A visita de três dias do Presidente Daniel Chapo a Nairobi, a convite de William Ruto, marcou o início de uma parceria mais deliberada entre os dois países, centrada no comércio, na energia e na conectividade regional.
À primeira vista, o Quénia e Moçambique parecem parceiros improváveis, separados pela distância, pela língua e pela integração em blocos regionais distintos. Mas é precisamente essa diferença que os aproxima: cada um tem o que o outro precisa. O Quénia é a porta de entrada para a África Oriental; Moçambique ancora o sul do continente. Juntos, podem ligar dois dos maiores mercados africanos no quadro da Área Continental de Comércio Livre Africana a AfCFTA.
A visita de três dias do Presidente Daniel Chapo a Nairobi, a convite do Presidente William Ruto, confirmou essa lógica e acelerou o processo. Na sequência dos encontros bilaterais entre os dois chefes de Estado, foram assinados acordos de cooperação e memorandos de entendimento nas áreas de formação diplomática, investigação e capacitação institucional, serviços prisionais, e desenvolvimento da juventude e desporto.
Ruto sublinhou que a cooperação se estende ao turismo, às energias limpas, à aviação descrita como “facilitador vital do comércio e das relações entre povos” à economia azul e à cooperação marítima. “Estamos também a colaborar no combate ao terrorismo e na promoção da paz, segurança e estabilidade”, afirmou. “O nosso objectivo colectivo é avançar uma visão partilhada de prosperidade para as nossas nações e para o continente.”
Portos, voos e gás: os pilares concretos da parceria
A dimensão prática da aproximação é clara. O Quénia oferece os portos de Mombaça e Lamu como pontos de entrada na África Oriental; Moçambique tem Maputo, Beira e Nacala ao serviço da África Austral. Uma cooperação mais estreita neste domínio pode aumentar os fluxos de carga, reduzir os custos de transporte e expandir as rotas comerciais no continente.
Uma das medidas mais imediatas em discussão é a introdução de voos directos entre Nairobi e Maputo. Voos directos reduziriam o tempo de deslocação, facilitariam a mobilidade empresarial e reforçariam os laços entre as duas sociedades uma necessidade que diplomatas de ambos os países identificam como urgente.
As vastas reservas de gás natural de Moçambique constituem outro factor central. O Quénia procura parcerias energéticas fiáveis para suportar o crescimento industrial, enquanto os projectos moçambicanos precisam de investimento e de mercados regionais. As negociações incidiram sobre a cooperação energética, mas abrangeram igualmente oportunidades nas áreas da infraestrutura, da agricultura e do comércio em geral.
Esta aproximação retoma e aprofunda um trabalho iniciado em 2018, quando o então Presidente moçambicano Filipe Nyusi visitou o Quénia e percorreu o Porto de Mombaça visita que sinalizou um interesse inicial na cooperação logística. A Comissão Permanente Conjunta de Cooperação, na sua terceira sessão ministerial realizada antes dos encontros presidenciais, havia já identificado o aproveitamento dos recursos naturais moçambicanos, em particular o gás, como prioridade para reforçar a segurança energética do Quénia e promover parcerias de investimento.
Investimento e diplomacia económica
Chapo participou ainda na Conferência Internacional de Investimentos do Quénia, onde foram assinados 20 acordos estratégicos de investimento no valor total de 2,9 mil milhões de dólares, abrangendo sete sectores prioritários: agricultura, indústria transformadora, TIC, externalização de processos de negócio, saúde, energia e imobiliário.
O envolvimento crescente entre os dois países reflecte a orientação mais ampla da política externa de Ruto, que tem apostado na diplomacia económica e na construção de relações que gerem comércio, investimento e emprego. “Estamos a eliminar barreiras ao comércio tarifárias e não tarifárias para facilitar maior troca e investimento entre as nossas duas nações”, afirmou o Presidente queniano.
Moçambique encaixa nessa estratégia como um parceiro de elevado potencial: recursos abundantes, mercados em crescimento e uma localização estratégica no Oceano Índico que ambos os países reconhecem como activo partilhado na construção de uma economia azul regional.