Quinta-feira, Abril 3, 2025
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“A sustentabilidade dos negócios de tecnologia só é possível com uma estratégia eficiente.”

Moçambique tem avançado significativamente no sector tecnológico, com investimentos que impulsionam a digitalização e promovem a inovação em diversas áreas. A crescente adopção de plataformas digitais, soluções de cibersegurança e o desenvolvimento de startups apontam para um cenário promissor, apesar dos desafios estruturais ainda existentes. Diante desse contexto, conversamos com Igor Sambo, Deployment Lead na Heineken Moçambique, para conhecer a sua perspectiva sobre o papel da tecnologia no futuro do país e como ela pode contribuir para um crescimento sustentável.

1.Como investimentos em tecnologia podem melhorar a situação socio-económica de Moçambique?

Os investimentos em tecnologia podem melhorar a situação socio-económica de Moçambique por meio da adopção de uma estratégia eficaz no sector tecnológico. Essa estratégia precisa ser capaz de impulsionar o desenvolvimento. Uma das formas de garantir o sucesso desse investimento é a implementação de um plano, que funciona como um mecanismo de orientação para os investimentos e define claramente como cada sector será conduzido nos próximos anos.  É importante que exista um alinhamento entre os diferentes actores do sector – governo, empreendedores, desenvolvedores e investidores para que todos compartilhem uma visão comum e entendam o que é prioridade. Muitas vezes, vemos o surgimento de projectos, como startups, que, infelizmente, desaparecem do mercado em um curto período, geralmente entre 2 a 4 anos. Esse fenómeno ocorre devido à falta de clareza e planeamento estratégico, o que resulta em desafios tanto para os empreendedores quanto para os investidores.

  1. Tal como fez menção a startups que após dois a três anos, acabam desaparecendo do mercado. Como podemos trabalhar para fazer face a este desafio?

De forma resumida, eu não saberia apontar a raiz exacta do problema, mas acredito que uma das causas principais seja a falta de clareza no estudo de mercado. É fundamental que as startups invistam mais em pesquisas de mercado, semelhantes às desenvolvidas por perfis especializados, para entender melhor a viabilidade e sustentabilidade de seus negócios.

Num outro prisma, é importante colectar dados sobre a sensibilidade dos consumidores e os desafios específicos do sector de tecnologia, ou mais especificamente, das startups no contexto local. Com uma análise mais profunda e estratégica do mercado, as startups terão melhores condições de se manterem-se competitivas e sustentáveis no longo prazo. 

  1. De que forma a transformação digital em Moçambique tem impactado a criação de empregos e a melhoria da renda familiar nas comunidades locais, especialmente em áreas rurais?

Ao longo dos últimos 10 anos, podemos observar o surgimento de diversos aplicativos que têm impulsionado a transformação digital em Moçambique, com um impacto directo na criação de empregos e na melhoria da renda familiar. Um exemplo notável é o Carta Fácil, um aplicativo pago que permite o acesso a diversos testes teóricos de condução, ajudando as pessoas a se prepararem para o exame de habilitação. Esse tipo de plataforma não só beneficia os usuários, mas também gera uma fonte de renda para os desenvolvedores.

Outro exemplo importante é o Yango, um aplicativo de mobilidade que facilita a locomoção. Com o Yango, as pessoas podem se cadastrar como motoristas e gerar uma renda extra ao transportar passageiros. Esse tipo de plataforma tem um impacto directo na geração de empregos.

Ademais, a transformação digital tem incentivado o desenvolvimento de carteiras móveis, que são uma inovação importante para a circulação de dinheiro de forma digital, rompendo com os moldes tradicionais. Esses sistemas de pagamento digital não apenas facilitam transacções, mas também criam empregos para os operadores e agentes dessas carteiras móveis, que actuam em diversos pontos.

4.Como as iniciativas locais como a MozDevz, têm promovido a digitalização de micro, pequenas e médias empresas em Moçambique, e quais os resultados concretos observados até agora?

Nos últimos três anos, a MozDevz tem se focado mais no desenvolvimento de capacidades do que directamente no desenvolvimento de negócios. No entanto, mesmo com essa abordagem, conseguimos estabelecer algumas parcerias e relações com pequenas e médias empresas em Moçambique, o que tem sido um passo importante para promover a digitalização no sector empresarial.

Embora a nossa actuação não tenha sido directamente voltada para o sector de negócios, um aspecto importante a destacar é que, em termos de desenvolvimento de capacidades, fomos reconhecidos como uma das principais comunidades de desenvolvedores de software e aplicativos em Moçambique. Essa distinção tinha também a presença de vários países da África, como África do Sul, Nigéria, etc.

Embora ainda não tenhamos resultados concretos directamente relacionados à digitalização em grande escala de micro, pequenas e médias empresas, os avanços no desenvolvimento de capacidades e nas parcerias estabelecidas são passos importantes para fomentar um ambiente mais digitalizado e impulsionar a transformação do sector empresarial em Moçambique.

  1. Quais tecnologias emergentes, como a inteligência artificial e a cibersegurança, estão sendo adoptadas por empresas moçambicanas, e como essas soluções têm contribuído para a sustentabilidade dos negócios?

Nos últimos anos, temos observado uma crescente adopção de tecnologias emergentes por empresas moçambicanas, com destaque para a cibersegurança. Grandes empresas, especialmente as públicas, têm implementado soluções de segurança cibernética para proteger seus sistemas e dados. Isso se tornou ainda mais relevante após um episódio de invasão cibernética, o que gerou uma conscientização maior sobre os riscos digitais. Como resultado, muitas empresas passaram a adoptar estratégias de segurança mais robustas para prevenir ataques cibernéticos e proteger as informações sensíveis.

Além disso, a cibersegurança tem se mostrado fundamental para a sustentabilidade dos negócios, pois ajuda a evitar perdas financeiras significativas, danos à reputação e a interrupção de operações. Com o crescente número de transacções e processos digitais, a protecção contra ameaças cibernéticas é um aspecto essencial para garantir a continuidade dos negócios no cenário actual.

Embora a inteligência artificial (IA) ainda esteja em uma fase de implementação mais gradual em Moçambique, algumas empresas têm começado a explorar soluções baseadas em IA para optimizar processos e melhorar a eficiência operacional.

  1. Qual é a sua visão sobre o futuro da tecnologia em Moçambique nos próximos anos?

Vejo o futuro da tecnologia em Moçambique como muito promissor e bem mais avançado nos próximos anos. Com o desenvolvimento acelerado que temos testemunhado nos últimos tempos, a tendência é que o país continue a fazer progressos em termos de digitalização e inovação tecnológica.

Nos próximos anos, acredito que a infra-estrutura tecnológica de Moçambique vai melhorar consideravelmente, permitindo uma maior conectividade e acesso à internet, especialmente em áreas rurais, o que abrirá portas para diversas oportunidades, como a digitalização de serviços públicos, a criação de novas soluções financeiras digitais e a introdução de tecnologias.

 

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