Nuno Saraiva Pinto, Country Managing Partner da Deloitte Moçambique, fala sobre o papel da auditoria independente na atracção de capital, os riscos e oportunidades da transformação digital e o estado da maturidade cibernética das organizações moçambicanas.
Numa economia em transição, onde a exigência de transparência cresce mais depressa do que a capacidade de muitas organizações para a satisfazer, a Deloitte Moçambique posiciona-se como um parceiro de referência na modernização do tecido empresarial e institucional do país.
Uma presença global com raízes locais
A Deloitte opera em Moçambique como uma plataforma integrada de serviços profissionais auditoria e certificação, fiscalidade, estratégia, risco e transacções, e transformação tecnológica. Mais do que a amplitude da oferta, Saraiva Pinto destaca a capacidade da firma de desenvolver soluções completas e complexas, adaptadas ao contexto e às necessidades específicas das organizações moçambicanas.
Mas o que o gestor identifica como o contributo mais duradouro da Deloitte ao país não é nenhum mandato de auditoria nem nenhum projecto de consultoria. É o investimento no talento local. “Temos apostado de forma consistente na formação e capacitação de profissionais moçambicanos, criando oportunidades de aprendizagem contínua, exposição a metodologias internacionais e participação em projectos de elevada complexidade”, afirma. A par desta aposta, a firma mantém um programa de iniciativas de voluntariado corporativo, educação e impacto comunitário, em linha com o compromisso global da Deloitte de gerar valor não apenas económico, mas também social.
Auditoria independente: a base da confiança dos investidores
O reforço do ambiente regulatório em Moçambique com crescentes exigências em matéria de transparência, conformidade e reporte financeiro coloca uma questão inevitável: estão as organizações moçambicanas preparadas para responder? A resposta de Saraiva Pinto é calibrada. “As organizações moçambicanas têm vindo a fazer progressos relevantes”, reconhece, “mas muitas continuam a enfrentar desafios relacionados com os sistemas de controlo interno, os processos de reporte financeiro e a capacitação técnica dos seus quadros.”
É precisamente neste espaço que a auditoria independente assume um papel estruturante. Ao garantir a qualidade e a credibilidade da informação divulgada, contribui para reduzir as assimetrias de informação que afastam o capital nacional e estrangeiro e para apoiar uma tomada de decisão mais fundamentada por parte de investidores e demais stakeholders. “A transparência e a confiança na credibilidade das empresas constituem elementos fundamentais para reforçar o posicionamento do país na atracção de capital”, sublinha o responsável.
Inteligência Artificial: oportunidade e responsabilidade em simultâneo
A transformação digital não é uma tendência distante para a Deloitte Moçambique é uma realidade operacional crescente. A firma trabalha cada vez mais em projectos de modernização de estruturas de dados, implementação de soluções analíticas avançadas e digitalização de processos junto das organizações que assessora no país.
No domínio da inteligência artificial, Saraiva Pinto identifica oportunidades concretas: melhoria da gestão de risco, reforço dos mecanismos de detecção de fraude, personalização de serviços ao cliente e apoio a processos de planeamento com base em dados. “Investir em tecnologia é investir na capacidade de competir, inovar e crescer num mundo onde a transformação é constante”, afirma.
Mas o gestor é igualmente claro quanto aos riscos que não devem ser negligenciados. A adopção tecnológica levanta questões críticas de governação de dados, cibersegurança, qualidade da informação, ética no uso de algoritmos e desenvolvimento de competências locais. “O verdadeiro valor não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como as organizações combinam tecnologia, talento e governação para gerar um impacto sustentável”, conclui.
Cibersegurança: de imperativo tecnológico a prioridade estratégica
A maturidade das organizações moçambicanas em matéria de cibersegurança é, segundo Saraiva Pinto, desigual. O sector financeiro tem investido de forma mais estruturada neste domínio, mas muitas organizações ainda tratam a cibersegurança como uma questão essencialmente tecnológica e não como um elemento integrado na estratégia de gestão de risco e de continuidade de negócio.
Para inverter esta tendência, o responsável identifica um conjunto de medidas prioritárias. O ponto de partida é sempre uma avaliação de maturidade cibernética que permita identificar os principais riscos de negócio e de exposição a ameaças. A partir daí, é possível definir estratégias e o respectivo roteiro de implementação encarando a cibersegurança não como um custo, mas como um investimento. A capacitação do talento local e a sensibilização dos colaboradores surgem como dimensões igualmente essenciais, dado que o factor humano continua a ser um dos elementos mais críticos na prevenção de incidentes.
Por fim, Saraiva Pinto defende o reforço da cooperação intersectorial e da partilha de boas práticas como condição para construir um ecossistema digital robusto capaz de acomodar o crescimento das organizações e de inspirar confiança aos investidores que Moçambique precisa de atrair.



