Monday, June 8, 2026
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As PME’s entram finalmente na era do cloud

A 2iBi nasceu em 2012, numa altura em que a maioria das empresas moçambicanas ainda dependia de servidores locais e de soluções instaladas fisicamente. O que o levou a apostar em software de gestão num mercado que ainda estava a descobrir o que isso significava?

Na verdade, esta história tem duas fases. A primeira tem a ver com o que fazemos para o mercado. Quando cheguei a Moçambique e as primeiras visitas foram em 2011, em jeito de descoberta percebi que havia um único fabricante de software instalado no país, que era exactamente a Primavera, presente desde 2009 ou 2010 e à procura de parceiros. A minha actividade anterior em Portugal era precisamente como parceiro da Primavera, além de outras áreas de IT, por isso o notebook que eu trazia já estava carregado com essa experiência. Tenho uma ligação com a Primavera desde 1998, o que me faz reconhecer que estou a ficar velho, mas são quase 30 anos de relação com o produto.

A segunda fase tem a ver com a geografia. Quando cheguei, vi que em Maputo já havia alguns parceiros e alguma oferta de serviços na área de software de gestão. Quando fui à Beira, encontrei o oposto, uma oferta muito limitada, com várias empresas a operar com a Primavera mas completamente dependentes de suporte vindo de Portugal ou de Maputo. Isso, aliado à minha vontade de vir para uma África que fosse verdadeiramente África, fez-me sentir mais encaminhado para a Beira do que para Maputo. Foi por isso que tudo começou ali, e durante os primeiros anos éramos puramente consultores de software: vendíamos a Primavera, implementávamos, configurávamos e dávamos assistência. Até 2016 foi sempre Beira. Depois começámos a ir para Pemba. Só em 2018 e 2019 é que começámos a trabalhar em Maputo, e em 2020 abrimos escritório físico e eu estabeleci-me aqui com a família.

A 2iBi implementa Primavera e depois criou ReqwestApp e O2 Cash, produtos próprios. São empresas independentes ou partes de uma estratégia integrada? O que é que cada uma serve que as outras duas não conseguem?

Foram surgindo organicamente, necessidades que os clientes foram colocando, ou que nós próprios fomos identificando. Algumas eram mesmo necessidades internas. A partir de 2014 e 2015 começámos a receber pedidos de desenvolvimentos específicos, e percebemos que algumas dessas coisas eram úteis para outras organizações muito para além do cliente que as tinha pedido.

O ReqwestApp foi exactamente isso. Começou a pedido de uma organização que tinha 300 pessoas espalhadas por Moçambique e fora do país, toda a gente comprava o que lhe apetecia sem nenhum processo de aprovação, e isso estava a criar constrangimentos sérios. O nome inicial nem era ReqwestApp, chamava-se Procurement for You. Depois percebemos que não batia, criámos marca, identidade, logótipo, tudo. Hoje é uma marca autónoma, mesmo que desenvolvida pela 2iBi.

O Routiner teve outra origem: estávamos a trabalhar com muitas empresas no sector logístico e portuário e percebemos que a maioria ainda geria as operações em Excel. Desenvolvemos uma plataforma que permite implementar processos de gestão de rotinas e tarefas em cima e o Routiner Cloud Pro já está a ser utilizado em dois terminais logísticos na Beira para toda a gestão operacional, desde contentores a commodities em bulk, fertilizantes, tabaco, minérios em trânsito para o Zimbabwe, Malawi, Zâmbia.

O O2 Cash teve uma origem completamente diferente. Estávamos em plena pandemia, tudo incerto, e em discussão com pessoas da área de business coaching, a partir de uma Excel que eu próprio tinha criado, surgiu a ideia de desenvolver alguma coisa mais robusta. O nome inicial era Forecast.Cash. Fomos percebendo que tinha utilidade específica para micro e pequenos empresários que já têm noção de que é possível fazer previsão de tesouraria. Hoje o O2 Cash está a funcionar, é utilizado por várias empresas, e tanto este como o ReqwestApp já estão a ser promovidos e vendidos em Angola e em Portugal.

Neste momento são todos produtos da 2iBi. Todos podem integrar com a Primavera, mas também com qualquer outro software, tecnicamente isso está tudo disponível. Em Angola e em Portugal o nosso negócio não é a Primavera: é o ReqwestApp e o O2 Cash. No futuro, alguns destes produtos poderão vir a ser independentes.

II. O MOMENTO ACTUAL

Para além do ERP e das ferramentas de gestão, o sector tecnológico em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo como cibersegurança, cloud, fintech, software vertical por indústria. Que leitura faz do mercado no seu conjunto: onde estão as maiores lacunas e onde estão as maiores oportunidades reais?

Se começarmos pelo que é essencial, a maior lacuna é a cibersegurança e isso tem muito a ver com educação, com info-educação. Não é um problema só de Moçambique, na maior parte dos mercados, as PMEs não têm consciência dos riscos. Quando olhamos para grandes empresas ou bancos já vemos muita preocupação, já existem programas de formação interna onde os funcionários têm de consumir conteúdo antes de poderem aceder aos sistemas. Nas PMEs há muito trabalho por fazer. Práticas básicas como a criação de passwords, ou deixar um computador desbloqueado, ainda não são tratadas como questões de segurança.

Depois há questões mais estruturais: onde estão os dados, onde está o servidor. Existe ainda a crença generalizada de que ter um servidor local é mais seguro do que ter os dados na cloud. Era mais seguro se esse servidor tivesse um data center real, controlo de acesso, backups, gerador com redundância e nenhuma PME tem isso. Ao mesmo tempo, existem soluções que se chamam cloud mas que não cumprem os requisitos mínimos de segurança. É preciso saber distinguir. A maioria das pessoas que usa email da Google ou da Microsoft já está na cloud e ninguém discute o assunto.

Em termos de oportunidades, continua a haver muito trabalho a fazer nas PMEs. Ainda há muitas empresas a fazer contabilidade em outsourcing enquanto gerem tudo internamente em Excel ou em papel. A faturação feita à mão deve representar 30%, 40%, talvez 50% das PMEs moçambicanas. Isso é um sinal claro de que há muito caminho por percorrer. E começa pela formação e sensibilização da direcção das empresas. Antes do software é preciso ter organização. É preciso ter os processos organizados o software não faz milagres.

A decisão de migrar os clientes da 2iBi para cloud com V2 Cloud foi uma aposta antecipada ao mercado. Mais de metade dos clientes adoptaram rapidamente. O que mudou na conversa com os clientes depois dessa transição e o que ainda resiste?

A decisão foi durante a pandemia. Muitos clientes de repente não conseguiam trabalhar em teletrabalho porque continuavam dependentes do servidor local aquele que toda a gente achava muito seguro e que afinal não era nada seguro. O investimento necessário em hardware, mais os recursos técnicos para manter acesso remoto, não era confortável para ninguém. Passámos cerca de dois meses à procura de uma solução fácil de usar, fácil de configurar, que permitisse ter o Primavera completo com todas as funcionalidades e possibilidade de customização na cloud. Foi assim que descobrimos a V2 Cloud, que é o nosso parceiro desde 2020, e hoje mais de metade dos nossos clientes usa para ter o seu servidor.

A diferença é importante: os clientes continuam a ter um servidor que é só deles, mas em vez de estar nas suas instalações, está num data center sabemos exactamente onde, qual é o servidor, e com todos os mecanismos de segurança e recuperação de desastres que um servidor local nunca teria. Tivemos clientes com servidores locais que sofreram avarias ou ataques, e no dia seguinte conseguimos alojá-los na cloud. Até hoje nunca mais tiveram problemas. O que ainda resiste é a crença que vai cedendo com a experiência e com o tempo.

III. PESSOAS, CULTURA E LIDERANÇA

Em menos de dez anos cresceu de uma pessoa para mais de vinte. Quando a equipa deixou de caber numa sala, o que mudou concretamente na forma como toma decisões e que erro cometeu nesse processo de escalar que não repetiria?

Mudou tudo. No início era eu que fazia tudo e tinha todos os papéis. Fui técnico, envolvi-me diariamente no trabalho técnico até há poucos anos. À medida que as coisas foram crescendo, foi preciso criar condições para que as pessoas pudessem operar sem mim. Curiosamente, a maior parte da nossa equipa começou como estagiário os team leaders e os outros são, na sua origem, ex-estagiários da 2iBi. São os que mais vivem e mais sentem a cultura da empresa.

Temos uma cultura forte e exigente, por isso não é fácil recrutar para dentro da 2iBi, mas quando as pessoas ficam, ficam. O que eu aprendi foi a diferença entre delegar e controlar, e entre delegar e abdicar. Delegar é confiar e depois pedir resultados, sem ter de esperar que mo tragam. Quem tem de prestar contas presta-as sem esperar que me lembre de perguntar. 

Funcionamos muito com base em resultados entregues: toda a gente é avaliada com base nos seus objectivos, independentemente da função seja um engenheiro de software, seja um consultor, seja um contabilista. Está tudo escrito, tudo sistematizado. Não há livre arbítrio de hoje é isto e amanhã é aquilo. É tudo muito claro, para que haja igualdade para todos e isso é uma preocupação que tenho todos os dias.

Gerir três empresas em simultâneo implica dividir atenção e autoridade delegada. Como decide onde estar pessoalmente e como garante que cada equipa não se sente como a de segunda prioridade?

O ReqwestApp e o O2 Cash são desenvolvidos pela mesma equipa de programadores neste momento são três programadores que desenvolvem os dois produtos, embora um esteja mais associado ao O2 Cash e ao Routiner e os outros dois mais dedicados ao ReqwestApp. Fazem todos parte da mesma equipa, partilham o mesmo espaço, estão em contacto permanente. Depois temos mais dois programadores que desenvolvem integrações com a Primavera. Por enquanto são projectos dentro da 2iBi, se bem que nós já separamos claramente o que é negócio de Primavera que é a consultoria ERP e o que são os nossos produtos próprios.

IV. VISÃO E FUTURO

A O2 Cash está disponível em cinco línguas e serve clientes fora de Moçambique. É um produto que quer escalar globalmente, ou é essencialmente uma ferramenta complementar para o ecossistema de clientes da 2iBi?

Quatro línguas, português de Portugal, português do Brasil, inglês, e o espanhol está em falta. O francês também ainda não está, portanto são mesmo quatro. E a ambição é escalar globalmente, ainda não sei bem como, porque ainda não consegui sentir isso na prática, mas sei que temos produto para isso. O O2 Cash é um produto de baixo custo, pensado para ser massificado, e existe mercado. A concorrência é maioritariamente anglo-saxónica, não há nada que fale português do Brasil, não há nada que fale espanhol, não há nada que fale francês. E essas línguas cobrem uma parte muito significativa do mundo.

A estratégia é fazer o ensaio em Portugal e a partir daí tentar Espanha e França. Depois Reino Unido, que a partir de Portugal também fica acessível e África do Sul, que para nós é um mercado relativamente próximo. O Brasil é um mercado que quero tentar, mas aí terá de ser necessariamente com parceiros locais. Não se vai para o Brasil sem quem conheça o terreno.

Se tivesse de identificar a única coisa que trava mais a adopção de software de gestão pelas PME moçambicanas, não a crise política ou a conjuntura económica, mas algo estrutural e que pode ser resolvido, o que diria?

A adoção de software tem duas vertentes. A primeira é a adopção por vontade própria, quando a empresa decide organizar a casa, criar processos e sistemas. É a melhor maneira. E já começam a aparecer empresas de reengenharia de processos aqui em Maputo, o que é um sinal de que a procura existe e a oferta começa a acompanhar.

A segunda é a adopção por obrigação, quando for obrigatório emitir facturas por software, quando a regulação obrigar à transição. Aí as empresas terão mesmo de mudar, como aconteceu em Angola. O que trava estruturalmente é a organização interna. Antes de ter software, é preciso ter os processos organizados. O software não vai fazer milagres. Vê-se empresas que querem implementar uma solução, mas os processos ainda não existem ou não estão claros. Esse é o alerta que dou sempre.

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