sem reservas. Temos todos os ingredientes, localização geográfica privilegiada nos cabos submarinos, uma população jovem a adoptar tecnologia a ritmo acelerado, um governo com vontade declarada de digitalizar, e agora um quadro regulatório que exige infraestrutura de qualidade. A capacidade actual do nosso data center em Maputo é adequada para a realidade de hoje, mas para o que os próximos cinco anos exigem, vamos precisar de mais. E estamos já a olhar para isso.

Já falamos com o governo sobre a regionalização dos serviços Maputo não chega, o centro e o norte precisam de cobertura. Mostramos disponibilidade, capacidade técnica e financeira. Em seis países africanos já fizemos isto. O nosso tempo de construção caiu de dois anos e meio para um ano e três meses. Em doze meses conseguimos entregar um data center de classe mundial. Se a procura existir e com o regulamento que aí vem, vai existir nós estamos prontos.

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