Monday, June 8, 2026
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Construir plataformas para democratizar o acesso e ampliar oportunidades

A UX começou com o emprego.co.mz, a maior plataforma de emprego online em Moçambique, mas hoje tem um portfólio diverso. O que une todos estes produtos? Há um fio condutor?

Acredito que sim. Embora as plataformas actuem em sectores diferentes, todas nasceram para resolver problemas de acesso.

Quando lançamos o emprego.co.mz, em 2012, o problema era o acesso à informação sobre oportunidades de emprego e a dificuldade das empresas em encontrar colaboradores de forma eficiente e transparente. Mais tarde percebemos que existiam desafios semelhantes noutras áreas: trabalhadores informais sem acesso a clientes, pequenos negócios sem acesso a serviços de desenvolvimento empresarial, comunidades sem acesso a informação relevante para a sua resiliência económica e ambiental.

O fio condutor sempre foi a criação de plataformas que reduzem barreiras e aproximam pessoas, oportunidades e serviços.

O emprego.co.mz liga recrutadores e candidatos. O biscate*777# liga trabalhadores informais e clientes. O mopa.co.mz liga cidadãos aos serviços públicos. O PRO vai ligar pequenas empresas a serviços de apoio, financiamento e oportunidades de crescimento.

Em todos os casos, a tecnologia é apenas o meio. O objectivo é criar mecanismos mais inclusivos para que mais moçambicanos possam participar na economia em condições mais justas.

O mopa.co.mz foi reconhecido pelo Financial Times e pela IFC com uma High Commendation nos Transformational Business Awards. Isso é raro para uma startup moçambicana. O que mudou na empresa depois desse reconhecimento?

O reconhecimento é importante porque valida algo que defendemos há muitos anos: soluções desenvolvidas localmente podem responder a desafios complexos de forma inovadora e gerar impacto real.

O mopa.co.mz também foi responsável pela subida de Moçambique no ranking mundial de Governo Electrónico (eGov) porque foi adoptado pelos Municípios de Maputo, Beira e Nampula, e é um caso de estudo da UNESCO pelo uso de metodologias e tecnologias inclusivas.

O biscate*777# também foi reconhecido como o Greatest Social Impact SME no mundo pela ITU (International Telecommunication Union) em 2019, e já ganhou vários prémios e apoios pelo impacto que tem tido na vida dos trabalhadores informais, que são o motor da nossa economia.

Este reconhecimento internacional trouxe maior visibilidade e abriu portas para novas parcerias, mas na prática não mudou muito a nossa situação.  O desafio principal é conseguir ser reconhecido a nível nacional e poder trabalhar com instituições do governo e parceiros de desenvolvimento na escala destas soluções. É bom ser reconhecido lá fora, mas é aqui dentro que as coisas mudam.

Nós já demonstrámos que é possível desenvolver inovação relevante a partir de Moçambique, e criar soluções adaptadas à realidade local, em vez de simplesmente replicar modelos de outros mercados. Agora precisamos que o país valorize estas soluções e perceba o potencial que podem ter no seu desenvolvimento, podendo depois ser replicadas a outros países da região que têm dificuldades similares. Temos o potencial de ser exportadores de tecnologia, não apenas consumidores, e é este potencial que ainda precisa de ser materializado.

Para além das plataformas de emprego e de inclusão financeira, o sector tecnológico em Moçambique cobre um espectro muito mais amplo. Que leitura faz do mercado no seu conjunto? Onde estão as maiores lacunas e onde estão as maiores oportunidades reais, hoje?

O ecossistema tecnológico moçambicano evoluiu bastante nos últimos anos. Hoje vemos mais startups, mais programas de apoio e maior interesse dos investidores e parceiros de desenvolvimento, mas falta vontade de disrupção, que é o ponto forte da tecnologia.

Ainda existem lacunas muito significativas, e a principal tem a ver com a maneira como a economia está estruturada no país, onde os grandes investidores continuam a ser o Governo, os parceiros de Desenvolvimento, as Multinacionais e os Bancos Comerciais que dominam o mercado e limitam a inovação para defender a sua posição hegemonista. As startups em Moçambique não conseguem financiamento que permita crescer antes de facturar – o Google, Facebook, Amazon e todos os “grandes” não tinham modelos de negócio quando começaram, tinham apenas o objectivo de crescer a sua base de utilizadores e acesso a capital de risco para o fazer, aqui só temos uma Banca Comercial que dá empréstimos com garantias e taxas absurdas. As startups que começam por facturar logo não conseguem lucrar para reinvestir porque são logo taxadas ao extremo, incluindo nos custos que têm para pagar por serviços no estrangeiro que não existem no país, como a Inteligência Artificial.

Outras lacunas mais específicas incluem a transformação digital das pequenas e médias empresas, que utilizam tecnologia de forma limitada e continuam sem ferramentas adequadas para gestão, comercialização, acesso a financiamento e crescimento. Também a integração entre sistemas, porque a maioria das iniciativas digitais locais funcionam de forma isolada, criando fragmentação e reduzindo o potencial de escala devido à necessidade de competir num mercado digital bastante limitado.

Em termos de oportunidades, vejo um enorme potencial em plataformas digitais que atuam como infra-estruturas de mercado: soluções que liguem pessoas, empresas, serviços financeiros, formação e oportunidades económicas. Também acredito que existe uma oportunidade crescente na utilização de dados e inteligência artificial para tornar serviços mais eficientes e personalizados, desde que essas tecnologias sejam implementadas de forma responsável e adaptada ao contexto moçambicano.

Por fim, a maior oportunidade ainda está nos parceiros de desenvolvimento que criam programas que apoiam soluções digitais locais com formação, acesso, grants e subvenções, porque continua a ser a única fonte de investimento acessível para a maioria dos empreendedores.

Moçambique acaba de iniciar o licenciamento obrigatório de plataformas digitais com o Decreto 59/2023 e as alterações de 2025. Para uma empresa que gere múltiplas plataformas com perfis distintos, o que é que este regime representa na prática?

Em primeiro lugar, representa um reconhecimento formal de que as plataformas digitais passaram a ter um papel relevante na economia nacional.

Para empresas que operam de forma séria e estruturada, a existência de regras claras pode trazer benefícios importantes, como maior previsibilidade, maior confiança dos utilizadores e um ambiente concorrencial mais equilibrado.

No entanto, é importante que a implementação deste regime encontre um equilíbrio adequado.

A inovação digital evolui muito rapidamente e muitos modelos de negócio ainda estão em fase experimental. Se os requisitos regulatórios forem excessivamente complexos ou onerosos, existe o risco de criar barreiras para startups e empresas emergentes, precisamente aquelas que mais contribuem para a inovação.

Acredito que o desafio será construir um modelo regulatório que proteja os consumidores e promova boas práticas sem reduzir a capacidade de inovação do sector, e que seja acompanhado de um enforcement que apoie a adopção do licenciamento, não apenas as multas e a penalização. É preciso considerar os incentivos fiscais e comerciais para o licenciamento, não apenas os regulatórios e punitivos.

Para empresas como a UX, isso significa mais custos para reforçar processos de conformidade, governação, segurança e protecção de dados, mas também participar activamente no diálogo sobre a evolução deste quadro regulatório.

A UX tem trabalhado com IA para gerar testes de aptidão no emprego.co.mz, e Moçambique está agora a desenvolver uma estratégia nacional de IA com o apoio da UNESCO. Que papel pode uma empresa como a UX jogar nesse ecossistema e que condições faltam ainda para que a IA crie valor real no mercado moçambicano?

Acredito que empresas como a UX podem desempenhar um papel importante como laboratórios de aplicação prática e validação da inteligência artificial.

Grande parte do debate sobre IA ainda acontece ao nível conceptual. O nosso interesse está em perceber como estas tecnologias podem resolver problemas concretos dos cidadãos, das empresas e das instituições.

No emprego.co.mz, por exemplo, temos utilizado IA para apoiar a geração de testes de aptidão, melhorar processos de correspondência entre candidatos e vagas e aumentar a eficiência dos processos de recrutamento. O objectivo não é substituir pessoas, mas ajudá-las a tomar decisões mais informadas.

Para que a IA gere valor real em Moçambique, ainda existem vários desafios a ultrapassar, sendo o custo de usar estas soluções a principal barreira. Precisamos também de melhores dados, maior literacia digital, mais capacidade técnica local e uma infra-estrutura digital mais robusta, além de desenvolver competências em áreas como ética, governação e utilização responsável da IA.

Mas talvez o mais importante seja garantir que a IA responde a problemas reais do país. O sucesso não será medido pelo número de ferramentas que utilizamos, mas pelo impacto que conseguimos gerar em áreas como emprego, educação, inclusão financeira, agricultura, saúde e desenvolvimento económico.

Moçambique tem uma oportunidade interessante: em vez de seguir exactamente o mesmo percurso de outros mercados, pode utilizar a IA para resolver desafios específicos do seu contexto e criar modelos de inovação verdadeiramente inclusivos.

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