Administrador do banco defende banca sensível ao género como imperativo estratégico e não como iniciativa de marketing; dados internos revelam paradoxo entre elevada utilização feminina dos serviços e acesso limitado ao financiamento.
O Administrador do Standard Bank Moçambique, Bernardo Aparício, deixou um alerta claro durante a Conferência das Mulheres nas Finanças 2026, apenas 22% do crédito concedido pelo banco tem como destinatárias mulheres um número que classificou como “o dado mais importante e, por isso, o mais preocupante” no panorama da inclusão financeira feminina em Moçambique.
A intervenção de Aparício decorreu no âmbito da conferência organizada pela Financial Sector Deepening Moçambique (FSDMoç), em parceria com o Banco Mundial e a New Faces New Voices, sob o lema “Give Data, Gain Inclusion / Forneça Dados, Conquiste Inclusão”. O evento reuniu actores do ecossistema financeiro moçambicano para uma reflexão estratégica sobre o papel das tecnologias digitais e da liderança no avanço da inclusão financeira e do empoderamento económico das mulheres.
Os dados partilhados pelo responsável do Standard Bank revelam uma contradição estrutural no sistema financeiro moçambicano. Se as mulheres representam 32% da base total de clientes do banco um número que o próprio admitiu que “tem de ser lido com franqueza”, a realidade muda substancialmente quando se analisa o perfil dos clientes activos: neste segmento, as mulheres representam 48%, próximo da paridade com os homens.
“Uma vez integradas no sistema financeiro, as mulheres utilizam-no de forma mais consistente, intensa e relevante. O problema não está no uso. Está na porta de entrada”, afirmou Aparício, sublinhando que a distância entre os 48% de utilização activa e os 22% de acesso ao crédito constitui “um indicador claro de discriminação de género no sistema financeiro.”
O responsável acrescentou que 32% das clientes do banco já utilizam canais digitais de forma autónoma um dado que considerou animador, tendo em conta as limitações de acesso à internet que ainda caracterizam o contexto moçambicano.
A oportunidade digital como correctivo
Bernardo Aparício defendeu que as tecnologias digitais oferecem, pela primeira vez na história da banca africana, ferramentas concretas para corrigir este desequilíbrio estrutural. As plataformas digitais e as carteiras móveis criaram um rasto de dados de transacções de pessoas que, há quinze anos, eram completamente invisíveis ao sistema financeiro.
“Quando uma mulher empresária não tem um histórico bancário tradicional, podemos olhar para os seus padrões de carteira móvel, para o seu histórico de pagamentos de electricidade, para a consistência nos seus grupos de poupança e para os seus ciclos de compras junto de fornecedores”, explicou o administrador. Na sua perspectiva, a inteligência de dados bem desenhada permite identificar pequenas empresárias com excelente capacidade de pagamento que um analista tradicional rejeitaria sem hesitação.
Contudo, Aparício lançou também um aviso, se os modelos de crédito forem construídos com base em dados históricos que reflectem décadas de exclusão feminina, o resultado será uma discriminação invisível e sistemática. “Esta é, talvez, a mais perigosa forma de discriminação nos serviços financeiros”, alertou.
O administrador do Standard Bank foi directo na desconstrução do conceito de banca sensível ao género. “Não é um cartão com um design diferenciado. Nem uma campanha de marketing do mês ou do dia internacional. Não é isso que vai mover a agulha para uma maior inclusão de género”, afirmou, em declarações que geraram eco na sala.
Para Aparício, uma banca verdadeiramente sensível ao género actua em duas frentes simultâneas: internamente, através do reforço da representatividade feminina nas equipas o Standard Bank registava, à data, 42% de mulheres em cargos de liderança, com ambição declarada de atingir entre 45% e 55%, e externamente, através de iniciativas estruturadas de acesso ao financiamento e de capacitação empresarial.
Neste plano externo, o responsável destacou a adesão do banco ao Women Entrepreneurs Finance Code e o envolvimento, nos últimos anos, de mais de 300 mulheres empreendedoras em sessões de capacitação, sustentabilidade e competitividade, em parceria com organizações como a Lions South Africa e a Influencia Z.
Um delta que é uma oportunidade
Encerrando a sua intervenção, Bernardo Aparício deixou uma reflexão que sintetizou o espírito da conferência, “Entre os 48% de clientes activas mulheres e os 22% de acesso ao crédito, há um delta que representa simultaneamente a medida da nossa responsabilidade e a medida da nossa oportunidade.” O responsável apelou ao sector financeiro moçambicano para agir com urgência, método e coragem institucional. “O que nos falta verdadeiramente não é o meio. É a intenção, o método e, às vezes, a coragem institucional. Um sistema financeiro que não mede as mulheres não as serve. E o que não serve, mais cedo ou mais tarde, perde-se”, concluiu.



