O presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Álvaro Massingue, identificou a escassez de divisas, em particular de dólares, e a crise de combustíveis como os dois principais fatores que continuam a condicionar o ambiente de negócios no país no segundo trimestre de 2026.
A posição foi apresentada durante o Economic Briefing da CTA no qual a confederação fez o balanço do desempenho empresarial e das perspetivas do sector privado. Segundo Massingue, estes fatores têm impacto direto na atividade económica, nas cadeias de abastecimento e na capacidade operacional das empresas.
Melhoria macroeconómica não chega às empresas
Os dados apresentados mostram que o índice do ambiente macroeconómico subiu de 55% no primeiro trimestre para 58% no segundo trimestre, refletindo uma ligeira aceleração da atividade económica. Esta evolução foi acompanhada por um aumento moderado da procura agregada, uma subida contida dos preços e uma relativa estabilidade cambial. A trajetória das taxas de juro no mercado também se revelou favorável, com impacto positivo no acesso ao crédito pelas empresas.
No entanto, a melhoria ao nível das empresas ficou muito aquém. O Índice de Robustez Empresarial subiu apenas de 26% para 27%. Massingue reconheceu que, embora seja um aumento de apenas um ponto percentual, o resultado continua a ser significativo face ao contexto de choques e constrangimentos sucessivos que as empresas enfrentam.
A discrepância é notória: o índice macroeconómico subiu três pontos percentuais, enquanto o índice de robustez empresarial avançou apenas um, o que demonstra que a melhoria macroeconómica não está a ser transmitida na mesma proporção para a operação real das empresas.
Crise de combustíveis: gasóleo sobe 46% e gera efeito em cadeia
Massingue classificou a disponibilidade de combustíveis como “o problema mais premente”. O preço do gasóleo registou um aumento de cerca de 46% e, aliado à escassez, tem provocado efeitos em cadeia na indústria, nos transportes, na agricultura e nos consumidores.
“Quando os fatores críticos de produção e de circulação de uma economia estão sob constrangimento, não é possível alcançar um crescimento sustentável”, afirmou o presidente da CTA durante o briefing.
O impacto do aumento dos custos dos combustíveis é particularmente relevante. O gasóleo tem um peso significativo na estrutura de custos da economia moçambicana, dada a dependência do transporte rodoviário e a utilização de geradores por parte de algumas empresas face às restrições no fornecimento de energia elétrica. O encarecimento do gasóleo pressiona diretamente os custos de transporte de matérias-primas, de escoamento de produtos agrícolas, de funcionamento de equipamentos e de distribuição de mercadorias até ao mercado, com parte do custo a ser transferida para os preços finais, o que reduz o poder de compra das famílias.
Escassez de divisas: capacidade de importação continua limitada
A dificuldade de acesso a divisas é outro problema destacado. Massingue sublinhou que as restrições no acesso ao mercado cambial continuam a limitar a capacidade das empresas de importar matérias-primas, equipamentos, combustíveis e outros insumos essenciais.
“Sem matéria-prima não há produção e as exportações diminuem. Mais do que isso, sem produção não há garantia de continuidade do emprego”, alertou Massingue.
Além disso, a CTA aponta a dívida do Estado às empresas privadas, a degradação da rede viária causada por cheias e pela falta de manutenção, e os procedimentos burocráticos como fatores que continuam a encarecer a operação das empresas. Massingue defende que estes constrangimentos precisam de ser resolvidos para permitir uma recuperação mais estável e sustentada da atividade empresarial.
Prejuízo por unidade de produto diminui, mas mantém-se negativo
Um sinal relativamente positivo é a redução do prejuízo médio por unidade de produto, que passou de 522 meticais para 483 meticais. Massingue explicou que isso significa que as receitas das empresas cresceram mais do que os custos, beneficiando da campanha de comercialização agrícola e da relativa estabilidade do metical.
Ainda assim, a persistência do prejuízo por unidade indica que uma parte significativa das empresas continua a não atingir níveis de produção, capacidade de fixação de preços ou volume de vendas que permitam cobrir integralmente os custos de produção. Esta situação limita a capacidade de reinvestimento das empresas e enfraquece a sua posição financeira perante bancos e fornecedores.
Durante o briefing, a CTA saudou ainda a nova liderança do Banco de Moçambique, agora presidida por Felisberto Dinis Navalia, com Benedita Maria Jimino como vice-governadora, considerando que assume funções num período de desafios especiais para a gestão monetária, cambial e financeira do país.



