Sábado, Fevereiro 24, 2024
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Hélder Muteia: O dilema do investimento no terceiro mundo

A realidade, porém, é outra: os investidores pensam dez vezes antes de aplicar o seu capital nestes países, guiados pela crença generalizada de que não é rentável investir neles.

O fenómeno foi amplamente estudado e explicado pelo economista americano Robert Lucas, prémio Nobel da Economia, com base em dois argumentos: o primeiro ligado a problemas estruturais (como a escassez de tecnologias, a ausência de políticas adequadas e as fragilidades institucionais), e o segundo ligado às imperfeições do mercado (como as desarticuladas intervenções estatais, as assimetrias de informação sobre o mercado, e a proliferação de monopólios artificiais).

Em qualquer dos casos, a retração dos investimentos é resultado de estratégias de gestão de riscos perante o cocktail de problemas que amplificam as possibilidades de falhanço. Para além dos acima referidos, a lista inclui: analfabetismo, falta de infraestruturas, falta de mão-de-obra qualificada, corrupção, vulnerabilidade aos desastres naturais, conflitos sociais, conflitos armados, crime organizado, instabilidade política, epidemias, pragas, superstição etc.

Ao se imaginar mergulhado nesse ambiente tóxico para o seu capital, a maioria dos investidores decide não avançar, optando por ganhos mais modestos mas mais previsíveis. Contudo, há estudos que demonstram que a teoria clássica não está completamente equivocada.

Os poucos investimentos que ousam enfrentar a tormenta acabam por colher fabulosos dividendos.

São exemplos disso:

(1) multinacionais vinculadas à economia extrativa que, blindadas pelo seu poderio económico, não têm outra saída senão arriscar onde a matéria-prima abunda;

(2)investimentos a longo prazo, em busca de monopólios e controlo do mercado internacional;

(3)investimentos em busca de resiliência através da diversificação, como acontece com o capital chinês que aposta na expansão dos seus tentáculos; (4) pequenos investimentos, promovidos por pequenos empreendedores aventureiros, virados para áreas específicas como a construção, a transformação, a restauração, a recreação, o transporte, o turismo e o comércio.

Assim, embora as constatações de Robert Lucas (também conhecidas por “Paradoxo de Lucas”) sejam irrefutáveis, ela não deve ser considerada uma fatalidade.

As excepções acima referidas provam que é possível viabilizar investimentos, se uma abordagem realista e corajosa for adoptada.

Primeiro, é preciso partir do princípio que o mercado de investimentos tem as suas armadilhas.

Mal equacionadas, as iniciativas podem ser confundidas com políticas neocoloniais,
exploradoras das fragilidades da pobreza, particularmente da mão-de-obra barata.

Importa garantir certa espécie de seletividade dos investimentos que convêm ao país. Investimentos poluentes ou redutores da dignidade humana devem ser evitados.

Segundo, os investidores internacionais não são filantropos. São agentes económicos em busca do lucro.

Para comunicar com eles, é preciso falar a mesma linguagem, apostando em estratégias de persuasão baseadas na melhoria do ambiente de negócios.

As medidas adoptadas devem ter certa consistência e durabilidade. Medidas “ad hoc” para ludibriar investidores não surtem efeito porque estes têm capacidade de visualizar os percursos dos seus empreendimentos a longo prazo.

Terceiro, não adianta ter políticas de promoção do investimento estrageiro, sem que elas estejam acompanhadas por políticas de promoção de investimento doméstico (público e privado), no quadro de uma estratégia clara de desenvolvimento.

No final de contas, não se trata apenas de atrair novos investimentos, é preciso domestica-los e multiplicar os seus benefícios: tecnologias, modelos de gestão, técnicas de marketing, critérios de qualidade, novas habilidades e competências etc.

Não existe, porém, uma fórmula infalível. Os países emergentes, como por exemplo os
chamados “tigres asiáticos”, fizeram o seu próprio caminho, deixando lições que podem ser apreendidas sobre possíveis medidas a curto, médio e longo prazos.

De um modo geral, estes países apostaram (a curto prazo) na abertura dos mercados e a promoção de transparência, em garantias legais de proteção da propriedade, na flexibilidade fiscal e monetária, na disciplina social, na flexibilidade da legislação laboral e no fortalecimento da política monetária e sector bancário.

Alguns também apostaram na criação de agências de promoção de investimentos e
áreas de desenvolvimento especial.

A médio e longo prazos, os países emergentes apostaram de forma inequivoca na melhoria do sistema de ensino, com ênfase na formação profissionalizante, na modernização tecnológica, na construção de infraestruturas básicas (estradas, pontes, electricidade e água), e na consolidação dos regimes democráticos.

 

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