Sunday, April 5, 2026
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ExxonMobil Rejeita ingerência da ENH nos contratos de obras preliminares do Rovuma LNG

A petrolífera norte-americana recusa qualquer papel operativo da empresa pública moçambicana na adjudicação dos work contractors dos 12 trens de liquefacção. Assinatura do contrato prevista para Março.

A ExxonMobil, operadora do projecto Rovuma LNG na península de Afungi, no extremo norte da província de Cabo Delgado, opõe-se formalmente a qualquer tentativa da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) de influenciar ou intervir no processo de adjudicação dos contratos de obras preliminares (early works) para os 12 trens de liquefacção do projecto, avança a publicação especializada Africa Intelligence na sua edição desta segunda-feira.

Segundo a mesma fonte, a assinatura do acordo entre a ExxonMobil e o consorcio vencedor do concurso relativo aos trabalhos preparatórios das infra-estruturas de liquefacção com capacidade projectada de 18 milhões de toneladas por ano (mtpa) esta prevista para o mês de Marco de 2026, numa fase que antecede a Decisão Final de Investimento (DFI), esperada para a primeira metade do mesmo ano.

Tensão silenciosa no seio do consórcio

A fricção entre a ExxonMobil e a ENH, que detém uma participação de 10 por cento no Bloco 4 da Bacia do Rovuma, ao lado da Mozambique Rovuma Venture consórcio composto pela própria ExxonMobil (40%), pela italiana Eni (40%) e pela chinesa CNPC (20%) reflecte uma tensão latente no que respeita ao papel operativo e comercial que o Estado moçambicano, através da sua empresa publica, pretende exercer no maior projecto de gás natural do pais.

A ENH, empresa pública fundada em 1981, representa o Estado moçambicano nas operações petrolíferas e detém participações no Bloco 4, no Bloco 1 (Mozambique LNG, operado pela TotalEnergies, onde tem 15%), e no projecto Coral Sul FLNG, em produção desde 2022. A empresa concluiu recentemente, em Dezembro de 2025, a aquisição dos 70 por cento da participação da sul-coreana Kogas Moçambique na ENH-Kogas, alargando progressivamente a sua presença no sector.

O diferendo em torno dos early works do Rovuma LNG, trabalhos técnicos e de infraestrutura realizados antes da DFI formal, destinados a manter o cronograma de primeira produção em 2030, sublinha uma questão mais vasta: a fronteira entre o exercício legítimo dos direitos de parceiro minoritário por parte da ENH e o que a ExxonMobil considera ingerência indevida na esfera decisória do operador.

Um projecto de 30 mil milhões de dólares em fase decisiva

O Rovuma LNG, avaliado em cerca de 30 mil milhões de dólares (USD), encontra-se numa fase de aceleração técnica e contratual sem precedentes desde o levantamento da forca maior, declarada em Abril de 2021 na sequencia do ataque jihadista a Palma e agora suspensa em Novembro de 2025. A ExxonMobil, liderada pelo seu presidente e CEO Darren Woods, confirmou no final de 2025 a intenção de levantar a forca maior e avançar para a DFI, com o primeiro carregamento de GNL alinhado para 2030.

A empresa redesenhou o projecto em 2023, substituindo os dois grandes trens de liquefacção originalmente previstos por 12 trens modulares de 1,5 mtpa cada, elevando a capacidade total para 18 mtpa, a maior instalação de GNL em África actualmente em preparação. O contrato EPC para as instalações onshore foi adjudicado ao consorcio JGC, Fluor e TechnipFMC em Outubro de 2024.

Em paralelo, Frank Kretschmer, director-geral da unidade moçambicana da ExxonMobil, confirmou em Novembro de 2024 que a empresa pretendia iniciar trabalhos preliminares no sitio de Afungi ainda no decurso de 2025, para manter o cronograma de primeira produção em 2030. Pipeline and Gas Journal

O Papel da ENH: Parceiro ou Árbitro?

A questão de fundo que este diferendo ilumina vai além do episodio concreto dos early works. Com o arranque iminente do maior investimento privado da historia de Moçambique, a ENH que em 2025 registou um resultado liquido de 1,7 mil milhões de meticais (cerca de 26,7 milhões de USD), metade do ano anterior enfrenta o desafio estrutural de todos os parceiros minoritários em projectos LNG: como exercer influencia substantiva quando a operação e o processo de contratação estão concentrados no operador maioritário.

A ENH detém uma participação de 10 por cento no Rovuma LNG (Área 4), bem como 15 por cento no Mozambique LNG (Área 1, TotalEnergies) e participação no Coral Sul FLNG, o primeiro projecto de GNL offshore de Moçambique, em produção desde 2022.

Do ponto de vista jurídico, o contrato de concessão e exploração do Bloco 4 confere a operadora a Mozambique Rovuma Venture, sob liderança técnica e comercial da ExxonMobil para as instalações onshore, o direito exclusivo de gerir os processos de contratação e de tomar as decisões técnicas necessárias a execução do projecto, ouvidos os parceiros mas sem necessitar do seu veto individual para avançar. A ENH, como parceiro de 10 por cento, tem direitos de informação e de alinhamento, mas não de co-decisão operativa.

A Pressão do Calendário

O diferendo surge num momento em que todos os actores envolvidos no projecto ExxonMobil, os seus parceiros, o Governo de Moçambique e os financiadores internacionais são movidos pelo imperativo de não perder o alinhamento com a janela estratégica de 2026-2030. O Presidente Daniel Chapo deslocou-se aos Estados Unidos e reuniu-se com a ExxonMobil na sua sede em Spring, Texas, tendo anunciado a assinatura de dois memorandos de entendimento para avaliar projectos de gás domestico e criar um centro de formação para trabalhadores moçambicanos.

A TotalEnergies, por seu lado, levantou a sua própria forca maior em Outubro de 2025, mas condicionou o reinicio efectivo das obras de construção do Mozambique LNG projecto vizinho que partilha infraestruturas com o Rovuma LNG a um acordo com o Governo sobre o aumento de custos de 4,5 mil milhões de USD e a extensão do período de desenvolvimento e produção em 10 anos. A interdependência dos dois projectos, que partilham infraestruturas criticas na península de Afungi, torna qualquer atraso num potencial bloqueio para ambos.

O que está em jogo para Moçambique

O desfecho desta tensão entre a ExxonMobil e a ENH tem implicações que transcendem a gestão interna de um consorcio petrolífero. Para o Estado moçambicano, a capacidade da ENH de exercer uma influencia real e não apenas nominal nos processos de contratação dos grandes projectos LNG e uma questão de soberania económica e de conteúdo local. Para a ExxonMobil, a eficiência e a integridade do processo de adjudicação, sem interferências externas ao consorcio operativo, são condições de credibilidade perante os financiadores internacionais e perante os seus próprios accionistas.

O contrato de early works, cuja assinatura esta prevista para Março, será um teste a esta equação. A forma como a ExxonMobil e a ENH e por extensão o Governo de Moçambique gerirem as suas diferenças determinara em boa parte o clima relacional em que o projecto entrara na sua fase de maior intensidade: a construção de um complexo industrial de classe mundial nas margens do Oceano Indico, numa regiao que ha cinco anos foi cenário de um dos ataques terroristas mais violentos da historia recente de África.

Fontes: Africa Intelligence (23/02/2026), SPE Journal of Petroleum Technology, Reuters, FurtherAfrica, Global Energy Monitor, ENH.




Vodacom Moçambique e Bayobab Zâmbia lançam interligação Estratégica de fibra óptica entre os dois países

A Vodacom Moçambique e a Bayobab Zâmbia anunciaram hoje o lançamento estratégico de uma interligação de fibra óptica na fronteira Zâmbia–Moçambique, assinalando um marco importante na jornada de transformação digital africana. O evento contou com a presença de altos representantes governamentais e intervenientes-chave do sector de ambos os países.

A parceria melhora a conectividade transfronteiriça e estabelece uma rota de fibra óptica fundamental que liga as redes do interior aos sistemas de cabos submarinos nas costas oriental e ocidental de África. A interligação permitirá a conectividade internacional directa com o sistema de cabo submarino 2Africa, reforçará a resiliência da rede e acelerar a inclusão digital em toda a África Austral.

“Esta parceria consolida a espinha dorsal digital de Moçambique e alarga a capacidade necessária para responder à crescente procura de conectividade fiável. Ao reforçar a resiliência transfronteiriça, estamos a acelerar o acesso a serviços digitais de elevada qualidade que impulsionam o crescimento económico e apoiam a ambição do Governo de garantir a Internet para Todos até 2030”, afirmou Simon Karikari, Director-Geral da Vodacom Moçambique.

O projecto reforça a integração regional através da melhoria da conectividade transfronteiriça entre a Zâmbia e Moçambique, apoiando uma maior colaboração comercial e económica. Além disso, a iniciativa promove a inclusão digital através da expansão do acesso de banda larga às comunidades mais carenciadas e remotas.

“Esta interligação é uma mudança de paradigma para a Zâmbia e para a região. Ao criar uma ligação directa com o sistema de cabo 2Africa, estamos a posicionar a Zâmbia como um hub regional de conectividade e a permitir que as empresas e as comunidades prosperem na economia digital”, afirmou Lillian Mutwalo, Directora-Geral da Bayobab Zâmbia.

A iniciativa está em linha com as estratégias nacionais de TIC da Zâmbia e de Moçambique e permite a partilha de infra-estruturas, apoiando o co-investimento eficiente, a optimização dos recursos de rede, a minimização de duplicações desnecessárias e a redução da pegada ambiental global. O projecto reflecte igualmente a visão Ambition 2030 do MTN Group para disponibilizar soluções de referência em toda a África e reforça o compromisso da Vodacom em ligar 260 milhões de clientes em África até 2030.

TotalEnergies e ExxonMobil avançam 400 Navios de GNL por ano

Os dois consórcios que operam na Península de Afungi, em Cabo Delgado, avançam em paralelo na preparação logística marítima dos projectos Mozambique LNG e Rovuma LNG, num sinal concreto de que a partilha de infraestruturas entre as duas gigantes passa dos planos para a prática contratual.

A TotalEnergies e a ExxonMobil estimam movimentar, em conjunto, 400 navios de gás natural liquefeito (GNL) por ano na Península de Afungi, no extremo norte de Cabo Delgado, e já iniciaram um concurso conjunto para a contratação de sete embarcações de apoio, incluindo rebocadores e navios de serviço. O dado consta de um caderno de encargos acedido esta segunda-feira pela agência Lusa.

O concurso, lançado sob a forma de manifestações de interesse (expressions of interest, EOIs), abrange simultaneamente a Área 1, onde opera o Mozambique LNG sob liderança da francesa TotalEnergies, e a Área 4, palco do Rovuma LNG liderado pela norte-americana ExxonMobil cujo arranque formal ainda aguarda a Decisão Final de Investimento (DFI), prevista para o primeiro semestre deste ano.

Uma Logística Marítima de Escala Industrial

O documento especifica que os dois concessionários procuram “serviços seguros, eficientes e fiáveis para o transporte, carregamento e descarregamento” de GNL “desde os locais de produção até aos mercados globais”. Para o efeito, o concurso prevê a contratação de cinco rebocadores com 80 toneladas de tracção estática, um barco-piloto e dois navios de trabalho sete embarcações no total.

As projecções de tráfego discriminadas no caderno de encargos ilustram a magnitude do que está em preparação na costa norte de Moçambique: a Área 1, que deverá começar a exportar GNL em 2029 com uma capacidade de 13 milhões de toneladas por ano, prevê a passagem anual de 160 navios-tanque de GNL e dez navios de condensados; a Área 4, cujo design foi redesenhado em 2023 para 12 trens modulares de 1,5 mtpa, elevando a capacidade total para 18 mtpa a maior projectada em África, aponta para 220 navios-tanque de GNL e 15 navios de condensados por ano.

No total, as duas instalações deverão gerar, em regime de plena produção, a passagem de 395 navios por ano pelas águas da Baía de Afungi uma cifra que transforma esta zona remota do norte moçambicano num dos corredores marítimos de energia mais movimentados do continente africano.

Um Concurso Conjunto que Confirma a Partilha de Infra-estruturas

A natureza conjunta deste concurso inédita entre dois consórcios tecnicamente concorrentes é em si mesma um dado de relevo. A partilha de infraestruturas onshore entre as duas instalações em Afungi, incluindo cais, instalações de armazenamento e utilidades comuns, estava prevista desde o início do projecto ExxonMobil, mas a simultaneidade dos processos de force majeure entre 2021 e 2025 adiou a sua concretização prática. Este concurso conjunto é o primeiro sinal tangível de que a coordenação operacional entre as duas gigantes está a materializar-se em tempo real.

A TotalEnergies e o Presidente Daniel Chapo anunciaram conjuntamente, a 29 de Janeiro, em Afungi, o reinício pleno das actividades do Mozambique LNG, com mais de 4.000 trabalhadores mobilizados, dos quais mais de 3.000 são cidadãos moçambicanos. “Verão uma aceleração massiva da actividade nos próximos meses (…) um primeiro navio offshore já foi mobilizado para começar a instalar as infraestruturas marítimas”, declarou Patrick Pouyanné, presidente executivo da TotalEnergies, na cerimónia de Afungi.

Chapo Projecta Início da Construção do Rovuma LNG em 12 a 18 Meses

Na mesma ocasião, o Chefe de Estado moçambicano proferiu palavras que o sector aguardava há anos. “Dentro dos próximos 12 a 18 meses, regressaremos a este local para testemunhar o início da construção do Rovuma LNG”, afirmou Daniel Chapo, em Afungi, confirmando o compromisso do Governo em garantir as condições de segurança e de enquadramento contratual necessárias para a DFI da ExxonMobil.

A declaração é consistente com o que o Presidente tinha já adiantado em Novembro passado, na abertura da Conferência Anual do Sector Privado (CASP) em Maputo. “Nas nossas conversações com a ExxonMobil em Houston, ficou claro que, com o relançamento do projecto da TotalEnergies — que envolve infraestruturas partilhadas, a ExxonMobil está também pronta a avançar. Esperamos, portanto, que até meados do próximo ano, o mais tardar em Julho, seja tomada a decisão de investimento”, disse Chapo, sublinhando a interdependência estrutural entre os dois projectos de Afungi.

A ExxonMobil anunciou a 20 de Novembro de 2025 que levantou a declaração de force majeure sobre o projecto Rovuma LNG, confirmando a associação com o projecto vizinho da TotalEnergies e a planificação conjunta da infraestrutura em Afungi, no distrito de Palma.

Bacia do Rovuma: Três Projectos, Uma Estratégia de Exportação

O concurso conjunto insere-se num contexto mais vasto de consolidação da Bacia do Rovuma como hub de exportação de GNL do Oceano Índico. O único projecto actualmente em operação na bacia é gerido pela Eni através da plataforma flutuante Coral Sul, que produz cerca de 7 mtpa desde 2022. A empresa italiana aprovou recentemente a Coral Norte, uma segunda plataforma semelhante que deverá duplicar a capacidade a partir de 2028, num investimento de 7,2 mil milhões de dólares.

A TotalEnergies detém uma participação de 26,5% no consórcio Mozambique LNG, seguida da japonesa Mitsui com 20%, da ENH com 15%, e das indianas Bharat Petroleum, Oil India e ONGC Videsh com 10% cada. A tailandesa PTTEP detém os restantes 8,5%.

Quando os três projectos Mozambique LNG, Rovuma LNG e Coral Norte estiverem em plena produção, Moçambique terá uma capacidade instalada de exportação de GNL superior a 38 milhões de toneladas por ano, posicionando-se entre os maiores exportadores mundiais de gás natural. Segundo a Deloitte, o país poderá gerar mais de 100 mil milhões de dólares em receitas totais ao longo dos ciclos de produção dos três megaprojectos.

O concurso conjunto de serviços marítimos, cujo prazo de submissão de manifestações de interesse não foi divulgado, é o mais recente indicador de que a península de Afungi está, de facto, a transformar-se na plataforma logística de exportação energética mais significativa da África Oriental.

Fonte principal: Lusa. Informação complementar: TotalEnergies, Reuters, CNBC Africa, SPE Journal of Petroleum Technology, 360Mozambique.

Dois milhões de dólares para financiar micro e pequenas empresas em Cabo Delgado e Niassa

A Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN) lançou, sexta-feira, na cidade de Lichinga, uma linha de financiamento no valor de dois milhões de dólares norte-americanos destinada a apoiar micro e pequenas empresas nas províncias de Cabo Delgado e Niassa.

A iniciativa visa promover a criação e consolidação de postos de trabalho, dinamizar o crescimento empresarial e impulsionar as economias locais, numa região que continua a enfrentar desafios estruturais no domínio do desenvolvimento produtivo.

Foto: ADIN – Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte

Integrada no programa Conecta Negócios, a linha de subvenções cofinanciadas irá financiar planos de negócio economicamente viáveis, priorizando empresas com acesso limitado ao crédito e a outros serviços financeiros. O mecanismo pretende reforçar a capacidade produtiva das micro e pequenas empresas, incentivar maior formalização e estimular investimentos com impacto directo na geração de rendimento.

Falando durante a cerimónia de lançamento, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Vala, sublinhou a importância estratégica das províncias de Cabo Delgado e Niassa no contexto nacional. Segundo afirmou, embora estas representem mais de um quarto do território nacional, registam ainda baixos níveis de densidade empresarial formal, o que exige medidas concretas de estímulo ao sector privado.

Por seu turno, a Governadora da Província do Niassa, Elina Massengele, considerou que a iniciativa constitui uma oportunidade real para fortalecer o tecido económico provincial, valorizar o empreendedorismo local e criar mais oportunidades para a juventude.

Entretanto, o Presidente do Conselho de Administração da ADIN, Jacinto Loureiro, assegurou que a instituição irá garantir transparência e rigor na gestão dos fundos. Destacou que o sucesso da iniciativa dependerá da qualidade dos projectos submetidos e do seu impacto tangível na economia local.

A linha de financiamento é dirigida a micro e pequenas empresas que actuam em sectores como agronegócio, turismo sustentável, produção alimentar e pesqueira, apicultura, mecânica-auto e serviços eléctricos, carpintaria, construção civil, pequenas indústrias, transporte, oficinas de costura e outros negócios locais com potencial de crescimento e capacidade de gerar emprego.

Com esta medida, o Governo e a ADIN pretendem acelerar a inclusão económica no Norte do país, apostando no fortalecimento do sector produtivo como alavanca para o desenvolvimento sustentável e a estabilidade regional.

Foto: ADIN – Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte

Fonte: ADIN (Comunicado de Imprensa)

ROVUMA LNG: ExxonMobil aponta para a Decisão Final de Investimento ainda este ano

Depois de uma década de adiamentos, da pandemia ao terrorismo, a ExxonMobil levanta a “força maior” e aponta para a Decisão Final de Investimento ainda este ano. O projecto de 30 mil milhões de dólares pode transformar Moçambique no terceiro maior exportador de GNL de África

Era 2018 quando a ExxonMobil e os seus parceiros submeteram formalmente ao Governo moçambicano o plano de desenvolvimento do projecto Rovuma LNG. Nessa altura, o optimismo era total: a Decisão Final de Investimento (FID, na sigla inglesa) estava prevista para 2019, e os primeiros carregamentos de gás natural liquefeito deveriam cruzar o Oceano Índico rumo à Ásia em 2024. Ninguém antecipava o que viria a seguir.

Sete anos depois, atravessados por uma pandemia global, pelo ataque jihadista a Palma que destruiu a vida de uma cidade e paralisou dois megaprojectos em simultâneo, por redesenhos técnicos, adiamentos sucessivos e pressões geopolíticas que envolveram sanções americanas contra a China a ExxonMobil levantou em Novembro de 2025 a declaração de force majeure sobre o Rovuma LNG. A empresa norte-americana confirmou que continua a apontar para uma Decisão Final de Investimento em 2026, com os primeiros carregamentos de GNL previstos para 2030.

O projecto orçado em 30 mil milhões de dólares, é descrito pelos seus próprios promotores como o maior da história de África. Para Moçambique, representa muito mais do que um número: é a promessa de transformar a pobreza em prosperidade, de converter gás em hospitais, escolas e estradas, de posicionar o país no mapa energético global de uma forma que nenhuma outra geração de moçambicanos alguma vez imaginou possível.

Uma bacia que guarda o futuro

A bacia do Rovuma, que se estende ao longo da costa norte de Cabo Delgado e se prolonga para as profundezas do Oceano Índico, é uma das mais extraordinárias descobertas de hidrocarbonetos do século XXI. As reservas provadas da bacia ultrapassam os 85 biliões de pés cúbicos de gás, um volume que coloca Moçambique entre os países com maiores reservas de gás natural do continente africano e entre os dez maiores do mundo.

O projecto Rovuma LNG está localizado na Área 4, a concessão operada pela joint venture Mozambique Rovuma Venture (MRV). O consórcio é liderado pela ExxonMobil como operador onshore, ao lado da italiana Eni (25%, operadora das unidades FLNG offshore), da chinesa CNPC (20%), da sul-coreana KOGAS (10%), da Abu Dhabi National Oil Company/XRG (10%) e da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH, 10%).

A arquitectura do projecto foi profundamente redesenhada em 2021. Em vez das duas enormes linhas de liquefacção de 7,6 milhões de toneladas por ano cada, que eram a concepção original, a ExxonMobil anunciou a substituição por 12 módulos de 1,5 milhões de toneladas por ano cada, aumentando a capacidade total para 18 milhões de toneladas por ano. A mudança não é apenas técnica: é estratégica. Os módulos oferecem maior flexibilidade de construção, menor risco de execução e factor crescentemente determinante no contexto do activismo climático uma pegada de carbono significativamente reduzida graças à utilização de accionamentos eléctricos nos compressores principais.

Uma história de adiamentos e resiliência

O historial do Rovuma LNG é, em si mesmo, uma crónica da complexidade de desenvolver megaprojectos em mercados emergentes. A FID, inicialmente prevista para 2019, foi sucessivamente adiada por razões que se acumularam como camadas de uma crise:

2019-2020: Os preços das propostas dos consórcios de engenharia e construção vieram acima do orçamentado. A ExxonMobil pediu revisões de custos. A pandemia da COVID-19 paralisou o mundo e fez colapsar os mercados de hidrocarbonetos.

2021: O ataque jihadista a Palma, em Abril, forçou a TotalEnergies a declarar force majeure no projecto Mozambique LNG, a escassos quilómetros do estaleiro do Rovuma LNG. A ExxonMobil seguiu o mesmo caminho. O seu presidente executivo para a área de Upstream, Liam Mallon, deslocou-se a Maputo para informar pessoalmente o Presidente Filipe Nyusi da nova decisão.

2021-2022: A ExxonMobil iniciou uma revisão do projecto para incorporar requisitos ambientais mais exigentes do seu novo conselho de administração, incluindo a captura de emissões de carbono. O redesenho para módulos eléctricos durou mais de um ano.

2023-2024: Com a situação de segurança a estabilizar-se gradualmente, a ExxonMobil relançou o processo de FEED competitivo. Em Setembro de 2024, foram atribuídos dois contratos de FEED: um ao consórcio JGC Holdings e Technip Energies; outro ao consórcio McDermott, Saipem e China Petroleum Engineering and Construction Corporation (CPECC).

Novembro 2025: A ExxonMobil levantou oficialmente a force majeure sobre o Rovuma LNG, alinhando-se com a TotalEnergies, que tinha feito o mesmo movimento semanas antes com o Mozambique LNG.

O quadro de segurança: “gerido, não resolvido”

A decisão de retomar as operações não significa que os riscos desapareceram. A situação de segurança em Cabo Delgado é caracterizada pelos analistas como “gerida, e não resolvida”, e as pressões de financiamento, seguros e inflação de custos pesarão fortemente nas decisões dos parceiros. O que mudou é o quadro formal de protecção. Após a retirada faseada da missão SAMIM da SADC, o Governo moçambicano assinou um Acordo de Estatuto das Forças com o Ruanda, prevendo o destacamento de cerca de 4.000 soldados ruandeses entre 2024 e 2026 para garantir a protecção permanente da zona de Afungi. Este enquadramento jurídico oferece as garantias formais que os seguradores, os financiadores e os parceiros industriais precisam para mobilizar recursos.

O ecossistema GNL de Moçambique toma forma

O Rovuma LNG não existe no vazio. Insere-se num ecossistema de projectos que está, finalmente, a tomar forma. Para além das instalações onshore do Rovuma LNG, a Área 4 inclui a unidade Coral Sul FLNG, já em produção desde o quarto trimestre de 2022 com capacidade de 3,4 milhões de toneladas por ano, e o Coral Norte FLNG, para o qual a Eni e os seus parceiros tomaram a Decisão Final de Investimento em Outubro de 2025, com a primeira produção programada para o segundo trimestre de 2028. World Economics

O projecto Mozambique LNG da TotalEnergies, na Área 1 vizinho do Rovuma LNG na Península de Afungi, levantou também a sua force majeure em Outubro de 2025, apontando para os primeiros carregamentos em 2029.

Com 13,1 milhões de toneladas por ano de capacidade, o Mozambique LNG enfrenta derrapagens orçamentais superiores a 4,5 mil milhões de dólares face ao orçamento inicial de 20 mil milhões, tendo solicitado ao Governo uma extensão de 10 anos do período de desenvolvimento e produção.

A combinação dos três projectos Coral Sul, Coral Norte e Rovuma LNG, posiciona Moçambique para se tornar o terceiro maior exportador de GNL de África, atrás apenas da Nigéria e da Argélia, com um impacto transformador nas finanças públicas e na economia nacional.

O que está em jogo para Moçambique

As implicações económicas para Moçambique são da maior magnitude. No cenário optimista, uma FID em 2025-2026 e uma entrada em produção sem sobressaltos poderiam colocar o Rovuma LNG a funcionar acima de 90% da capacidade a partir de meados da década de 2030, gerando receitas fiscais para o Estado moçambicano bem acima de mil milhões de dólares por ano, um patamar que as instituições internacionais consideram viável para 2035.

A fase de construção deverá criar 5.000 empregos directos e promover o desenvolvimento de competências locais. Os efeitos multiplicadores na economia regional, logística, serviços, construção civil, fornecimento local poderão ser ainda mais significativos.

O Presidente da República, Daniel Chapo, que tomou posse em Janeiro de 2025 após as conturbadas eleições de Outubro de 2024, tem sublinhado o gás natural como eixo central da estratégia de desenvolvimento de Moçambique — e a Decisão Final de Investimento do Rovuma LNG como uma das prioridades da sua agenda internacional.

Fevereiro de 2026: o momento da verdade

Segundo as informações mais recentes disponíveis em Fevereiro de 2026, a ExxonMobil deverá estar em condições de tomar a Decisão Final de Investimento até ao final do ano, embora as obras de construção propriamente ditas não devam ter início antes do final de 2027. O processo de FEED competitivo está a decorrer dentro do prazo previsto, com os dois consórcios de engenharia a trabalhar em paralelo num processo que deverá durar pelo menos 16 meses.

O CEO da ExxonMobil, Darren Woods, afirmou em Outubro de 2025 que o projecto moçambicano estava “numa posição muito boa”, acrescentando que as condições de segurança na província de Cabo Delgado estão a melhorar gradualmente após anos de instabilidade.

A janela estratégica é, porém, estreita. A Agência Internacional de Energia registou um crescimento de 2,7% no consumo mundial de gás em 2024, impulsionado pela recuperação da procura asiática e pelo aumento das exportações de GNL para a Europa, esperando um crescimento adicional de 1,3% em 2025. Este contexto de mercado favorece a aposta de Moçambique mas a concorrência de outros fornecedores, do Qatar ao Canadá, passando pelos Estados Unidos, exige que a FID seja tomada sem mais demoras.

Para Moçambique, o Rovuma LNG é mais do que um projecto de hidrocarbonetos. É a oportunidade de uma geração. A história dirá se foi aproveitada. (Simão Djedje)

Moçambique abre o Porto de Nacala a investidores

Conselho de Ministros autoriza concessão do Projecto Integrado de Expansão e Desenvolvimento do Porto de Nacala. Com capacidade subutilizada a 35%, infraestrutura estratégica no Corredor que liga o Oceano Índico ao coração de África aguarda parceiro que desbloqueie o seu potencial

Durante décadas, o Porto de Nacala reuniu todas as condições naturais para ser um dos maiores hubs logísticos da costa oriental de África. Com um canal navegável de mais de 18 metros de profundidade sem necessidade de dragagem e uma localização privilegiada na Baía de Bengo, na Província de Nampula, é considerado o maior porto natural de águas profundas de Moçambique e uma peça estruturante do Corredor de Nacala. Navios de grande porte podem manobrar ali a qualquer hora do dia ou da noite, 365 dias por ano, sem as restrições de maré que limitam outros portos regionais.

E, no entanto, as suas capacidades nunca foram plenamente aproveitadas.

Isso poderá mudar agora. Na sua 3.ª sessão ordinária realizada a 10 de Fevereiro de 2026 em Maputo, o Conselho de Ministros autorizou o Ministério dos Transportes e Logística a lançar o Concurso Público Internacional para a Concessão do Projecto Integrado de Expansão e Desenvolvimento do Porto de Nacala o PIEDPN. A decisão foi anunciada pelo porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, imediatamente após o término da sessão, num sinal inequívoco da importância política que o Executivo atribui ao dossier.

Um porto com muito por explorar

Os números falam por si. Com uma capacidade instalada para manusear 10 milhões de toneladas por ano, o Porto de Nacala movimentou em 2024 apenas 3,5 milhões de toneladas o equivalente a 35% da sua capacidade total. A lacuna entre o que o porto pode fazer e o que efectivamente faz é, em si mesma, a oportunidade de negócio que o Governo está a apresentar ao mercado internacional.

Na prática, o Estado continuará dono da infraestrutura, mas a gestão e os investimentos ficarão a cargo de uma empresa ou consórcio privado seleccionado em concurso público. Trata-se do modelo de parceria público-privada que tem sido adoptado com crescente sucesso nos principais portos africanos e que já produziu resultados notáveis no Porto de Maputo, onde o Conselho de Ministros aprovou recentemente a extensão da concessão de exploração por mais 25 anos ao consórcio liderado pela DP World e pela sul-africana Grindrod, tendo a empresa iniciado de imediato um projecto de grande expansão para contentores e minérios.

Em Nacala, a ambição é equivalente e o potencial poderá ser ainda maior.

O que está no horizonte: zonas económicas, docas e portos secos

O PIEDPN não é um simples contrato de gestão portuária. É uma visão de transformação territorial. O projecto contempla a optimização e modernização dos terminais existentes, contentores, carga geral e granéis líquidos — e vai muito além: inclui o estabelecimento de uma Zona Económica Especial e de portos secos para atrair investimento directo estrangeiro e indústrias, bem como a instalação de uma doca seca flutuante e infraestruturas de apoio à reparação naval.

A componente industrial e logística é determinante. Os portos secos instalações alfandegárias no interior que funcionam como extensões do porto marítimo permitem descongestionar o terminal costeiro, reduzir os tempos de espera das mercadorias e democratizar o acesso ao comércio internacional para empresas e países do hinterland que não têm saída para o mar.

O Porto de Nacala tem desempenhado um papel central na transformação económica do norte de Moçambique, estimulando investimentos privados, facilitando o escoamento de recursos minerais como o carvão de Moatize e promovendo a conectividade regional através do Corredor de Nacala. Com o PIEDPN, o Governo pretende acelerar e aprofundar este papel estruturante.

O Corredor que une o Índico ao coração de África

Compreender Nacala é, inevitavelmente, compreender o Corredor que leva o seu nome. O Porto de Nacala é considerado uma peça-chave do Corredor de Nacala, que liga o país ao Malawi, à Zâmbia e a outras regiões do interior da África Austral. Trata-se de um dos corredores de desenvolvimento mais estratégicos do continente: uma artéria logística que combina ferrovia, rodovia, porto marítimo e aeroporto numa cadeia integrada de mais de 900 quilómetros, atravessando fronteiras e conectando economias.

Ao autorizar o Ministério dos Transportes e Logística a avançar com o processo de concessão, o Governo sinaliza uma aposta clara na modernização do maior porto natural de águas profundas do país, com impacto directo no reforço da capacidade operacional do Corredor de Nacala, uma das principais plataformas de ligação de Moçambique aos mercados da África Austral e do hinterland regional.

O Presidente da República, Daniel Chapo, tinha já sublinhado em anteriores ocasiões a importância estratégica do corredor, apelando ao aumento do investimento internacional para acelerar a sua plena operacionalização. A decisão do Conselho de Ministros de 10 de Fevereiro traduz em acção concreta esse apelo.

A voz do Governo: “posicionar Nacala como alternativa competitiva”

O porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, foi directo ao explicar o que o Executivo pretende com esta concessão.

“Esta concessão é sobre posicionar Nacala como uma plataforma logística competitiva em termos de custos e fiável, capaz de suportar o crescimento do comércio regional. Estamos a criar condições que vão atrair operadores globais e desbloquear capacidade que tem permanecido subutilizada durante anos”, declarou.

Impissa salientou que, mesmo com as excepcionais características naturais do porto nomeadamente o canal de 18 metros de profundidade sem necessidade de dragagem, há necessidade de melhorar ainda mais as condições para a operação sem restrições. O concurso internacional é precisamente o mecanismo para atrair o capital, a tecnologia e a experiência operacional que o Estado moçambicano, por si só, não tem capacidade de mobilizar em tempo útil.

Quem poderá concorrer

O perfil dos potenciais concorrentes está traçado pelo historial do sector. A Africa Global Logistics (AGL) que opera terminais em mais de 20 países africanos e tem presença em Moçambique e a DP World que já gere o Porto de Maputo através do consórcio MPDC são apontadas como operadoras com a escala, a experiência e o interesse estratégico para concorrer. Outros grupos, incluindo operadoras asiáticas com interesse crescente nos corredores da África Oriental, poderão igualmente apresentar propostas.

A iniciativa insere-se numa lógica de integração logística e competitividade económica, criando condições para aumentar a eficiência portuária, reduzir custos de transporte, melhorar a fluidez do comércio externo e posicionar Nacala como um hub estratégico no comércio regional e internacional. A aposta em parcerias público-privadas é vista pelo Governo como uma forma de atrair investimento para grandes infraestruturas, numa altura em que o Estado enfrenta limitações financeiras.

Beira não fica para trás

A decisão sobre Nacala não foi a única medida de impacto logístico aprovada pelo Conselho de Ministros nessa sessão. O Executivo aprovou também a criação do Gabinete de Implementação dos Projectos do Corredor de Desenvolvimento da Beira (GIPCDB), uma instituição destinada a coordenar, facilitar, apoiar, desburocratizar e acompanhar a execução de projectos estratégicos na Província de Sofala, no centro do país.

Os dois movimentos em simultâneo um no Norte, outro no Centro revelam uma estratégia deliberada de valorização dos corredores de desenvolvimento como eixos estruturantes da economia nacional, complementando os megaprojectos de gás no norte de Moçambique com infraestruturas que permitam transformar recursos naturais em desenvolvimento humano e regional.

O que vem a seguir

A abertura formal do concurso público internacional deverá ocorrer nas próximas semanas, após a publicação do decreto de autorização no Boletim da República. O processo de avaliação de propostas, negociação e assinatura do contrato de concessão poderá estender-se ao longo de 2026, com as obras de modernização e expansão a iniciarem-se a partir de 2027.

Para Nacala idade portuária com mais de 200 mil habitantes, economia dependente do porto e comunidades que aguardam há décadas a prometida transformação a abertura do concurso internacional é, finalmente, o sinal de que o potencial do seu extraordinário porto natural vai começar a ser convertido em realidade. (Simão Djedje)

Nuno Saraiva Pinto é o novo Country Managing Partner da Deloitte Moçambique

Nuno Saraiva Pinto é o novo Country Managing Partner da Deloitte Moçambique, assumindo a liderança da operação no país com a missão de consolidar a visão estratégica da organização e impulsionar o seu crescimento num contexto económico cada vez mais orientado para a inovação e transformação digital.

Com uma carreira sólida de mais de 25 anos, Nuno Pinto exercia até aqui funções de Partner nas áreas de Consultoria, Tecnologia e Fiscal. Ao longo do seu percurso, assessorou clientes dos sectores público e privado em projectos multidimensionais, incluindo estruturação de grupos económicos, organização de investimentos, reorganizações operacionais, fusões e aquisições, bem como programas de transformação digital.

Ao assumir o novo desafio, Nuno Pinto sublinha o compromisso da consultora com o país. “A Deloitte tem um forte compromisso com Moçambique, que se reflecte num investimento contínuo e de longo prazo. Temos vindo a reforçar e diversificar os serviços disponibilizados aos nossos clientes, acompanhando as necessidades de um mercado cada vez mais direccionado para a inovação e a transformação digital. Em paralelo, continuamos a apostar nas pessoas, capacitando e desenvolvendo talento local. Queremos manter-nos como um catalisador de inovação e apoiar o desenvolvimento sustentado das organizações e dos profissionais moçambicanos”, afirmou.

Desde a integração de Moçambique, em 2022, no cluster lusófono da Deloitte, que congrega cinco países e mais de 5.500 profissionais a consultora tem vindo a consolidar a sua presença no território nacional. A estratégia passa pelo reforço da oferta de serviços especializados e pela transferência de competências técnicas, beneficiando da rede global da organização.

Com acesso a soluções tecnológicas avançadas e equipas altamente qualificadas, a Deloitte Moçambique posiciona-se para apoiar as empresas nacionais na sua modernização e internacionalização, contribuindo, deste modo, para o aumento da competitividade da economia moçambicana nos mercados além-fronteiras.

Nuno Pinto é licenciado em Economia pela Universidade de Lisboa, onde concluiu igualmente uma Pós-Graduação em Gestão Fiscal. Em 2015, obteve o título de Revisor Oficial de Contas, reforçando o seu percurso técnico e profissional na área financeira e de auditoria.

TotalEnergies avança com expansão do acampamento de Afungi para 2.000 trabalhadores

A multinacional francesa TotalEnergies está a avançar com a expansão do acampamento de Afungi, com capacidade para albergar até 2.000 trabalhadores, no âmbito do megaprojecto de Gás Natural Liquefeito (GNL) em Cabo Delgado, marcando o relançamento pleno das actividades no terreno.

A iniciativa decorre de um concurso para manifestação de interesse lançado pelo consórcio CCS JV, contratado pela TotalEnergies, líder do consórcio da Área 1, no norte de Moçambique. O processo, aberto até 20 de Fevereiro, visa a contratação de serviços de engenharia e fornecimento para a ampliação do acampamento de Afungi.

De acordo com os termos da consulta, os participantes deverão apresentar propostas para o desenho, aquisição e entrega de unidades modulares de alojamento de dois pisos, destinadas a acolher cerca de 2.000 trabalhadores. O projecto inclui ainda o fornecimento de mobiliário, equipamentos, iluminação interna, internet, telecomunicações, televisão por satélite, água potável e sistemas de recolha de águas residuais.

A retoma do megaprojecto, suspenso durante quase cinco anos devido a ataques terroristas, foi recentemente assinalada pelo Presidente da República, Daniel Chapo, como um símbolo de “resiliência, coragem e determinação”.

Falando a 29 de Janeiro, após a visita à bacia de Afungi, na presença do presidente da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, o Chefe do Estado destacou a importância do projecto Mozambique LNG, considerado um dos maiores do continente africano, sublinhando a retoma integral das actividades, com início das exportações de gás previsto para 2029.

Segundo dados oficiais, o projecto deverá contribuir com cerca de 35 mil milhões de dólares norte-americanos em receitas para o Estado ao longo de 25 anos e gerar aproximadamente 17 mil postos de trabalho durante a fase de construção, dos quais mais de quatro mil já se encontram no terreno, sendo 80% ocupados por cidadãos moçambicanos.

Avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares, o empreendimento terá capacidade de produção anual de 13 milhões de toneladas de GNL, a partir da bacia do Rovuma.

Por sua vez, Patrick Pouyanné afirmou que a situação de força maior está ultrapassada, sublinhando tratar-se do maior investimento da TotalEnergies em África, embora tenha alertado para a necessidade de se continuar a priorizar a segurança no complexo, actualmente sujeito a medidas rigorosas, numa área acessível apenas por via aérea e marítima.

O consórcio Mozambique LNG retomou oficialmente, a 29 de Janeiro, as obras de construção da unidade de produção e exportação de gás natural liquefeito na baía de Afungi, interrompidas desde Abril de 2021, na sequência da invocação da cláusula de força maior pela TotalEnergies.

Refira-se que o Governo mandatou a realização de uma auditoria independente aos custos incorridos durante o período de força maior, tendo igualmente ficado estabelecido que os quatro anos e meio de paralisação não serão contabilizados no prazo da concessão.

Moçambique dispõe actualmente de três megaprojectos aprovados para a exploração das reservas de GNL da Bacia do Rovuma, consideradas entre as maiores do mundo, incluindo o projecto liderado pela TotalEnergies e outro da ExxonMobil, avaliado em 30 mil milhões de dólares, ainda a aguardar a decisão final de investimento.

Paralelamente, a petrolífera italiana Eni produz, desde 2022, cerca de sete milhões de toneladas anuais de GNL através da plataforma flutuante Coral Sul, prevendo duplicar esta capacidade a partir de 2028 com o desenvolvimento da plataforma Coral Norte, num investimento estimado em 7,2 mil milhões de dólares.

Fonte: Lusa

Criativos de Eswatini, África do Sul e Moçambique lançam o “Corredor da Incubadora de Artes”

House On Fire (Eswatini), AltBlk Continua (África do Sul) e The X-Hub (Moçambique)uniram forças para lançar o Corredor da Incubadora de Artes (AIC). Trata-se de uma rede regional concebida para acelerar o desenvolvimento criativo, a inovação e o acesso ao mercado em todo o continente.

Com os seus respectivos legados de estabelecer algumas das plataformas criativas mais impactantes e internacionalmente aclamadas de África, o Director do House On Fire, Jiggs Thorne, a artista multi-premiada e fundadora da AltBlk>>, Msaki, e o Director Fundador da X-Hub, Paulo Chibanga, estão a reunir os seus recursos, experiência e visão partilhada para um desenvolvimento sustentável e acessível da indústria criativa.

Espaço de artes performativas celebrado internacionalmente, a House On Fire é a força de produção por detrás dos festivais MTN Bushfire, e do Standard Bank Luju Food & Lifestyle Festival.

Uma inovação para Moçambique e para os países africanos de língua portuguesa, a X-Hub é uma incubadora de negócios criativos sediada em Maputo e visionária por detrás do festival de música e artes Azgo Festival.

ALTBLK>> é uma plataforma intencional, orientada para o crescimento, criada para fortalecer músicos independentes e agentes culturais. O colectivo oferece apoio abrangente nas fases de pré-produção, estratégias de lançamento e pós-produção, salvaguardando a propriedade dos artistas e defendendo padrões éticos.

O Corredor da Incubadora de Artes (AIC) baseia-se na colaboração para impulsionar inovação inclusiva e criatividade. Fundada na convicção inerente de que soluções africanas servem melhor as realidades africanas, esta rede regional liga ecossistemas criativos dinâmicos em toda a região para promover o desenvolvimento de competências, colaboração, empreendedorismo criativo e intercâmbio cultural.

Concebido para ligar artistas emergentes e estabelecidos, bem como profissionais da indústria criativa, o Corredor da Incubadora de Artes fornece um quadro estruturado para colaboração regional e fortalecimento de capacidades.

A proximidade entre os países vizinhos dos membros fundadores oferece um portal directo para coordenação sustentada e execução eficaz dos programas contínuos do Corredor da Incubadora de Artes.

Comentando sobre a importância e a abordagem única do Corredor da Incubadora de Artes, o Director da House On Fire, Jiggs Thorne, destacou-o como um excelente exemplo de um modelo anual que liga formação, incubação e oportunidades de performance em toda a região.

“O Corredor da Incubadora de Artes (AIC) trata-se de ir além de intervenções isoladas para um quadro deliberado e estruturado de colaboração. Ao formalizar a forma como trabalhamos juntos, conseguimos apoiar um programa sustentado de acção que cria ligações significativas entre ecossistemas criativos, melhora o acesso aos mercados e permite-nos partilhar boas práticas. Este é um modelo anual concebido para apoiar uma implementação mais intencional e duradoura do desenvolvimento criativo na África Austral,”

 Thorne.

Os resultados dos programas anuais incluirão formação certificada em criatividade e empreendedorismo, mentoria e incubação de negócios. As oportunidades de mobilidade artística manifestar-se-ão através de residências de intercâmbio, digressões e laboratórios de co-criação.

O acesso aos mercados para artistas será alcançado através de iniciativas conjuntas de angariação de fundos, parcerias internacionais e oportunidades de apresentação transfronteiriça em plataformas de artes credíveis.

Falando em nome da X-Hub, o Director Fundador desta incubadora de negócios criativos, Paulo Chibanga, enfatizou o valor tangível que será gerado através desta iniciativa .

“O Corredor da Incubadora de Artes reflecte o compromisso de longo prazo da X-Hub em construir ecossistemas criativos sustentáveis em Moçambique e na região. Ao ligar incubação, desenvolvimento de competências e acesso ao mercado para além das fronteiras, estamos a criar caminhos reais para que os criativos se profissionalizem, colaborem e compitam globalmente,”

Paulo Chibanga da X-Hub.

De acordo com a fundadora da ALTBLK>>, Msaki, a intenção é fortalecer o crescimento artístico da África Austral para a nossa própria sustentabilidade, ao mesmo tempo que se cria um espaço de acolhimento e apoio para criativos de todo o continente.

“Através de colaboração intencional entre Moçambique, Eswatini e África doSul, pretendemos construir um ecossistema conectado que apoie e sirva artistas de forma de desenvolvimento criativo de longo prazo em toda a região,”

“Como ALTBLK>>, oferecemos a nossa presença profunda no terreno e fluência, usando-a para abrir portas, cultivar públicos e criar caminhos que, de outra forma, poderiam permanecer inacessíveis; os artistas podem mover-se, conectar-se e ser recebidos com intenção e cuidado significativa, diversa e prática, promovendo intercâmbio, oportunidade e,”

Msaki

O Comité Directivo do AIC supervisionará a implementação de um programa anual coordenado, parcerias regionais e relatórios de projectos. A fase inicial do projecto compreenderá o avanço da presença da rede, mobilização de financiamento e estabelecimento de modelos escaláveis de incubação criativa em todo o continente. Sob a liderança inspirada e experiente dos parceiros fundadores, o AIC estenderá oportunidades de colaboração a organizações e profissionais da indústria criativa que pretendam alcançar impacto significativo na região através desta plataforma.

Boom do Gás em Moçambique: Oportunidade ou Risco?

As recentes descobertas de GNL em Moçambique representam uma oportunidade histórica para acelerar a transformação económica do país. Contudo, a experiência global demonstra que a riqueza proveniente de recursos naturais não garante automaticamente desenvolvimento amplo e sustentável. Os exemplos contrastantes de Qatar e Iraque oferecem lições valiosas.

O crescimento sustentável do Qatar tem sido sustentado por instituições fortes e estabilidade política de longo prazo, planeamento estratégico nacional, como a Qatar National Vision 2030, gestão eficaz do seu fundo soberano, diversificação deliberada da economia além dos hidrocarbonetos e investimento significativo em educação e capital humano. Já o Iraque, apesar das vastas reservas petrolíferas, enfrenta desafios persistentes devido à instabilidade política e conflitos recorrentes, instituições frágeis e limitações de governação, dependência excessiva das receitas petrolíferas, falta de diversificação económica e políticas fiscais de curto prazo focadas no consumo em vez do desenvolvimento.

O que Moçambique pode aprender com o Qatar e o Iraque sobre a gestão de recursos naturais?

À luz dos desafios e oportunidades que se colocam no actual ciclo do GNL, a abordagem “O que Moçambique pode aprender com o Qatar e o Iraque sobre a gestão de recursos naturais?” enquadra-se como uma reflexão estratégica sobre os caminhos de governação que o país deve adoptar para evitar os riscos historicamente associados à abundância de recursos.

Mais do que uma comparação abstracta, a questão remete para escolhas concretas de política pública: como transformar o gás natural em desenvolvimento sustentável através de instituições fortes e resilientes, de uma governação transparente e da criação e gestão profissional de um fundo soberano.

A experiência internacional demonstra que as receitas do GNL só se traduzem em progresso económico quando são canalizadas para a diversificação produtiva incluindo agricultura, indústria e PME’s, acompanhadas de investimento consistente em educação e no desenvolvimento de competências técnicas, bem como de políticas de crescimento inclusivo, com particular enfoque em Cabo Delgado.

Neste momento decisivo, os recursos naturais não determinam o destino de uma nação, são as escolhas de política que definem o futuro. A verdadeira questão para Moçambique não é a dimensão das suas reservas de gás, mas a qualidade da sua gestão. O desafio central permanece, conseguirá o país converter esta riqueza em desenvolvimento duradouro ou repetirá os erros observados noutras economias ricas em recursos?

Fontes e Referências