Wednesday, June 24, 2026
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Entre a Tecnologia e as Pessoas: A visão de longo prazo da 2BUSINESS

A 2Business existe há mais de 21 anos no mercado. Nos primeiros anos, o que é que uma empresa de implementação ERP em Moçambique tinha de explicar aos clientes que hoje já não precisa de explicar?

Esta é uma questão muito interessante porque mostra também a evolução da maturidade tecnológica do mercado moçambicano. Há 20 anos, praticamente não se falava de ERP; falava-se sobretudo de “programas de contabilidade” ou “sistemas de facturação”. O desafio inicial era explicar que um ERP não era apenas um software para emitir facturas, mas sim uma plataforma integrada capaz de ligar finanças, compras, stock, recursos humanos, vendas e operação numa única visão do negócio.

Na altura, muitas empresas viam a informática como um custo administrativo. Hoje, apesar de ainda existir esse pensamento em parte do mercado, já há uma consciência muito maior de que a tecnologia influencia directamente a eficiência, controlo, crescimento e capacidade de gestão.

Outro aspecto que mudou bastante é a percepção sobre dados. Antes, era necessário convencer as empresas da importância de centralizar informação e reduzir processos manuais. Hoje, a maioria já sente na prática o impacto da falta de integração: dados duplicados, dificuldade de controlo, fraude, lentidão operacional e pouca capacidade de tomada de decisão.

Mesmo assim, em muitas pequenas e médias empresas, ainda é comum ouvir termos como “sistema de facturação” em vez de ERP. Isso mostra que o mercado evoluiu, mas ainda existe um trabalho importante de educação sobre o papel do ERP como o verdadeiro sistema nervoso central da organização.

A 2Business surgiu numa fase em que o mercado tecnológico moçambicano ainda dava os primeiros passos. Hoje, após mais de duas décadas de actividade, como está estruturada a empresa em termos accionistas, parceiros estratégicos e equipa, e de que forma essa combinação tem contribuído para a consolidação da 2Business no sector tecnológico em Moçambique?

A 2Business teve a felicidade de construir, ao longo dos anos, uma estrutura societária muito estável e complementar. Hoje, a empresa é composta por quatro sócios, liderados pelo Managing Partner, Dinis Teixeira, juntamente com partners como Faela Chabule e Kátia Furtado, entre outros elementos da estrutura accionista.

Essa composição trouxe algo muito importante para uma empresa tecnológica: continuidade, confiança e redundância de liderança. Num mercado como o nosso, onde muitas empresas dependem excessivamente de uma única pessoa, ter uma equipa de sócios que trabalha junta há muitos anos dá robustez institucional e reduz riscos operacionais.

Foi precisamente essa maturidade interna que permitiu à empresa expandir-se para outros mercados, como Angola, sem comprometer a qualidade da operação em Moçambique. Existe um nível de confiança, alinhamento e agilidade na tomada de decisão que seria difícil construir sem relações profissionais consolidadas ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, a combinação entre experiência local, parceiros tecnológicos estratégicos e uma equipa técnica especializada permitiu à 2Business manter-se relevante num sector que muda constantemente. A tecnologia evolui muito rápido, mas acreditamos que a capacidade de adaptação, proximidade com o cliente e entendimento do contexto local continuam a ser diferenciais fundamentais.

A vossa operação expandiu-se para Angola, onde assumiu o papel de country manager. O que é que esse movimento lhe ensinou sobre o que é específico de Moçambique e o que é transversal a ambos os mercados?

A expansão para Angola foi muito importante porque mostrou-me que, apesar de Moçambique e Angola terem histórias económicas e desafios muito semelhantes, existem diferenças culturais e de maturidade empresarial que influenciam bastante a forma como a tecnologia é adoptada.

São mercados muito parecidos em termos de contexto africano: forte peso das relações pessoais nos negócios, elevada informalidade em alguns sectores, desafios de infra-estrutura e uma necessidade crescente de digitalização. A grande diferença é a escala. Angola tem um PIB significativamente maior e sectores privados com maior capacidade de investimento em determinadas áreas.

Ao mesmo tempo, percebi que Moçambique está bastante avançado em alguns domínios, sobretudo na abertura para inovação, serviços digitais e adopção de soluções tecnológicas mais leves e ágeis. Existe uma humildade e frontalidade no ambiente de negócios moçambicano que considero muito positiva. Mesmo quando um cliente não está interessado, normalmente existe transparência na comunicação.

Em Angola, pela minha experiência, o ambiente de negócios tende a ser mais fechado e relacional. Muitas vezes, uma empresa simplesmente deixa de responder em vez de dar um “não” directo. Pode parecer um detalhe pequeno, mas isso influencia muito a forma de construir relações comerciais e gerir expectativas.

No fundo, trabalhar nos dois mercados ensinou-me que a tecnologia em África raramente é apenas uma questão técnica. É sobretudo uma questão cultural, humana e de adaptação ao contexto local.

II. O Momento Actual

Para além dos sistemas de gestão empresarial e da digitalização dos processos internos, o sector tecnológico em Moçambique cobre um espectro mais amplo. Que leitura faz do mercado no seu conjunto hoje  onde estão as maiores lacunas e onde estão as maiores oportunidades reais?

De forma geral, acredito que Moçambique tem dado passos positivos no sector tecnológico, sobretudo se olharmos para os últimos 10 anos. Hoje existe mais conectividade, mais acesso a ferramentas digitais e uma nova geração de empresas e empreendedores com uma mentalidade muito mais tecnológica.

No entanto, ainda existem desafios estruturais importantes. A electrificação e a democratização do acesso à internet continuam a ser barreiras fundamentais, principalmente fora dos grandes centros urbanos. Mas acrescentaria um outro ponto que muitas vezes é pouco discutido: as limitações no acesso a pagamentos internacionais e aquisição de serviços tecnológicos ao exterior. É muito difícil desenvolver um ecossistema tecnológico competitivo sem acesso fluido a plataformas, infra-estrutura cloud, licenças, ferramentas de desenvolvimento e serviços globais. Nenhum país desenvolve tecnologia isolado do mundo.

Outro desafio crítico é a direcção estratégica enquanto país. Precisamos de decidir se queremos apenas consumir tecnologia ou também produzir tecnologia. Isso implica fomentar uma indústria tecnológica nacional forte, com empresas locais sustentáveis, capacidade técnica e visão de longo prazo. Não será possível digitalizar completamente Moçambique apenas com soluções importadas ou dependendo sempre de fornecedores estrangeiros para os grandes projectos estruturantes.

Ao mesmo tempo, é exactamente aí que reside a maior oportunidade. Moçambique ainda tem muito por construir em áreas como digitalização empresarial, govtech, fintech, saúde digital, logística, educação e agricultura. As empresas que conseguirem adaptar soluções à realidade local — considerando conectividade, informalidade, meios de pagamento e contexto operacional africano — terão uma vantagem competitiva muito forte. Em África, muitas vezes ganha não a tecnologia mais sofisticada, mas a que melhor entende o contexto local.

Em Fevereiro de 2026, o Governo moçambicano realizou a 1.ª Conferência Nacional de Transformação Digital e criou a Agência de Transformação Digital e Inovação. O que é que esse sinal do Estado muda para uma empresa como a 2Business?

Para uma empresa como a 2Business, que há mais de duas décadas trabalha em processos de informatização no sector público e privado, este é um sinal positivo, sobretudo porque mostra que a transformação digital passou a fazer parte da agenda nacional.

No entanto, sou cauteloso em relação ao impacto real apenas da criação de uma nova entidade. Moçambique já teve instituições e iniciativas com missões semelhantes, como o INTIC e o CEDSIF. O verdadeiro desafio nunca foi apenas criar estruturas, mas sim garantir execução, continuidade e capacidade de coordenação entre instituições.

As conferências e estratégias são importantes porque ajudam a alinhar visão. Mas transformação digital não acontece por decreto. Exige liderança, capacidade técnica, responsabilização institucional e, acima de tudo, uma mudança cultural dentro do próprio Estado.

Também acredito que existe uma ligação muito forte entre digitalização e educação. É difícil falar seriamente sobre transformação digital sem investir simultaneamente em educação de qualidade, literacia digital e formação técnica. Caso contrário, corremos o risco de ter sistemas modernos operados dentro de estruturas que continuam analógicas na mentalidade e nos processos.

Para que esta agência tenha impacto real, será importante que tenha capacidade de orientar padrões, garantir interoperabilidade entre instituições e criar mecanismos de responsabilização dos projectos públicos. Mesmo que não tenha poder executivo directo sobre todas as instituições, espero que pelo menos consiga funcionar como um guia estratégico consistente para o país.

III. Pessoas, Cultura & Liderança

A 2Business opera em dois países e com uma equipa técnica especializada num mercado onde esses perfis são escassos. Como é que gere a retenção e o desenvolvimento de talento técnico quando a concorrência por esses profissionais é global e a remuneração local raramente compete?

Esse é provavelmente um dos maiores desafios do sector tecnológico africano actualmente. Hoje, um bom profissional técnico em Maputo ou Luanda já não compete apenas com empresas locais; compete com oportunidades remotas em qualquer parte do mundo. Temos consciência dessa realidade e não faz sentido negá-la.

Na 2Business, tentamos actuar naquilo que está ao nosso alcance: criar um ambiente onde as pessoas sintam que crescem, aprendem e são valorizadas. Investimos muito em formação, autonomia, proximidade com a liderança e numa cultura de equipa forte. Também temos mecanismos de partilha de resultados, porque acreditamos que o crescimento da empresa deve beneficiar quem ajuda a construí-la.

Ao mesmo tempo, entendemos que as pessoas têm o direito de construir as suas próprias carreiras. Já tivemos colaboradores que seguiram para multinacionais, outros emigraram e alguns hoje trabalham em mercados muito mais competitivos. Curiosamente, muitos continuam próximos da empresa, como amigos, parceiros e até embaixadores da nossa marca. Isso, para mim, é um sinal de que a relação foi saudável.

Temos orgulho de sermos reconhecidos como uma empresa que forma profissionais de qualidade. E o facto de termos uma das menores taxas de rotatividade no nosso sector mostra que retenção não depende apenas de salário. Depende também de propósito, ambiente, crescimento e da forma como as pessoas são tratadas dentro da organização.

Ajudou a fundar o Timbila Toastmasters, o primeiro clube de comunicação em língua portuguesa no Sul de África. Que ligação tem essa iniciativa com a forma como pensa o desenvolvimento das pessoas dentro da 2Business?

Existe uma ligação muito forte entre as duas coisas, porque tanto na 2Business como no Toastmasters International, aquilo que mais me motiva é o desenvolvimento de pessoas.

Ajudar a fundar o Timbila Toastmasters teve um significado especial precisamente por ser o primeiro clube de comunicação em língua portuguesa no Sul de África. Mais do que criar um clube, a ideia era criar um espaço onde mais moçambicanos pudessem desenvolver liderança, comunicação, confiança e pensamento crítico na sua própria língua e dentro do seu contexto cultural.

Na 2Business, o impacto que conseguimos criar está naturalmente ligado à dimensão da empresa. Existe um limite para o número de pessoas que conseguimos contratar, formar e acompanhar directamente. No Toastmasters, a escala pode ser muito maior. Se o mercado precisar, podemos criar dezenas ou centenas de clubes e ajudar a desenvolver milhares de líderes.

Acredito sinceramente que África enfrenta uma crise de liderança. Quando olhamos para a riqueza natural do continente e comparamos com a qualidade de vida da população, percebemos que o problema não é apenas falta de recursos. É também uma questão de liderança, visão, comunicação e capacidade de execução.

Por isso vejo o Toastmasters como uma ferramenta extremamente poderosa. Muitas pessoas pensam que é apenas sobre falar em público, mas na realidade é uma escola prática de liderança. E acredito que países mudam quando conseguem desenvolver pessoas mais preparadas, mais confiantes e mais responsáveis para liderar instituições, empresas e comunidades.

IV. Visão & Futuro

A Cegid adquiriu tanto a Primavera BSS como a PHC Software, reunindo num só grupo os dois principais parceiros de gestão empresarial no mercado moçambicano. Para a 2Business, isso é uma ameaça, uma oportunidade, ou ainda é cedo para saber?

Penso que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas. Para nós, na 2Business, a questão nunca foi apenas vender uma determinada marca de software. Nós posicionamo-nos como uma empresa de soluções tecnológicas. Trabalhamos com diferentes parceiros e tecnologias, como Cegid, PHC Software, Primavera BSS, Sysdev, ELO e também com soluções próprias desenvolvidas internamente.

Temos projectos fora do universo PHC há muitos anos. Um exemplo é o trabalho realizado com a Bolsa de Valores de Moçambique, entre várias outras soluções desenvolvidas à medida. Normalmente, a nossa abordagem começa pelo problema do cliente e não pela tecnologia em si. Procuramos perceber qual é a solução com melhor relação custo-benefício e maior capacidade de gerar impacto real para o cliente.

Ao mesmo tempo, a integração dentro do universo Cegid também pode trazer vantagens importantes. A Cegid é uma multinacional com uma dimensão financeira e capacidade de investimento muito superior. Isso permite acelerar áreas como cloud, cibersegurança e, principalmente, inteligência artificial. Hoje, a empresa investe fortemente em IA, com equipas dedicadas exclusivamente a desenvolver novas capacidades para as plataformas. Seria muito mais difícil atingir essa escala apenas com empresas regionais isoladas.

No final, acredito que a nossa principal vantagem competitiva continua a ser outra: a qualidade do trabalho que entregamos, o talento da nossa equipa, a relação construída com os clientes ao longo de mais de 20 anos e o profundo conhecimento do contexto local. Tecnologia pode ser adquirida; confiança e conhecimento do mercado levam muito tempo a construir.

A inteligência artificial está incorporada no seu título profissional ‘AI for Business’. O que é que isso significa concretamente para os clientes da 2Business em Moçambique hoje, não como potencial, mas como realidade implementada?

Para nós, inteligência artificial não é apenas uma tendência ou uma funcionalidade de marketing. O foco sempre foi perceber como a IA pode ajudar uma organização a ser mais rápida, mais eficiente e mais inteligente, sem perder controlo, rastreabilidade e governance.

Na 2Business, começámos por aplicar IA internamente nos nossos próprios processos antes de levarmos essas abordagens aos clientes. Hoje já utilizamos agentes de IA em diferentes áreas da empresa princiapalamnete na área técnica. No ERP um dos primeiros casos foi na área comercial, onde usamos sistemas que ajudam a preparar reuniões, analisar contexto de clientes, identificar riscos e apoiar a tomada de decisão comercial de forma mais rápida.

Ao longo do ano, estamos a expandir estes casos para áreas financeiras, operacionais e de suporte. Mas o ponto principal não é usar IA como “buzzword”. O objectivo é sempre geração de valor concreto.

Também é importante perceber que a IA depende muito da qualidade dos dados. Muitas organizações ainda têm informação dispersa, processos pouco estruturados ou bases de dados inconsistentes. Nesses casos, antes de falar de automação inteligente, é preciso primeiro organizar os dados e maturar os processos. Por isso, a adopção de IA será naturalmente gradual em muitas empresas moçambicanas.

Ao mesmo tempo, a IA não deve ficar limitada ao ERP. Estamos também a ajudar clientes a pensar em como utilizar inteligência artificial em atendimento, análise documental, apoio à decisão, pesquisa interna, automação de workflows e produtividade individual das equipas. A verdadeira transformação não será apenas ter IA dentro do sistema, mas criar organizações capazes de trabalhar de forma mais inteligente no seu todo.

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