Governo aposta em soluções solares para levar electricidade a comunidades fora da rede e criar novas oportunidades de produção e rendimento nas zonas rurais.
Moçambique está a reforçar a aposta na energia solar como alternativa para acelerar o acesso à electricidade nas comunidades fora da rede nacional, procurando no continente africano novas parcerias, mecanismos de financiamento e investimento para ampliar projectos de geração descentralizada.
A estratégia está a ser discutida no Zimbabwe, durante a 8.ª Reunião do Comité Regional da Aliança Solar Internacional (ISA) para África, que reúne representantes de governos, missões diplomáticas e instituições ligadas ao sector energético.
O Fundo de Energia (FUNAE) participa no encontro com o objectivo de identificar oportunidades de cooperação e financiamento, bem como recolher experiências de outros mercados africanos que possam contribuir para acelerar a implementação de soluções solares em Moçambique.
A delegação moçambicana é composta por Edson Uamusse, Administrador do Pelouro de Suporte do FUNAE, e Damião Namuera, representante do Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREME) e membro da Aliança Solar Internacional.
Energia solar como alternativa à expansão da rede
A aposta ganha relevância num contexto em que Moçambique procura ampliar rapidamente o acesso à electricidade, sobretudo em comunidades rurais onde a extensão da rede convencional pode representar maiores custos e exigir períodos mais longos de implementação.
Para estas zonas, os sistemas solares descentralizados podem permitir a disponibilização de electricidade sem depender exclusivamente da construção de novas linhas de transmissão e distribuição.
O desafio, contudo, passa por transformar o potencial solar em projectos economicamente viáveis, financiáveis e sustentáveis, capazes de gerar benefícios para as comunidades e, simultaneamente, criar condições para uma maior participação do sector privado.
A discussão regional ocorre num momento em que os países africanos procuram acelerar a transição energética e aumentar significativamente a capacidade de geração solar do continente. Entre as metas em debate está o aumento da capacidade solar para 200 gigawatts até 2030 e 1.000 gigawatts até 2050.
Agricultura entra na agenda
Um dos eixos centrais das discussões é a solarização da agricultura, através da utilização de energia solar para alimentar sistemas de irrigação, equipamentos de processamento e outras infra-estruturas produtivas.
A abordagem procura ir além da electrificação para consumo doméstico, utilizando a energia como factor de produção e geração de rendimento.
Em comunidades rurais, a disponibilidade de electricidade pode permitir aumentar a capacidade de irrigação, conservar e processar produtos agrícolas, reduzir perdas pós-colheita e criar condições para o desenvolvimento de pequenas actividades industriais e comerciais.
A ligação entre energia e agricultura poderá, desta forma, contribuir para aumentar a produtividade e reforçar a segurança alimentar, ao mesmo tempo que cria novas oportunidades económicas para as populações fora da rede.
Solar Rooftop abre espaço para investimento privado
Outro tema em análise é a expansão das soluções Solar Rooftop, baseadas na instalação de sistemas fotovoltaicos em telhados de edifícios residenciais, comerciais e institucionais.
Além de contribuir para diversificar a matriz de geração, este modelo poderá criar oportunidades para o desenvolvimento de novos negócios no sector energético, incluindo instalação, manutenção, financiamento e operação de sistemas solares.
Para Moçambique, a expansão deste segmento poderá abrir espaço para uma maior participação de empresas privadas, instituições públicas e comunidades, criando modelos descentralizados de produção e consumo de energia.
A adopção destas soluções poderá também apoiar actividades económicas em zonas onde o acesso à rede continua limitado ou onde a qualidade e disponibilidade do fornecimento constituem constrangimentos à expansão dos negócios.
Financiamento continua a ser o principal desafio
Apesar do elevado potencial solar do continente, a expansão da capacidade instalada continua condicionada pela mobilização de capital e pelos riscos associados aos investimentos em infra-estruturas energéticas.
Por essa razão, a criação de mecanismos de financiamento e a integração de diferentes programas de apoio estão entre as prioridades da reunião da ISA.
Para Moçambique, a capacidade de atrair financiamento será determinante para converter projectos de electrificação solar em activos produtivos e economicamente sustentáveis.
A cooperação regional poderá igualmente facilitar o acesso a conhecimento técnico, tecnologias e modelos de financiamento já testados noutros mercados africanos.
A ISA pretende ainda reforçar as capacidades técnicas e institucionais dos países membros através de programas de formação, incluindo iniciativas de e-learning, com vista a aumentar a capacidade nacional de preparação e execução de projectos solares.
Da electrificação ao desenvolvimento económico
A participação de Moçambique na reunião regional da ISA enquadra-se nos esforços nacionais para ampliar o acesso à energia e acelerar a electrificação das comunidades fora da rede.
Mais do que levar electricidade às habitações, a aposta na energia solar procura criar uma infra-estrutura económica básica para actividades produtivas, permitindo o funcionamento de sistemas de irrigação, pequenos negócios, equipamentos de processamento, serviços sociais e outras actividades geradoras de rendimento.
O desafio para Moçambique será, agora, transformar a cooperação internacional e as metas continentais em projectos concretos, financiáveis e com capacidade de gerar impacto económico mensurável nas comunidades rurais.
A reunião no Zimbabwe representa, neste contexto, uma oportunidade para o país aproximar-se de parceiros financeiros e tecnológicos e acelerar a utilização de uma das fontes de energia com maior disponibilidade no continente africano.
Fonte: AIM



