Segunda-feira, Abril 15, 2024
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Hélder Cossa: “A Bindzu Agrobusiness trabalha desde a farma até à mesa”

Moçambique possui um elevado potencial agrícola, que se destaca pela sua contribuição na economia, com uma participação na ordem de ¼ do Produto Interno Bruto total, e com mais de 80% da força laboral
centrada neste sector.

Em conversa com o Profile, Hélder Cossa, Director Financeiro da Bindzu Agrobusiness, fala de experiências e expectativas para o agronegócio em Moçambique.

Profile Mozambique: Como descreve a Bindzu Agrobusiness?

Hélder Cossa: A Bindzu Agrobusiness & Consultoria, é uma empresa moçambicana criada em 2010, que está no ramo de agronegócio em diferentes fases da cadeia de valor. Começamos com produção de hortícolas para suprir os supermercados nacionais.

Volvido algum tempo, vimos uma excelente oportunidade de abrir uma loja de insumos agrícolas, porque na altura, quando nós entregávamos os produtos, os clientes nos supermercados pensavam que eram produtos sul-africanos. Os farmeiros no campo também admiravam a nossa produção. E perguntavam, mas como é que vocês conseguem? E nós percebemos que havia um conjunto de insumos que, de facto, não estavam disponíveis no nosso mercado.

É importante ressalvar que, nessa época importávamos as sementes, os fertilizantes e outros insumos para ter a qualidade que nós tivemos para fornecer em supermercados.

Na sequência alargamos para a consultoria agrícola na componente de elaboração de planos de negócio e também acompanhamento da própria produção. Agregamos igualmente a área de agenciamento de mercado, que consiste na colocação de produtos agrícolas de farmeiros, sobretudo de farmeiros comerciais no mercado.

E recentemente participamos em concursos através de instalação. Temos sistemas de rega, estufas de produção e de mudas ou seja, sombrites.

Em termos de fornecimento, neste momento fornecemos insumos de diferentes espécies, como sementes, fertilizantes, pesticidas, quer para o governo, quer para a ONGs.

PM: Como é que o comércio de produtos/commodities agrários pode estimular maior dinâmica económica de base alargada na região e no País?

HC: Se pensar só de uma forma empírica, que praticamente todos os dias nós pagamos para comprar produtos, para comer, quer dizer que estamos a falar de uma actividade com grande projecção económica.

E ela é feita em Moçambique. Estima-se que cerca de 70% da população, vive à base da agricultura. Portanto, a actividade tem este impacto, de facto, de abranger uma grande parte da população que está nas zonas rurais. Mas, obviamente, tem que começar a ter alguma sustentabilidade para estas pessoas que, de facto, lidam directamente com a parte da produção.

Embora, na minha opinião pessoal, o que tem que acontecer é que as pessoas têm de rever as suas políticas de investimento, não pensando como nós pensamos, no sentido de que temos que investir nos 70% da população.

Nós não temos que investir nos 4 milhões dos pequenos produtores, das pequenas unidades familiares. E, na verdade, tem sido este, na minha opinião, o grande erro dos grandes investimentos em agricultura em Moçambique.

O que se propõe é que reconstituamos a nossa forma de investir, e investir realmente em poucos centros de produção agrícola, mas com investimentos em grande escala, porque não mais estamos sozinhos no mundo, estamos num mercado globalizado.

Temos que ter a nossa produção competitiva em relação a África do Sul, China, etc.

PM: Que leitura faz relativamente ao potencial de comercialização interna e de exportação da produção local e a sua contribuição para a substituição das importações, aumento das exportações e o consequente impacto positivo na balança comercial, bem como na promoção do emprego e de formas alternativas de rendimento para muitas famílias?

HC: Em termos de exportação, temos realmente um campo muito grande no país, especialmente na parte da produção agrícola, pelo potencial que nós temos, pelas condições edafoclimáticas, pela geolocalização em termos de portos e contacto com os países do Interland.

Mas o que acontece é que, temos um conjunto de culturas que, tendo esse potencial, ainda nem sequer conseguimos satisfazer as nossas necessidades internas.

Refiro-me a culturas como milho, mesmo feijão, hortíferos, fruteiras, embora ultimamente algumas iniciativas privadas que começam a aparecer e dando impulso na actividade económica local. No entanto, o país já vem exportando fruteiras como banana para a África do Sul e até experimentar outros mercados como os Estados Unidos, América ou a Europa.

Outro indicador de performance no comércio exterior, é a exportação de macadamia para a Ásia e mais recentemente do feijão bóer.

PM: Como maximizar o potencial de produção e de comercialização da região, com vista a melhorar a competitividade e sustentabilidade das principais cadeias de valor de produtos/commodities agrícolas?

HC: Urge voltarmos as nossas atenções para os centros de unidades produtivas em diferentes combinações, quer sejam privadas ou parcerias público-privadas, mas unidades produtivas de escala comercial.

Porque se for a reparar os produtos que têm sido exportados neste momento, posso dar o exemplo de cana-de-açúcar, banana, macadamia, e mais alguns, eles são feitos em grandes unidades comerciais, principalmente por privados.

O que lhes permite ter a escala que no final do dia eles competem com os outros países a nível mundial. Então, para maximizar isso temos que reestruturar a forma como investimos na agricultura e optar por unidades produtivas mais concentradas, investimentos mais concentrados, mais robustos, suficientes, para que essas unidades tenham sustentabilidade.

Por que o que se verifica no nosso contexto, é que há alguns investimentos, mas eles são diluídos em muitas pessoas e no final do dia não se consegue escalar aquela produtora.

O que leva o beneficiário do investimento a não conseguir registar um crescimento notável em termos de capital  na velocidade que o país precisa e sem capacidade para competir no mercado.

PM: Quais são os principais mercados de exportação e que incentivos temos ao dispor para atracção de investimentos para o sector agrário e de promoção de exportações de produtos/commodities agrícolas de Moçambique?  

HC: Neste momento, penso que uma das iniciativas que se destaca em relação ao incentivo à exportação, que é um dos veículos de fortalecimento e incremento das exportações de Moçambique, centra-se na Lei do Crescimento e Oportunidades para África (AGOA), uma lei comercial americana que prevê o acesso isento de tarifas alfandegárias e livre de quotas no mercado norte americano, de grande parte de bens produzidos em países qualificados da África Subsaariana (ASS) e temos igualmente o regime especial que permite a cooperação entre os países da SADC que nos tem dado alguns privilégios.

No que toca os mercados, os principais destinos de exportação de Moçambique são a África do Sul, a Índia, a Holanda e a China.

PM: Qual é o impacto da Bindzu no mercado nacional e que desafios abraçam para desenvolver Moçambique?

HC: A Bindzu é uma média empresa que opera com maior enfoque no agenciamento do mercado.

Em termos de impacto, diria que, nós temos uma colocação de produtos, numa escala de mais ou menos 10% do que circula em termos de produtos no mercado grossista.

A empresa possui produtos e serviços ao longo da cadeia de valor agrícola. Tal facto permite a empresa ter conhecimento de processos a montante e a jusante da cadeia de valor agrícola, que ajudam a maximizar a eficiência e utilidade destes para o consumidor.

O facto da empresa trabalhar em todas as etapas da cadeia de valor permite demonstrar técnicas e transferência de tecnologia para outros agricultores na consultoria, mas também são clientes potenciais em equipamentos e insumos vendidos e podem comprá-los após certificar sua importância e qualidade. Durante todas essas fases, a Bindzu fornece insumos e equipamentos necessários para produzir, a fim de garantir a sustentabilidade do produtor, sabendo que essa é uma questão-chave para manter a sustentabilidade da empresa também.

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