Os dois consórcios que operam na Península de Afungi, em Cabo Delgado, avançam em paralelo na preparação logística marítima dos projectos Mozambique LNG e Rovuma LNG, num sinal concreto de que a partilha de infraestruturas entre as duas gigantes passa dos planos para a prática contratual.
A TotalEnergies e a ExxonMobil estimam movimentar, em conjunto, 400 navios de gás natural liquefeito (GNL) por ano na Península de Afungi, no extremo norte de Cabo Delgado, e já iniciaram um concurso conjunto para a contratação de sete embarcações de apoio, incluindo rebocadores e navios de serviço. O dado consta de um caderno de encargos acedido esta segunda-feira pela agência Lusa.
O concurso, lançado sob a forma de manifestações de interesse (expressions of interest, EOIs), abrange simultaneamente a Área 1, onde opera o Mozambique LNG sob liderança da francesa TotalEnergies, e a Área 4, palco do Rovuma LNG liderado pela norte-americana ExxonMobil cujo arranque formal ainda aguarda a Decisão Final de Investimento (DFI), prevista para o primeiro semestre deste ano.
Uma Logística Marítima de Escala Industrial
O documento especifica que os dois concessionários procuram “serviços seguros, eficientes e fiáveis para o transporte, carregamento e descarregamento” de GNL “desde os locais de produção até aos mercados globais”. Para o efeito, o concurso prevê a contratação de cinco rebocadores com 80 toneladas de tracção estática, um barco-piloto e dois navios de trabalho sete embarcações no total.
As projecções de tráfego discriminadas no caderno de encargos ilustram a magnitude do que está em preparação na costa norte de Moçambique: a Área 1, que deverá começar a exportar GNL em 2029 com uma capacidade de 13 milhões de toneladas por ano, prevê a passagem anual de 160 navios-tanque de GNL e dez navios de condensados; a Área 4, cujo design foi redesenhado em 2023 para 12 trens modulares de 1,5 mtpa, elevando a capacidade total para 18 mtpa a maior projectada em África, aponta para 220 navios-tanque de GNL e 15 navios de condensados por ano.
No total, as duas instalações deverão gerar, em regime de plena produção, a passagem de 395 navios por ano pelas águas da Baía de Afungi uma cifra que transforma esta zona remota do norte moçambicano num dos corredores marítimos de energia mais movimentados do continente africano.
Um Concurso Conjunto que Confirma a Partilha de Infra-estruturas
A natureza conjunta deste concurso inédita entre dois consórcios tecnicamente concorrentes é em si mesma um dado de relevo. A partilha de infraestruturas onshore entre as duas instalações em Afungi, incluindo cais, instalações de armazenamento e utilidades comuns, estava prevista desde o início do projecto ExxonMobil, mas a simultaneidade dos processos de force majeure entre 2021 e 2025 adiou a sua concretização prática. Este concurso conjunto é o primeiro sinal tangível de que a coordenação operacional entre as duas gigantes está a materializar-se em tempo real.
A TotalEnergies e o Presidente Daniel Chapo anunciaram conjuntamente, a 29 de Janeiro, em Afungi, o reinício pleno das actividades do Mozambique LNG, com mais de 4.000 trabalhadores mobilizados, dos quais mais de 3.000 são cidadãos moçambicanos. “Verão uma aceleração massiva da actividade nos próximos meses (…) um primeiro navio offshore já foi mobilizado para começar a instalar as infraestruturas marítimas”, declarou Patrick Pouyanné, presidente executivo da TotalEnergies, na cerimónia de Afungi.
Chapo Projecta Início da Construção do Rovuma LNG em 12 a 18 Meses
Na mesma ocasião, o Chefe de Estado moçambicano proferiu palavras que o sector aguardava há anos. “Dentro dos próximos 12 a 18 meses, regressaremos a este local para testemunhar o início da construção do Rovuma LNG”, afirmou Daniel Chapo, em Afungi, confirmando o compromisso do Governo em garantir as condições de segurança e de enquadramento contratual necessárias para a DFI da ExxonMobil.
A declaração é consistente com o que o Presidente tinha já adiantado em Novembro passado, na abertura da Conferência Anual do Sector Privado (CASP) em Maputo. “Nas nossas conversações com a ExxonMobil em Houston, ficou claro que, com o relançamento do projecto da TotalEnergies — que envolve infraestruturas partilhadas, a ExxonMobil está também pronta a avançar. Esperamos, portanto, que até meados do próximo ano, o mais tardar em Julho, seja tomada a decisão de investimento”, disse Chapo, sublinhando a interdependência estrutural entre os dois projectos de Afungi.
A ExxonMobil anunciou a 20 de Novembro de 2025 que levantou a declaração de force majeure sobre o projecto Rovuma LNG, confirmando a associação com o projecto vizinho da TotalEnergies e a planificação conjunta da infraestrutura em Afungi, no distrito de Palma.
Bacia do Rovuma: Três Projectos, Uma Estratégia de Exportação
O concurso conjunto insere-se num contexto mais vasto de consolidação da Bacia do Rovuma como hub de exportação de GNL do Oceano Índico. O único projecto actualmente em operação na bacia é gerido pela Eni através da plataforma flutuante Coral Sul, que produz cerca de 7 mtpa desde 2022. A empresa italiana aprovou recentemente a Coral Norte, uma segunda plataforma semelhante que deverá duplicar a capacidade a partir de 2028, num investimento de 7,2 mil milhões de dólares.
A TotalEnergies detém uma participação de 26,5% no consórcio Mozambique LNG, seguida da japonesa Mitsui com 20%, da ENH com 15%, e das indianas Bharat Petroleum, Oil India e ONGC Videsh com 10% cada. A tailandesa PTTEP detém os restantes 8,5%.
Quando os três projectos Mozambique LNG, Rovuma LNG e Coral Norte estiverem em plena produção, Moçambique terá uma capacidade instalada de exportação de GNL superior a 38 milhões de toneladas por ano, posicionando-se entre os maiores exportadores mundiais de gás natural. Segundo a Deloitte, o país poderá gerar mais de 100 mil milhões de dólares em receitas totais ao longo dos ciclos de produção dos três megaprojectos.
O concurso conjunto de serviços marítimos, cujo prazo de submissão de manifestações de interesse não foi divulgado, é o mais recente indicador de que a península de Afungi está, de facto, a transformar-se na plataforma logística de exportação energética mais significativa da África Oriental.
Fonte principal: Lusa. Informação complementar: TotalEnergies, Reuters, CNBC Africa, SPE Journal of Petroleum Technology, 360Mozambique.



