Friday, April 24, 2026
spot_img

Conferência Mulheres nas Finanças 2026 coloca inclusão financeira no centro do debate económico

A segunda edição da Conferência Mulheres nas Finanças “Women in Finance Conference 2026” reuniu em Maputo, líderes, especialistas e decisores do ecossistema financeiro moçambicano numa plataforma de reflexão estratégica sobre a inclusão financeira das mulheres, a inovação digital e o papel dos dados como instrumentos de transformação estrutural.

O evento foi organizado pela Financial Sector Deepening Moçambique (FSDMoç), em parceria com o Banco Mundial e a New Faces New Voices, e teve como lema “Give Data, Gain Inclusion / Forneça Dados, Conquiste Inclusão”. A cerimónia de abertura foi dirigida por Ivete Alane, Ministra do Trabalho, Género e Acção Social.

Esselina Macome – Directora Executiva (CEO) FSDMoç

Para a liderança da FSDMoç, o Fórum confirmou que, apesar dos progressos registados por algumas instituições, o sistema financeiro moçambicano como um todo enfrenta ainda um fosso estrutural entre a presença das mulheres como clientes e o acesso efectivo ao crédito e ao financiamento produtivo um fosso que, como ficou claro ao longo das intervenções, não é apenas um problema de género, mas um obstáculo ao crescimento económico inclusivo e sustentável do país.

Standard Bank: Apenas 22% do crédito concedido em Moçambique vai para as mulheres

Administrador-Delegado do Standard Bank Moçambique, Bernardo Aparício

Uma das intervenções mais marcantes da conferência coube ao Administrador-Delegado do Standard Bank Moçambique, Bernardo Aparício, que apresentou dados internos da instituição que expõem uma contradição estrutural no sistema financeiro moçambicano, apenas 22% do crédito concedido pelo banco tem como destinatárias mulheres um número que o próprio classificou como “o dado mais importante e, por isso, o mais preocupante” no panorama da inclusão financeira feminina no país.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se analisa o perfil de utilização dos serviços bancários. As mulheres representam 32% da base total de clientes do Standard Bank Moçambique, mas entre os clientes activos, aqueles que efectivamente utilizam os serviços de forma regular a percentagem sobe para 48%, muito próximo da paridade com os homens. “Uma vez integradas no sistema financeiro, as mulheres utilizam-no de forma mais consistente, intensa e relevante. O problema não está no uso. Está na porta de entrada”, afirmou Aparício, sublinhando que a distância entre os 48% de utilização activa e os 22% de acesso ao crédito constitui “um indicador claro de discriminação de género no sistema financeiro.”

O responsável defendeu que as tecnologias digitais oferecem, pela primeira vez na história da banca africana, ferramentas concretas para corrigir este desequilíbrio estrutural. As plataformas digitais e as carteiras móveis criaram um rasto de dados de transacções de pessoas que, há quinze anos, eram completamente invisíveis ao sistema financeiro. “Quando uma mulher empresária não tem um histórico bancário tradicional, podemos olhar para os seus padrões de carteira móvel, para o seu histórico de pagamentos de electricidade, para a consistência nos seus grupos de poupança e para os seus ciclos de compras junto de fornecedores”, explicou.

Contudo, Aparício lançou igualmente um aviso sobre o risco do uso acrítico dos dados: se os modelos de crédito forem construídos com base em dados históricos que reflectem décadas de exclusão feminina, o resultado será uma discriminação invisível e sistemática. “Esta é, talvez, a mais perigosa forma de discriminação nos serviços financeiros”, alertou.

Na desconstrução do conceito de banca sensível ao género, o administrador foi directo e sem concessões: “Não é um cartão com um design diferenciado. Nem uma campanha de marketing do mês ou do dia internacional. Não é isso que vai mover a agulha para uma maior inclusão de género.” Para Aparício, uma banca verdadeiramente sensível ao género actua em duas frentes simultâneas internamente, com o reforço da representatividade feminina nas equipas, e externamente, com iniciativas estruturadas de acesso ao financiamento e capacitação empresarial.

O Standard Bank registava, à data da conferência, 42% de mulheres em cargos de liderança, com ambição declarada de atingir entre 45% e 55%. No plano externo, o responsável destacou a adesão do banco ao Women Entrepreneurs Finance Code e o envolvimento, nos últimos anos, de mais de 300 mulheres empreendedoras em sessões de capacitação, sustentabilidade e competitividade, em parceria com organizações como a Lions South Africa e a Influencia Z.

Encerrando a intervenção, Bernardo Aparício sintetizou o espírito da conferência, “Entre os 48% de clientes activas mulheres e os 22% de acesso ao crédito, há um delta que representa simultaneamente a medida da nossa responsabilidade e a medida da nossa oportunidade. O que nos falta verdadeiramente não é o meio. É a intenção, o método e, às vezes, a coragem institucional. Um sistema financeiro que não mede as mulheres não as serve. E o que não serve, mais cedo ou mais tarde, perde-se.”

BCI: Paridade na concessão de crédito como referência possível

O Presidente da Comissão Executiva do BCI, Francisco Costa, integrou o painel dedicado ao tema “Liderança e Governança em Instituições Financeiras: Sistemas para a Inclusão Financeira Digital”, onde apresentou uma perspectiva distinta sobre o estado da inclusão financeira feminina em Moçambique. Costa revelou que o BCI registava indicadores de paridade ou de ligeira superação da concessão de crédito às mulheres em relação aos homens. “Eu consigo dizer que tenho um nível de concessão de crédito a senhoras igual ou ligeiramente superior ao dos homens”, afirmou.

O responsável alertou, contudo, para os desafios ainda existentes, nomeadamente a informalidade do trabalho feminino, que condiciona o acesso ao financiamento e torna este tema particularmente crítico no contexto moçambicano. Na sua intervenção, Costa abordou o papel da liderança estratégica, dos modelos de governação e dos sistemas internos das instituições financeiras na promoção de soluções digitais inclusivas, na integração de dados para uma tomada de decisão mais informada e na incorporação de abordagens sensíveis ao género nas políticas e práticas institucionais.

Para o Presidente da Comissão Executiva do BCI, a promoção da inclusão financeira das mulheres exige um esforço colectivo, institucional e culturalmente transversal. “Tem de ser um trabalho conjunto. Este é um trabalho de todos. De todas as instituições envolvidas, de quem tem impacto na cultura, na alteração de procedimentos, na alteração do comportamento das pessoas. Todos somos poucos para conseguirmos. Mas já fizemos muita coisa”, sublinhou.

A Women in Finance Conference 2026 consolidou-se como o principal fórum nacional de debate sobre inclusão financeira das mulheres, reunindo numa mesma sala instituições bancárias, organismos internacionais de desenvolvimento e representantes do Governo.

Noticias Relacionadas

Standard Bank alerta: Apenas 22% do crédito concedido em Moçambique vai para as mulheres

Administrador do banco defende banca sensível ao género como...

First Capital Bank aumenta lucros em 21,4%

O First Capital Bank Moçambique encerrou o exercício de...

Standard Bank distinguido como Melhor Private Bank em Moçambique

O Standard Bank foi mais uma vez distinguido como...

M-Pesa: Como a plataforma que reinventou os pagamentos em África chegou a Moçambique

Em 6 de Março de 2007, a Safaricom lançou...