Wednesday, September 2, 2026
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Banco de Desenvolvimento de Moçambique entra na fase de operacionalização

O Governo deu mais um passo para colocar em funcionamento o Banco de Desenvolvimento de Moçambique (BDM), ao aprovar o regulamento que define a estrutura, o funcionamento e as competências dos órgãos da nova instituição financeira de desenvolvimento.

A decisão foi tomada na 25.ª Sessão Ordinária do Conselho de Ministros, realizada na terça-feira, 25 de Agosto, em Chimoio, e representa uma nova etapa no processo iniciado com a aprovação da Lei n.º 17/2026, de 15 de Junho, que criou formalmente o BDM.

O regulamento estabelece a arquitectura institucional do banco, incluindo as competências da Assembleia Geral, Conselho de Administração, Conselho Fiscal e comités especializados. Com a aprovação destas regras, o Executivo procura criar as condições administrativas e institucionais necessárias para a entrada efectiva em funcionamento da instituição.

Uma instituição para financiar onde a banca comercial não chega

A criação do BDM responde a uma das limitações estruturais do sistema financeiro moçambicano: a dificuldade de acesso a financiamento de médio e longo prazo para projectos de maior dimensão e com impacto económico.

Ao contrário da banca comercial tradicional, o banco foi concebido como uma instituição financeira de desenvolvimento, orientada para apoiar investimentos considerados estratégicos para o crescimento e transformação da economia.

Entre as áreas apontadas como prioritárias estão infra-estruturas, agricultura e agro-indústria, industrialização, turismo, energia, transportes, logística, inovação tecnológica e pequenas e médias empresas.

A expectativa é que o BDM possa mobilizar recursos de diferentes fontes e funcionar como catalisador de investimentos, incluindo através da cooperação com instituições multilaterais e outros bancos de desenvolvimento. O Governo sublinha que a nova instituição não deverá concorrer directamente com a banca comercial, mas ocupar um espaço específico no financiamento de projectos estruturantes.

A legislação que criou o banco estabelece um capital social de 32 mil milhões de meticais, dimensão que coloca o BDM entre os instrumentos financeiros públicos de maior relevância para a estratégia de desenvolvimento económico do país.

FDEL já mobilizou mais de 824 milhões

Na mesma reunião, o Conselho de Ministros apreciou o ponto de situação da implementação do Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL), que já mobilizou 824.614.426,22 meticais para intervenções em todo o território nacional.

O fundo foi criado com o propósito de estimular o empreendedorismo, apoiar actividades produtivas, gerar rendimento e criar emprego, com particular atenção às iniciativas económicas de âmbito local. O Governo aprovou a sua criação em 2025 como um instrumento destinado a dinamizar as economias das comunidades e ampliar as oportunidades de investimento fora dos principais centros económicos.

O valor já mobilizado coloca o FDEL como outro instrumento relevante na estratégia de financiamento da actividade económica, embora com uma escala e finalidade diferentes das previstas para o BDM.

Enquanto o FDEL procura actuar mais directamente sobre iniciativas económicas locais e geração de rendimento, o BDM deverá concentrar-se em operações de maior dimensão e em projectos capazes de produzir efeitos estruturais sobre a economia.

O verdadeiro teste será transformar recursos em investimento

A criação de novos mecanismos de financiamento resolve apenas uma parte do problema. O desafio central estará na capacidade de transformar os recursos mobilizados em crédito produtivo, investimento privado, aumento da capacidade empresarial e criação sustentável de emprego.

No caso do BDM, será particularmente importante definir critérios rigorosos para a selecção dos projectos, mecanismos de avaliação de risco, transparência na concessão de financiamento e instrumentos que permitam evitar que o banco reproduza as limitações existentes no sistema financeiro convencional.

A discussão sobre a nova instituição já envolve, precisamente, preocupações relacionadas com a gestão prudente dos recursos, sustentabilidade financeira e mecanismos de governação. Parceiros sociais defenderam recentemente cautela na definição das regras de funcionamento do banco, reconhecendo simultaneamente o seu potencial para disponibilizar financiamento de médio e longo prazo a projectos estruturantes.

Para a economia moçambicana, a questão passa, portanto, menos pela existência de mais uma instituição financeira e mais pela capacidade de criar uma ponte efectiva entre capital e sectores produtivos.

Se conseguir financiar projectos que aumentem a produção nacional, promovam a industrialização, desenvolvam infra-estruturas e ampliem a participação das empresas moçambicanas, o BDM poderá desempenhar um papel relevante na transformação da estrutura económica do país.

O FDEL, por seu lado, representa uma aposta complementar na economia de proximidade. Com mais de 824,6 milhões de meticais já mobilizados, o foco passa agora por avaliar o impacto desses recursos sobre as actividades produtivas e a capacidade de geração de rendimento nas comunidades.

Assim, a aprovação do regulamento do BDM e a evolução do FDEL apontam para uma mesma prioridade: aumentar a capacidade do Estado de canalizar financiamento para actividades que produzam crescimento económico, mas com dois instrumentos destinados a actuar em escalas diferentes.

ExxonMobil reserva 4 mil milhões de dólares para conteúdo local no projecto Rovuma LNG

A ExxonMobil já reservou cerca de 4 mil milhões de dólares norte-americanos para o conteúdo local no âmbito do projecto Rovuma LNG, em Cabo Delgado, um sinal que, segundo o Presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Álvaro Massingue, reforça as expectativas do empresariado nacional quanto à entrada da multinacional norte-americana na fase de implementação do megaprojecto.

Massingue revelou que a recente adjudicação, pela ExxonMobil, de um contrato de tubagem avaliado em 250 milhões de dólares constitui mais um indicador de que a multinacional está a preparar as condições para avançar com o projecto.

“Vimos hoje também que adjudicaram um contrato de 250 milhões de dólares norte-americanos só para comprar a tubagem. Significa que já estão a preparar-se para entrar. Já é um bom sinal para Moçambique”, afirmou.

Segundo o presidente da CTA, a dimensão dos recursos previstos para o conteúdo local abre uma janela de oportunidades para as empresas moçambicanas, mas estas terão de estar preparadas para cumprir os critérios exigidos pela ExxonMobil.

Massingue explicou que a multinacional esteve recentemente na CTA, onde acordou com a confederação trabalhar em conjunto na promoção do conteúdo local.

“Já há cerca de quatro mil milhões de dólares norte-americanos reservados para o conteúdo local. O que nós temos que fazer é ficar atentos às oportunidades que são divulgadas pelo nosso Bureau de Conteúdo Local, que existe na CTA. Todas as oportunidades com a ExxonMobil estão lá”, disse.

O dirigente defendeu que a prioridade, neste momento, deve ser preparar as empresas nacionais para que possam aproveitar as oportunidades decorrentes do projecto.

Segundo Massingue, o acesso à formação e ao desenvolvimento de capacidades deve permitir às empresas moçambicanas responder aos requisitos estabelecidos pela ExxonMobil e participar nas cadeias de fornecimento associadas ao projecto.

“Isto representa oportunidades para empresas moçambicanas terem acesso àquilo que sempre lutamos. Há critérios a seguir e as empresas têm que estar preparadas para cumprir aqueles critérios que foram estabelecidos para terem acesso aos negócios”, afirmou.

Massingue salientou que, embora a ExxonMobil ainda não tenha confirmado oficialmente o início do projecto no próximo mês, os investimentos actualmente realizados apontam para uma evolução positiva nesse sentido.

A expectativa da CTA surge depois de a ExxonMobil ter adjudicado recentemente contratos de pré-investimento avaliados em 1,1 mil milhões de dólares para o projecto Rovuma LNG, na província de Cabo Delgado.

“São os primeiros contratos que foram adjudicados”, explicou Massingue, considerando estas adjudicações como parte da fase inicial e preparatória do megaprojecto.

A reserva de cerca de 4 mil milhões de dólares para o conteúdo local coloca as empresas moçambicanas perante uma das maiores oportunidades de participação na cadeia de fornecimento de um projecto de gás natural no país.

Para a CTA, contudo, a concretização deste potencial dependerá da capacidade das empresas nacionais de responderem aos padrões técnicos, financeiros e de qualidade exigidos pelos grandes investidores.

Massingue falava esta terça-feira, em Maputo, momentos depois de receber uma delegação do Programa Mundial para a Alimentação (PMA), que integra a oficial da área de Resiliência, Nutrição e Alimentação Escolar e o director do PMA em Moçambique, no âmbito da identificação de parcerias com o sector privado para apoiar os esforços do Governo e de outros actores na luta contra a má nutrição e a fome.

Entretanto, relativamente à Feira Internacional de Maputo (FACIM), que terá lugar nos próximos dias, Massingue assegurou que a CTA está preparada para receber as delegações provinciais e participar no evento.

(AIM)

Inclusão digital passa de agenda social para prioridade económica

Em África, e particularmente em mercados emergentes como Moçambique, a capacidade de integrar mais mulheres na economia digital tornou-se um factor directamente ligado à inovação, competitividade e sustentabilidade do crescimento. Num contexto em que a transformação digital redefine economias, modelos de negócio e o próprio futuro do trabalho, a discussão sobre inclusão tecnológica deixou de ser apenas uma questão social para assumir uma dimensão estratégica de desenvolvimento económico.

Apesar do enorme potencial demográfico do país, marcado por uma população jovem e cada vez mais exposta ao universo digital, persistem desafios estruturais ligados ao acesso à educação tecnológica, literacia digital, conectividade e representação feminina em áreas técnicas e posições de liderança. É neste enquadramento que surge a Women in Tech Mozambique, capítulo local de uma rede global presente em dezenas de países e dedicada à promoção da inclusão feminina no sector tecnológico.

Segundo Delfina Franco, a abertura do chapter em Moçambique respondeu à necessidade de criar uma plataforma estruturada capaz de acelerar a participação das mulheres no ecossistema tecnológico nacional. Contudo, o contexto moçambicano exigiu uma abordagem própria e profundamente adaptada à realidade local.

Ao contrário de mercados mais maduros da região, onde o debate já se concentra em venture capital, inovação avançada ou escalabilidade internacional, em Moçambique continua a ser necessário trabalhar questões mais fundamentais, literacia digital, acesso à formação, exposição a oportunidades e construção de referências femininas visíveis no sector tecnológico.

Alinhado à missão global da Women in Tech, que pretende impactar milhões de mulheres até 2030 através de educação, inclusão digital e advocacy, o capítulo moçambicano desenvolve uma actuação fortemente orientada para comunidade, mentorship, capacitação e criação de ecossistemas de apoio para raparigas e mulheres em diferentes fases das suas trajectórias profissionais.

A realidade do mercado tecnológico nacional evidencia ainda uma sub-representação significativa das mulheres, particularmente em áreas técnicas especializadas, cargos executivos e espaços de tomada de decisão. Para Delfina Franco, o desafio não se limita à entrada das mulheres no sector, mas estende-se igualmente à retenção, progressão profissional e visibilidade.

Muitas profissionais altamente qualificadas continuam afastadas de fóruns estratégicos, projectos de inovação e posições de influência, enquanto persistem barreiras culturais e sociais que associam tecnologia a carreiras predominantemente masculinas. Ao mesmo tempo, grande parte das oportunidades de formação continua concentrada nos principais centros urbanos, dificultando o desenvolvimento de talento feminino noutras regiões do país.

Ainda assim, Delfina Franco observa o surgimento de uma nova geração de jovens extremamente talentosas, curiosas e interessadas em participar activamente na economia digital. O principal obstáculo, muitas vezes, não está na falta de capacidade, mas na ausência de exposição, orientação e acesso a redes de apoio e oportunidades.

Neste cenário, o sector privado assume um papel particularmente relevante. Na visão da responsável da Women in Tech Mozambique, as empresas precisam deixar de olhar para inclusão apenas como componente de responsabilidade social e passar a encará-la como questão estratégica ligada à inovação, competitividade e sustentabilidade organizacional.

Algumas organizações começam já a adoptar práticas mais avançadas, investindo em mentorship, desenvolvimento de liderança feminina, políticas de flexibilidade e criação de ambientes de trabalho psicologicamente seguros. Segundo Delfina Franco, as empresas que conseguem integrar diversidade e inclusão na própria estratégia organizacional tendem igualmente a atrair, desenvolver e reter melhor talento.

Num mercado emergente como o moçambicano, porém, acelerar resultados exige colaboração entre diferentes actores. Governo, sector privado, universidades, organizações internacionais e sociedade civil precisam actuar de forma articulada para construir um ecossistema tecnológico mais inclusivo e funcional. Como costuma resumir o movimento Women in Tech, “para ir longe, é preciso ir com todos”.

A baixa presença feminina em áreas como cibersegurança, inteligência artificial, cloud computing e ciência de dados reproduz igualmente tendências observadas a nível global. Em Moçambique, essas áreas continuam a apresentar participação feminina reduzida, resultado de uma combinação entre barreiras estruturais, falta de exposição precoce à tecnologia e ausência de role models visíveis.

Muitas jovens ainda percepcionam estas áreas como excessivamente técnicas ou inacessíveis, o que acaba por afectar níveis de confiança e participação. Soma-se a isso o acesso limitado a formação especializada e a reduzida presença feminina em espaços de liderança tecnológica.

Ainda assim, Delfina Franco acredita que a ascensão da inteligência artificial e da economia digital pode representar uma oportunidade histórica para acelerar a inclusão feminina em sectores globais, permitindo ultrapassar algumas limitações tradicionais do mercado de trabalho africano. Para isso, considera fundamental investir em bootcamps especializados, programas de reskilling, mentorship técnico, desenvolvimento de soft skills e iniciativas que aproximem raparigas da tecnologia desde o ensino secundário.

A questão da literacia digital permanece igualmente central neste debate. Em muitos contextos, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, o acesso limitado a dispositivos, conectividade e formação continua a representar uma das maiores barreiras à inclusão digital.

A Women in Tech Mozambique procura responder a este desafio através de uma abordagem colaborativa, envolvendo parceiros privados, escolas, comunidades e organizações da sociedade civil na expansão de oportunidades de aprendizagem tecnológica. O foco passa por workshops acessíveis, programas para jovens, sensibilização sobre carreiras STEAM, formação híbrida e construção de comunidades digitais mais inclusivas.

Segundo Delfina Franco, a realidade moçambicana exige soluções pragmáticas e contextualizadas. Nem sempre a resposta está em tecnologias sofisticadas; muitas vezes começa pelo acesso básico, criação de confiança e desenvolvimento gradual de competências digitais.

A construção de narrativas inspiradoras ocupa igualmente um papel central na actuação da Women in Tech Mozambique. Embora ainda exista baixa representatividade feminina no sector tecnológico nacional, Delfina Franco reconhece o crescimento de mulheres que começam a ocupar posições relevantes em áreas ligadas à transformação digital, inovação, empreendedorismo e tecnologia.

Uma das missões da organização passa precisamente por amplificar essas histórias, criando plataformas de visibilidade, networking e partilha de experiências. A lógica é simples, quando uma jovem vê outra mulher liderar uma empresa tecnológica, um projecto digital ou uma iniciativa de inovação, passa a acreditar que aquele espaço também pode ser seu.

Para além das questões estruturais, a própria cultura organizacional das empresas tecnológicas continua a funcionar, muitas vezes, como mecanismo silencioso de exclusão. Ambientes excessivamente homogéneos, baixa representatividade em posições de decisão e preconceitos inconscientes acabam por limitar o crescimento profissional feminino mesmo quando existem políticas formais de inclusão.

Na visão de Delfina Franco, as mudanças mais urgentes passam pela construção de lideranças mais inclusivas, desenvolvimento de culturas psicologicamente seguras, combate a vieses inconscientes e criação de oportunidades mais equitativas de crescimento e progressão profissional.

A Women in Tech Mozambique procura influenciar este processo através de advocacy, formação, colaboração institucional e criação de pontes entre empresas, profissionais e comunidades. Afinal, a transformação cultural não acontece de forma isolada, exige compromisso colectivo e mudança estrutural na forma como as organizações encaram talento, liderança e diversidade.

Olhando para o futuro, Delfina Franco acredita que a mudança mais decisiva para transformar a participação das mulheres no sector tecnológico moçambicano seria a integração estruturada da literacia digital, pensamento tecnológico e competências de liderança no sistema educativo desde cedo.

Num contexto em que inteligência artificial, automação e transformação digital irão redefinir profundamente o futuro do trabalho, preparar as novas gerações tornou-se uma prioridade estratégica. Caso contrário, existe o risco de ampliar desigualdades já existentes e limitar a participação feminina na nova economia digital.

Ainda assim, sublinha que esta responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre o Estado. O desenvolvimento de um ecossistema tecnológico verdadeiramente inclusivo dependerá da capacidade de colaboração entre instituições públicas, sector privado, universidades, organizações internacionais e iniciativas comunitárias como a Women in Tech Mozambique.

O objectivo final é claro, criar condições para que meninas e mulheres moçambicanas deixem de ser apenas utilizadoras de tecnologia e passem a assumir, cada vez mais, o papel de criadoras, líderes e protagonistas da transformação digital do país.

Absa substitui Standard Bank na custódia de Government Employees’ Pension Fund

O Absa foi seleccionado para assumir a função de custodiante principal do Government Employees’ Pension Fund (GEPF) da África do Sul, substituindo o Standard Bank, que desempenhava este mandato há cerca de três décadas. A mudança, efectiva desde Agosto de 2026, coloca sob responsabilidade do Absa a custódia e administração operacional de activos superiores a 3,5 biliões de rands, equivalentes a aproximadamente US$218 mil milhões.

O GEPF é o maior fundo de pensões de África e um dos principais investidores institucionais do continente. O fundo assegura benefícios de reforma a mais de 1,2 milhões de trabalhadores do sector público sul-africano e cerca de 565 mil pensionistas e outros beneficiários.

A transferência do mandato resulta de um processo competitivo de selecção conduzido pelo próprio fundo. No âmbito do novo acordo, o Absa será responsável pela guarda e administração dos activos, liquidação das transacções de investimento, gestão dos fluxos de caixa associados aos investimentos, reconciliação, acompanhamento dos activos e produção de relatórios.

A mudança não significa, contudo, que o Absa passe a gerir directamente a estratégia de investimento dos US$218 mil milhões. A Public Investment Corporation (PIC) continuará responsável pela execução da estratégia de investimento definida para o fundo, enquanto o novo custodiante assegurará as funções operacionais e de controlo associadas aos activos.

Mudança histórica no mercado financeiro sul-africano

A perda do mandato encerra um ciclo de aproximadamente 30 anos para o Standard Bank, que assegurava a custódia do GEPF desde a criação do fundo, em 1996. Para o Absa, a conquista representa a expansão da sua presença no segmento de serviços institucionais e de custódia de activos de grande escala.

O novo mandato reforça também a posição do Absa no ecossistema financeiro sul-africano, num segmento em que a dimensão dos activos sob custódia, os requisitos de governação e os mecanismos de controlo assumem importância estratégica.

Apesar da mudança de custodiante, a operação não altera directamente os direitos ou os pagamentos aos beneficiários do GEPF. Trata-se essencialmente de uma mudança institucional e operacional na administração dos activos, mantendo-se a estrutura de investimento e as obrigações do fundo perante os seus membros.

Para o mercado financeiro africano, a transferência de um mandato desta dimensão representa ainda um movimento relevante no segmento de custódia institucional, evidenciando a crescente importância da eficiência operacional, governação, controlo de activos e capacidade tecnológica na prestação de serviços a grandes investidores institucionais.

Porto de Maputo e Terminal da Matola impulsionam crescimento de 52% nos resultados da Grindrod

A Grindrod, grupo sul-africano especializado em logística, portos e terminais, registou um forte crescimento dos resultados no primeiro semestre de 2026, beneficiando sobretudo do desempenho recorde das operações portuárias em Moçambique e da consolidação integral do Terminal de Matola TCM.

Nos seis meses terminados em 30 de Junho de 2026, o EBITDA do grupo aumentou 52%, para 884 milhões de rands, contra 580 milhões de rands no período homólogo. As receitas cresceram 19%, para 2,84 mil milhões de rands, enquanto o cash flow gerado pelas operações aumentou 28%, para 561 milhões de rands.

O desempenho foi particularmente sustentado pela divisão de Portos e Terminais, que beneficiou de volumes recorde e de uma maior contribuição do negócio da Matola. A consolidação integral da Matola TCM acrescentou 371 milhões de rands ao EBITDA do grupo durante o período.

Porto de Maputo atinge novo recorde

O Porto de Maputo registou um dos principais desempenhos operacionais da Grindrod, tendo movimentado 8,4 milhões de toneladas de carga a granel seca, um crescimento de 29% face ao período comparável.

Só em Junho, o porto atingiu um recorde mensal de 1,623 milhões de toneladas, evidenciando a crescente utilização do corredor logístico de Maputo para o escoamento de commodities da região.

A performance reforça a importância do Porto de Maputo como infraestrutura estratégica para o comércio regional e surge num contexto de investimentos contínuos destinados a aumentar a capacidade portuária e melhorar a eficiência do corredor de Maputo.

Matola reforça contribuição

A consolidação da Matola TCM foi outro factor determinante para os resultados da Grindrod. Embora os volumes da operação tenham recuado 7% no período, a incorporação integral do terminal nos resultados do grupo teve um impacto significativo sobre o EBITDA.

O desempenho da Matola ocorre depois de a operação ter estabelecido novos recordes de movimentação. Em 2025, o terminal atingiu 9,9 milhões de toneladas por ano, representando um crescimento de 22% nos volumes.

Logística continua sob pressão

Apesar do forte desempenho de Portos e Terminais, a divisão de Logística enfrentou um ambiente mais desafiante, condicionado por menor utilização ferroviária, redução da actividade de agenciamento e freight forwarding e pelo encerramento progressivo da operação de Eswatini.

A administração da Grindrod, contudo, sinalizou expectativas de recuperação na segunda metade do ano, à medida que a disponibilidade ferroviária melhore.

No conjunto, os lucros headline permaneceram praticamente estáveis em 593 milhões de rands, contra 592 milhões no período homólogo, reflectindo efeitos de comparação e a ausência de determinados ganhos não recorrentes registados anteriormente.

A empresa terminou o semestre com uma posição de caixa líquida de 535 milhões de rands e declarou um dividendo intercalar de 0,243 rands por acção, 66% acima do valor distribuído no período homólogo.

O desempenho da Grindrod coloca novamente Maputo e Matola no centro da estratégia de crescimento do grupo, num momento em que o aumento dos volumes de comércio regional e a expansão da capacidade logística continuam a reforçar o papel de Moçambique como corredor de acesso aos mercados da África Austral.

Moçambique integra missão aos EUA para acelerar modernização do sector energético

Uma delegação de cerca de 15 representantes dos sectores público e privado de Angola, Botswana, Moçambique e Zâmbia desloca-se aos Estados Unidos entre 29 de Agosto e 5 de Setembro, numa iniciativa destinada a promover parcerias para a modernização e reforço dos sistemas de transmissão e distribuição de energia na África Austral.

Organizada pela U.S. Trade and Development Agency (USTDA), a missão levará os participantes às cidades de Denver, no Colorado, e Austin, no Texas, onde deverão reunir-se com empresas norte-americanas e conhecer tecnologias avançadas aplicáveis às redes eléctricas, incluindo soluções de controlo de redes baseadas em Inteligência Artificial.

O programa inclui ainda encontros com empresas de serviços públicos de electricidade, tanto públicas como privadas, e entidades reguladoras, entre as quais a Colorado Public Utilities Commission e o Electric Reliability Council of Texas.

Em Denver, está igualmente previsto para 1 de Setembro um encontro empresarial aberto a empresas norte-americanas, que poderão conhecer directamente as oportunidades comerciais previstas nos quatro mercados e apresentar soluções tecnológicas para o reforço da segurança das redes eléctricas.

A iniciativa ocorre num contexto de crescimento populacional, urbanização acelerada e expansão da actividade industrial na África Austral, incluindo o aumento da procura de energia associado à exploração de minerais críticos. Estes factores estão a pressionar os países da região a acelerar investimentos em infra-estruturas eléctricas mais modernas, seguras e eficientes.

Para Moçambique, a participação na missão coloca o país num espaço de diálogo sobre modernização da rede eléctrica, segurança energética, integração de tecnologias digitais e Inteligência Artificial na gestão de sistemas de energia, ao mesmo tempo que abre possibilidades de aproximação a fornecedores e investidores norte-americanos.

A iniciativa é promovida pela USTDA, que considera o sector privado norte-americano particularmente bem posicionado para fornecer tecnologias, engenharia e equipamentos destinados à modernização das redes eléctricas da região.

Fonte: U.S. Trade and Development Agency (USTDA), via Club of Mozambique.

O capital humano é hoje um dos principais factores de competitividade das organizações

Num contexto em que as empresas enfrentam maior pressão por produtividade, retenção de talento e adaptação à mudança, como é que a SDO Moçambique se posiciona enquanto consultora estratégica de capital humano e transformação organizacional?

Hoje, as organizações enfrentam um cenário particularmente exigente: precisam de aumentar resultados, adaptar-se rapidamente às mudanças, sobreviver às constantes crises e, ao mesmo tempo, criar ambientes capazes de atrair e reter talentos. Neste contexto, entendemos que a gestão de pessoas deixou de ser uma função operacional para assumir um papel estratégico no desempenho das instituições.

A SDO Moçambique posiciona-se como uma parceira na transformação organizacional, apoiando organizações na construção de modelos de gestão mais sustentáveis, alinhados com os seus objectivos de negócio e preparados para responder aos desafios actuais do mercado. O nosso foco passa por ajudar as organizações a fortalecer a liderança, a cultura organizacional, os sistemas de gestão de desempenho, o desenvolvimento de competências e estratégias de retenção, porque acreditamos que resultados consistentes começam pela valorização do capital humano.

O conceito de gestão estratégica de pessoas evoluiu significativamente nos últimos anos. Na prática, o que distingue hoje uma empresa que apenas administra recursos humanos de outra que gere capital humano de forma estratégica?

Uma organização que apenas gere recursos humanos tende a concentrar-se em processos administrativos: salários, contratos, admissões ou cumprimento legal. Embora essas funções sejam essenciais, por si só não garantem competitividade.

Por outro lado, organizações que gerem capital humano estrategicamente procuram responder a questões mais profundas: Que competências serão necessárias daqui a cinco anos? Como desenvolver lideranças? Como melhorar produtividade? Como reduzir a rotatividade? Como preparar a sucessão?

A principal diferença está na capacidade de olhar para as pessoas não como custo operacional, mas como activos estratégicos capazes de influenciar crescimento, inovação e sustentabilidade institucional.

II.  PANORAMA DO MERCADO

Que segmentos de mercado representam hoje maior potencial de crescimento para a SDO: sector público, banca, telecomunicações, PME’s ou grandes empresas? 

Cada segmento enfrenta desafios específicos em matéria de capital humano, o que cria oportunidades distintas de desenvolvimento organizacional.

O sector público, por exemplo, discute cada vez mais temas ligados à modernização institucional, liderança e desempenho. A banca e telecomunicações continuam focadas na produtividade, experiência do cliente e transformação digital. As grandes empresas investem fortemente na cultura organizacional e gestão de talentos. Já as PME’s procuram profissionalizar processos de gestão e desenvolver estruturas mais sustentáveis.

Mais do que identificar um único segmento prioritário, observamos uma tendência transversal: organizações de diferentes dimensões reconhecem que melhorar resultados passa inevitavelmente por investir nas pessoas e nos modelos de gestão.

O tema da produtividade continua recorrente no sector privado. Onde é que as empresas moçambicanas mais perdem eficiência operacional?

A produtividade raramente depende apenas de recursos financeiros ou tecnologia. Muitas vezes, as maiores perdas acontecem em factores menos visíveis.

Entre os desafios mais frequentes observamos: ausência de metas claras, falhas de comunicação interna, liderança pouco preparada para gerir equipas, processos excessivamente burocráticos, baixa cultura de accountability e baixa cultura de acompanhamento de desempenho.

Nalguns casos, profissionais altamente competentes trabalham em sistemas organizacionais que não permitem que o seu potencial seja plenamente aproveitado. Melhorar produtividade implica, frequentemente, rever práticas de gestão, estruturas e comportamentos organizacionais.

O conceito de employee experience ganhou relevância à escala global. Até que ponto esta abordagem já começa a influenciar a forma como as empresas locais estruturam a relação com os colaboradores?

Ainda que em ritmos diferentes, esta mudança já começa a ser observada no mercado nacional. As organizações percebem gradualmente que a experiência do colaborador influencia na retenção, no compromisso, na produtividade e na reputação empregadora.

Hoje discute-se mais bem-estar, desenvolvimento profissional, reconhecimento, flexibilidade e ambiente organizacional. Particularmente entre profissionais mais jovens, factores não financeiros começam a pesar significativamente nas decisões de permanência ou saída de uma organização.

Temos estado a ver que as empresas que investem na experiência do colaborador tendem a criar equipas mais comprometidas e culturas mais resilientes às mudanças.

III.  VISÃO & FUTURO

A partir da experiência da SDO Moçambique, quais serão os maiores desafios de capital humano que as empresas moçambicanas terão de enfrentar nos próximos três a cinco anos?

Não temos uma varinha mágica. As informações que temos só nos permitem prever cenários num nível puramente hipotético e preditivo. E, se essa informação valer alguma coisa para quem vai ler este artigo, então deixamos ficar que nós identificamos, pelo menos, cinco grandes desafios:

Primeiro, retenção de talentos qualificados, sobretudo em sectores onde existe elevada procura por profissionais especializados, como é o caso das áreas ligadas às tecnologias de informação. Em segundo lugar, achamos que vai continuar um grande desafio a preparação de lideranças capazes de gerir equipas em ambientes cada vez mais complexos e imprevisíveis.

Em terceiro lugar, apontaríamos o desenvolvimento de competências adaptadas às novas exigências tecnológicas. Em quarto lugar colocaria a sucessão organizacional e transferência de conhecimento, particularmente em instituições com quadros seniores próximos da saída e em sectores estratégicos e novos para a nossa economia, como é o caso do óleo e gás. Por fim, o quinto grande desafio achamos que será a construção de culturas organizacionais capazes de equilibrar desempenho, inovação e bem-estar.

As organizações que começarem hoje a preparar respostas para estes desafios estarão mais bem posicionadas no futuro.

A inteligência artificial, a automação e a digitalização estão a transformar profundamente o mercado de trabalho. Que competências passarão a ser mais críticas para os profissionais nos próximos anos?

As competências técnicas continuarão importantes, mas haverá crescente valorização das competências que a tecnologia dificilmente substitui, tais como o pensamento crítico e resolução de problemas, a adaptabilidade, a inteligência emocional, a liderança, a criatividade e a gestão de mudança.

O profissional do futuro não será necessariamente aquele que sabe mais, mas aquele que aprende mais rapidamente, adapta-se melhor e consegue gerar valor em contextos de constante transformação.

Além disso, o domínio da inteligência artificial deixará progressivamente de ser uma competência diferenciadora para tornar-se uma competência básica em muitos sectores.

Pan-African Welcome Back Networking Breakfast | Aga Khan Academy Maputo

Date and time: August 29, 2026 (Saturday) | 08:00 – 10:30

Location: Aga Khan Academy Maputo – Av. do Zimbabué, nº 212, Matola “A”, Maputo, Mozambique

Description: Inclusive leadership and pluralism: Pan-African Welcome Back Networking Breakfast at Aga Khan Academy Maputo!

Connect with visionaries, corporate leaders, and diplomats driving inclusion across Africa! On Saturday, August 29, 2026, from 08:00 to 10:30, the Aga Khan Academy Maputo hosts the Pan-African Welcome Back Networking Breakfast.

Under the theme “From Personal Identity to Impact: Shaping an Inclusive and Pluralistic Future”, this morning forum features keynote addresses from Dr. Salimo Abdula (Founder & Chairman, Intelec Holdings), Mr. Pedro Carvalho (CEO, Absa Bank Mozambique), and Mr. Michael Spencer (Head of Academy). Supported by Absa, Spectrum Graphics, Bonbon, and Casa de Cafés, the breakfast offers an inspiring environment to build strategic connections and discuss pluralism in leadership.

Tickets: https://linktr.ee/agakhanacademymaputo

Information: +258 85 301 6339

Expansão do Oleoduto Moçambique-Zimbabwe reforça segurança energética na África Austral

Novas estações de bombagem vão aumentar em 67% a capacidade do corredor Beira-Harare, apoiando a procura crescente na região da SADC

Uma importante expansão do corredor de combustíveis Beira-Harare vai reforçar a segurança energética na África Austral, aumentando a capacidade de fornecimento de uma rota crítica que serve Moçambique, o Zimbabwe e vários mercados do interland na região da SADC.

A Companhia do Pipeline Moçambique-Zimbabwe (CPMZ), Lda. vai realizar uma cerimónia de lançamento da primeira pedra em Nhamatanda, no dia 2 de Setembro de 2026, para assinalar o início da construção de duas novas estações de bombagem em Nhamatanda, Província de Sofala, e em Messica, Província de Manica.

O desenvolvimento irá aumentar a capacidade anual de transporte do oleoduto Beira-Feruka de 3 milhões para 5 milhões de metros cúbicos até ao final de 2027, um aumento de 67% que ajudará a satisfazer a procura crescente de gasóleo, gasolina e combustível de aviação na região.

A expansão está a ser sincronizada com a modernização da Linha Petrozim, entre Feruka e Harare, criando um corredor energético alinhado e de maior capacidade, desde o Porto da Beira até ao interior da África Austral. A rota apoia a segurança energética não só em Moçambique e no Zimbabwe, mas também em mercados sem litoral, incluindo a Zâmbia, o Malawi, o Botswana e a República Democrática do Congo.

O projecto surge na sequência do aumento bem-sucedido da capacidade do oleoduto pela CPMZ, de 2 milhões para 3 milhões de metros cúbicos anuais, em 2024. A construção e o arranque das novas estações de bombagem decorrerão sem interromper as operações diárias do oleoduto nem o abastecimento de combustível aos mercados regionais.

REFORÇAR UM CORREDOR ENERGÉTICO REGIONAL ESTRATÉGICO

O oleoduto Beira-Feruka, com 294 quilómetros de extensão, é um elemento fundamental do Corredor da Beira, que liga o Porto da Beira ao Zimbabwe e ao restante hinterland da África Austral.

A CPMZ e o Governo do Zimbabwe partilham uma visão de longo prazo de fazer do eixo Beira-Harare uma das principais rotas de abastecimento energético da África Austral, com Harare a assumir-se como um importante centro regional de distribuição.

O planeamento de longo prazo inclui estudos para a substituição da actual linha por um oleoduto de maior diâmetro, capaz de satisfazer a procura de combustível projectada para a região até 2050. Está também a ser ponderada uma eventual extensão do eixo Harare-Lusaka até ao Copperbelt da Zâmbia.

Através destes investimentos, a CPMZ está a contribuir para a construção de uma rede regional de abastecimento de combustível mais resiliente, eficiente e integrada, apoiando a actividade económica, o comércio e a segurança energética em toda a SADC.

Sobre a CPMZ

Fundada em 1982, a Companhia do Pipeline Moçambique-Zimbabwe, Lda. opera segundo um modelo de governação público-privada, que reúne o Estado moçambicano e investidores privados.

A CPMZ opera de forma contínua, 24 horas por dia e 365 dias por ano, contando com uma força de trabalho técnica especializada composta inteiramente por profissionais moçambicanos. As suas operações recorrem a telemetria avançada e monitorização SCADA em tempo real, sustentadas por rigorosos padrões de segurança e ambientais.

CPMZ: A rota de confiança para o combustível na África Austral.

Contratação pública abre nova frente para as PME moçambicanas

As grandes empreitadas públicas em Moçambique passam a incorporar uma componente obrigatória de participação empresarial nacional, com o novo regime de contratação pública a determinar que pelo menos 20% dos trabalhos de obras avaliadas em 100 milhões de meticais ou mais sejam subcontratados a micro, pequenas e médias empresas (MPME) nacionais.

A medida altera a forma como as grandes obras públicas poderão distribuir o valor dos contratos e procura transformar a despesa do Estado num instrumento de desenvolvimento do tecido empresarial moçambicano. Numa empreitada de 100 milhões de meticais, por exemplo, a parcela mínima destinada às MPME nacionais será de 20 milhões de meticais. Num projecto de mil milhões de meticais, a reserva sobe para pelo menos 200 milhões.

O novo regime, que entrou em vigor em Agosto, integra uma reforma mais abrangente das compras públicas, que inclui a contratação centralizada, a introdução dos Acordos-Quadro e dos Sistemas de Aquisição Dinâmicos, bem como mecanismos destinados a reforçar a produção nacional e a transparência dos processos.

Preferência nacional ganha peso

A reforma não se limita à reserva de mercado para as PME. As empresas nacionais passam também a beneficiar de uma margem de preferência de 15% nas empreitadas de obras públicas e na prestação de serviços. Para os bens produzidos em Moçambique, a margem de preferência é de 20%.

O diploma estabelece ainda que produtos transformados serão considerados nacionais quando incorporarem pelo menos 35% de factores de produção nacionais, reforçando a componente de conteúdo local nas compras do Estado.

A lógica é aumentar a participação das empresas moçambicanas numa das maiores fontes de procura da economia: a contratação pública. Além de gerar receitas, o acesso a grandes projectos pode permitir às PME acumular referências comerciais, experiência técnica, equipamento e capacidade para disputar contratos de maior dimensão.

O desafio passa da reserva à execução

A criação de uma quota legal, contudo, não garante por si só que as PME consigam capturar esse valor. O impacto económico dependerá da forma como os grandes contratos forem estruturados, da dimensão dos lotes atribuídos, das exigências técnicas e financeiras e da repartição dos riscos entre empreiteiros principais e subcontratados.

Outro factor crítico será o acesso ao financiamento. Empresas de menor dimensão podem enfrentar dificuldades para suportar custos iniciais, prestar garantias ou esperar por pagamentos, mesmo quando já tenham assegurada uma parcela de uma grande empreitada.

O novo regime poderá, por isso, criar uma procura adicional para as PME, mas a sua capacidade de transformar essa procura em crescimento sustentável dependerá das condições efectivas de contratação e pagamento.

Estado centraliza compras e reforça controlo

A reforma introduz também uma mudança estrutural na forma como o Estado realiza as suas aquisições. A Central de Aquisições do Estado (CAE) passa a desempenhar um papel central na agregação da procura pública, procurando obter economias de escala e maior previsibilidade nas compras.

Os Acordos-Quadro permitem seleccionar previamente fornecedores para determinadas categorias de bens e serviços, enquanto os Sistemas de Aquisição Dinâmicos deverão assegurar procedimentos realizados exclusivamente por meios electrónicos.

O diploma reforça igualmente os mecanismos de transparência. Empresas vencedoras de concursos superiores a 60 milhões de meticais passam a ter de apresentar uma declaração de beneficiário efectivo, permitindo identificar os proprietários finais das sociedades contratadas pelo Estado.

A reforma coloca, assim, as compras públicas no centro de uma estratégia que combina eficiência da despesa, preferência nacional e desenvolvimento empresarial. Para as PME moçambicanas, a principal mudança não está apenas no direito de concorrer, mas na criação de uma parcela mínima de mercado que passa a estar legalmente acessível ao empresariado nacional.

O resultado dependerá, contudo, da capacidade de transformar essa reserva de contratos em competitividade empresarial efectiva, evitando que a medida se limite à subcontratação formal sem transferência real de competências, tecnologia e valor económico para as empresas moçambicanas.